Mundo ficciónIniciar sesiónDepois que enviei a mensagem, fiquei olhando para a tela como se ela fosse me dar alguma resposta além daquela confirmação silenciosa de “entregue”. O tempo começou a passar devagar demais, cada minuto arrastado, como se o dia tivesse decidido me testar até o limite. Tentei me distrair arrumando o quarto, dobrando roupas que nem estavam tão bagunçadas assim, mas minha cabeça voltava sempre para o mesmo lugar. Lucas. Sempre ele.
Quase meia hora depois, o celular vibrou na minha mão. “Onde?” Só isso. Sem “oi”, sem “tudo bem”, sem nada. Respirei fundo antes de responder. “A gente pode se encontrar perto da praça.” Demorou alguns minutos, mas ele respondeu: “Tô indo.”Simples.
Direto.
Frio.
Meu coração acelerou de um jeito que não era só ansiedade. Era como se alguma coisa dentro de mim já soubesse que aquela conversa não ia terminar bem.
Troquei de roupa sem pensar muito, prendi o cabelo de qualquer jeito e saí de casa sem falar nada. Minha mãe ainda estava na cozinha, mas eu não tinha cabeça pra explicar naquele momento. Só precisava resolver aquilo. O caminho até a praça pareceu mais longo do que o normal. O sol já estava mais alto, o movimento de sábado começando, gente andando de um lado pro outro como se o mundo estivesse completamente normal. E talvez estivesse mesmo… só não o meu. Quando cheguei, ele já estava lá. Encostado perto de um banco, olhando o celular. Por um segundo, meu coração apertou de um jeito estranho. Não era saudade exatamente… era mais uma lembrança de como aquilo tudo costumava ser diferente. Me aproximei devagar. — Oi. Ele levantou o olhar, guardou o celular no bolso. — Oi. O silêncio que veio depois foi desconfortável. Não era como antes, quando a gente ficava em silêncio sem problema nenhum. Agora parecia que cada segundo sem falar só aumentava a distância entre a gente. — A gente precisa conversar — falei, quebrando o clima. — Eu sei. Esperei ele continuar. Mas não continuou. Respirei fundo. — O que tá acontecendo com você, Lucas? Ele desviou o olhar por um instante, como se estivesse escolhendo as palavras. — Nada. Soltei um riso curto, sem humor. — Nada? Tu tá me evitando faz dias, responde seco, some… e isso é “nada”? — Eu já falei que tô pensando. — Pensando em quê? Ele passou a mão no rosto, claramente incomodado. — Em tudo, Ana. Isso não é simples. — Eu sei que não é simples — respondi, tentando manter a calma — mas tu simplesmente me deixou sozinha nisso. — Eu não te deixei sozinha. — Deixou sim! Minha voz saiu mais alta do que eu queria, chamando a atenção de algumas pessoas que passavam por perto. — Tu acha que mandar mensagem de vez em quando resolve alguma coisa? Eu tô passando por isso todo dia, Lucas. Sozinha! Ele me olhou, agora mais sério. — E tu acha que pra mim tá sendo fácil? — Não parece! O silêncio caiu entre a gente por um segundo, pesado. — Eu não sei o que fazer, tá? — ele falou, a voz um pouco mais alterada — eu não planejei isso. — Nem eu! — Mas tu parece que já aceitou tudo! Aquilo me pegou. — Eu aceitei porque não tem escolha! — respondi — isso tá acontecendo, gostando ou não! Ele ficou quieto por um momento, olhando pro chão. — Eu não tô pronto pra isso — disse, mais baixo. As palavras dele doeram mais do que qualquer grito. — E tu acha que eu tô? Ele não respondeu. — Eu também tenho medo, Lucas. Eu também não sei como vai ser. Mas eu não posso simplesmente fingir que isso não existe. — Eu não tô fingindo. — Tá sim! — insisti — tu tá vivendo como se nada tivesse mudado, saindo com teus amigos, sumindo… enquanto eu tô aqui tentando entender como minha vida virou de cabeça pra baixo. Ele soltou um suspiro irritado. — E o que tu quer que eu faça? Me trancar em casa e surtar? — Eu queria que tu estivesse comigo! Minha voz falhou no final. Aquilo não era mais só raiva. Era dor. Ele me olhou por alguns segundos, e por um instante eu achei que ele ia falar alguma coisa diferente. Que ia se aproximar, que ia tentar… qualquer coisa. Mas não. — Eu preciso de tempo — ele disse. Balancei a cabeça, sentindo o nó na garganta apertar. — Tempo pra quê? — Pra pensar. — Tu já tá tendo tempo faz dias! — E não foi suficiente! A resposta veio mais rápida, mais dura. O silêncio voltou, mais pesado ainda. — E enquanto isso? — perguntei — eu faço o quê? Ele não respondeu na hora. E aquele silêncio… já era uma resposta. — Tu vai assumir o bebê? — perguntei, direto. Ele desviou o olhar. — Eu não sei. Ali. Naquele momento. Alguma coisa dentro de mim quebrou. Não foi um barulho alto, nem um drama exagerado. Foi silencioso, quase imperceptível… mas definitivo. — Tu não sabe… — repeti, mais baixo. Ele passou a mão no cabelo, claramente desconfortável. — Eu não sei, Ana. Eu não posso te dar uma resposta agora. Assenti devagar, sentindo os olhos arderem, mas me recusando a chorar na frente dele. — Então deixa eu te dar uma — falei, mais firme do que eu esperava. Ele me olhou. — Eu não vou implorar pra tu ficar. O silêncio se instalou de novo. — Se tu quiser fazer parte disso… tu vai ter que decidir. Mas eu não vou ficar correndo atrás de alguém que não sabe se quer estar aqui. Ele não disse nada. Nem tentou me impedir. Nem tentou argumentar. Nada. E aquilo… foi pior do que qualquer briga. Passei por ele sem falar mais nada, sentindo o coração pesado, mas com uma estranha sensação de clareza começando a surgir no meio da dor. Dessa vez, não era só medo. Era entendimento. Quando cheguei em casa, minha mãe me chamou da cozinha, perguntando se eu tinha comido alguma coisa. Eu disse que não estava com fome, o que já estava virando rotina, mas ela insistiu e colocou um prato pra mim mesmo assim. Sentei mais por ela do que por mim, mexendo na comida enquanto minha cabeça ainda estava na conversa. Comi devagar, quase sem sentir o gosto, só tentando não preocupar mais do que já estava. Depois fui pro quarto, fechei a porta e me deitei, encarando o teto. O celular ficou ao meu lado. Sem mensagem. Sem ligação. Sem nada. Mas, pela primeira vez… eu não esperei.






