Mundo ficciónIniciar sesiónVersão de Lucas
Eu nunca pensei que fosse ser assim. Na verdade, eu nunca pensei muito nisso. Ser pai sempre foi uma ideia distante, algo que acontecia com outras pessoas, com gente mais velha, com quem já tinha a vida resolvida. Não comigo. Não agora. Desde o momento em que a Ana falou da gravidez, alguma coisa travou dentro de mim. Não foi falta de sentimento, nem porque eu não me importava com ela. Foi medo. Um medo que eu não sabia explicar, mas que parecia crescer cada vez que eu tentava encarar a situação de frente. Eu lembrava dela sentada na minha frente, com a voz baixa e os olhos cheios de incerteza, tentando se manter firme. E eu também lembrava de mim ali, sem saber o que dizer, sem conseguir dar a resposta que ela precisava. Qualquer coisa que eu falasse parecia insuficiente, então acabei fazendo o que sempre faço quando não sei lidar com algo: me afastei. Não foi uma decisão consciente no começo. Eu só comecei a responder menos, a demorar mais, a evitar conversas que exigiam mais de mim. Sempre com a mesma desculpa na cabeça: depois eu resolvo, depois eu explico, depois eu vejo isso direito. Mas esse “depois” nunca chegava, e quando percebi, já tinha virado distância. O Diego foi o primeiro a notar que tinha algo errado. A gente estava sentado em um barzinho, como fazia quase todo fim de semana, e ele ficou me olhando por alguns segundos antes de perguntar: — Que cara é essa? Parece que deu tudo errado. Soltei um riso sem graça e mexi no copo. — Quase isso. — Então fala logo. Fiquei em silêncio por um momento, pensando se devia mesmo contar, mas acabei falando: — A Ana tá grávida. Ele arregalou os olhos, surpreso. — Tá zoando. — Queria eu. Ele se recostou na cadeira, ainda tentando processar. — E agora? Essa pergunta parecia me perseguir. Todo mundo fazia, mas ninguém sabia responder. — Não sei — admiti. Ele ficou em silêncio por um instante, depois deu de ombros. — Mano, tu é novo. Tua vida tá começando agora. — Eu sei. — Vai se amarrar nisso? A forma como ele falou me incomodou mais do que eu queria admitir. — “Isso” é um filho — respondi, mais sério. — Eu sei, pô. Mas tu também tem que pensar em ti. Fiquei quieto depois disso, porque, no fundo, eu já estava pensando. E era exatamente isso que me deixava mais desconfortável. Enquanto a Ana provavelmente estava tentando entender como seguir em frente, eu só conseguia pensar em tudo o que eu podia perder. Nos dias seguintes, comecei a evitar ela de verdade. Cada mensagem que chegava parecia trazer junto uma cobrança que eu não sabia como responder. Eu olhava o celular, lia, pensava em responder… e deixava pra depois. Quando finalmente respondia, era algo curto, seco, o mínimo possível para não ter que entrar em uma conversa mais profunda. Quando ela ligava, era pior. Eu sabia que ela queria conversar de verdade, ouvir algo concreto, mas eu não tinha nada para oferecer além de dúvida. E, de algum jeito, isso foi me deixando irritado. Não exatamente com ela, mas com a situação inteira. Um dia, ela ligou duas vezes seguidas. Eu estava com o Diego e o Renan, e o celular não parava de vibrar na mesa. — Atende logo — o Renan disse — ela não vai desistir. Suspirei antes de pegar o celular e me afastar um pouco. — O que foi, Ana? — falei mais baixo. Ela foi direta. — Eu tô tentando falar com você faz dias. Fechei os olhos por um instante. — Eu tô ocupado. — Ocupado com o quê? Olhei em volta. Gente conversando, música, risadas. Nada realmente importante, mas mesmo assim respondi: — Coisa minha. Assim que falei, percebi que tinha sido frio demais. Mas não corrigi. Já estava feito. A conversa não durou muito depois disso. Ela queria presença, queria clareza, queria saber o que estava acontecendo. Eu queria tempo, queria espaço, queria não ter que decidir nada naquele momento. E essas duas coisas simplesmente não combinavam. Quando desliguei, fiquei olhando para o celular por alguns segundos, sem saber exatamente o que estava sentindo. — Deu ruim? — o Diego perguntou. — Tá tudo dando ruim — respondi, passando a mão no rosto. Ele deu um gole na bebida antes de falar: — Vou te falar a real… se tu continuar assim, tu vai acabar preso numa vida que nem escolheu. Aquilo ficou na minha cabeça mais do que eu gostaria. Porque, no fundo, era exatamente assim que eu estava me sentindo. No dia seguinte, acabei passando na frente da loja onde a Ana trabalha. Nem sei direito por que fui até lá. Talvez quisesse ver ela, talvez quisesse criar coragem para entrar e conversar. Ou talvez só quisesse confirmar que aquilo tudo ainda estava acontecendo de verdade. Quando olhei para dentro, vi ela atendendo uma cliente. Ela parecia concentrada, tentando agir normalmente, mas havia algo diferente. Ela estava mais quieta, mais cansada. Não era a mesma de antes. Por um instante, pensei em entrar. Mas não entrei. Ela levantou o olhar e me viu. Eu percebi na hora. E, mesmo assim, virei o rosto e continuei andando, como se não tivesse visto nada. Enquanto me afastava, uma sensação estranha ficou no peito. Não era exatamente culpa, mas também não era indiferença. Era como se eu soubesse que estava fazendo tudo errado, mas ainda assim não conseguisse agir de outra forma. Eu queria ter uma resposta. Queria saber o que fazer, como resolver, como não estragar tudo. Mas, no lugar disso, eu só tinha dúvida. E, no meio de toda essa confusão, uma coisa começou a ficar clara, mesmo que eu não quisesse admitir: Eu estava me afastando da Ana. E talvez, quando eu finalmente entendesse isso… já fosse tarde demais.






