Mundo ficciónIniciar sesiónNo começo, eu tentei fingir que nada tinha mudado.
Era mais fácil assim.
Depois que o Lucas saiu do meu quarto naquele dia, eu fiquei esperando uma mensagem. Qualquer coisa. Um “chegou bem”, um “tô pensando”, qualquer sinal de que ele ainda estava ali comigo, mesmo que confuso.
Mas não veio.
Naquela noite, dormi com o celular na mão, acordando de hora em hora pra ver se tinha alguma notificação. Nada. Nem uma ligação, nem uma mensagem. Só o silêncio, pesado, como se dississe mais do que qualquer palavra.
No dia seguinte, acordei atrasada para o trabalho. Meu corpo parecia mais cansado do que o normal, como se eu não tivesse descansado nada. Me arrumei rápido, tentando ignorar o enjoo leve que insistia em aparecer, e saí sem tomar café.
Eu trabalhava em uma loja de roupas femininas no centro, a Essência Moda Feminina. Não era uma loja grande, mas era bem arrumada, daquelas que sempre tinham vitrine bonita e música ambiente baixa tocando o dia inteiro. Eu gostava de lá… ou pelo menos gostava antes de tudo começar a sair do lugar.
A loja já estava aberta quando cheguei, e a primeira coisa que vi foi a cara fechada da gerente.
— Bonito, hein, Ana — ela disse, cruzando os braços — quase dez minutos atrasada.
— Desculpa, eu perdi o horário…
— Problema seu, não meu. Aqui tem responsabilidade.
Assenti em silêncio, indo direto pro meu lugar. Não era um bom dia pra discutir. Na verdade, eu sentia que não era um bom dia pra nada.
Passei a manhã atendendo clientes no automático. Sorria, mostrava peças, dobrava roupas, sugeria combinações, mas minha cabeça estava em outro lugar o tempo todo. Em cada intervalo de silêncio, eu pegava o celular escondido, esperando ver o nome dele na tela.
Mas nada.
Foi só perto da hora do almoço que a mensagem chegou.
“Tô meio ocupado hoje.”
Fiquei olhando praquilo por alguns segundos, tentando entender. Aquilo não era uma resposta. Nem sequer era uma conversa.
Respirei fundo e respondi:
“A gente precisa conversar.”
Demorou.
E quando veio, foi pior.
“Depois a gente fala.”
Depois.
Sempre depois.
Guardei o celular e tentei continuar o trabalho, mas alguma coisa dentro de mim já tinha começado a apertar. Não era briga. Não era discussão.
Era distância.
E ela doía de um jeito diferente.
Os dias seguintes foram assim. Mensagens curtas. Respostas demoradas. Desculpas vagas.
“tô ocupado”
“depois falo contigo”
“não posso agora”
No começo, eu tentei entender. Pensei que ele realmente estivesse assustado, que precisava de tempo, que aquilo tudo fosse só o jeito dele lidar. Mas o tempo passava… e ele só se afastava mais.
Na quarta-feira, tentei ligar.
Chamou.
Chamou.
E nada.
Minutos depois, chegou uma mensagem:
“Não posso falar agora.”
Eu liguei de novo.
Dessa vez, ele atendeu.
— O que foi, Ana? — a voz dele veio baixa, como se estivesse em algum lugar onde não podia falar.
— O que foi? — repeti, tentando controlar a voz — eu tô tentando falar com você faz dias.
— Eu sei, mas eu tô ocupado.
— Ocupado com o quê?
Ele ficou em silêncio por um segundo.
— Com coisa minha.
Aquilo me incomodou.
— “Coisa minha”? Desde quando você fala assim comigo?
— Desde que minha vida virou de cabeça pra baixo — ele respondeu, um pouco mais seco.
O jeito dele falar me pegou de surpresa.
— A minha também virou, Lucas.
— Eu sei.
Mas não parecia que sabia.
— Então por que você tá me tratando assim?
Silêncio.
Eu conseguia ouvir barulho ao fundo. Vozes. Talvez música.
— Você tá onde? — perguntei.
— Na rua.
— Com quem?
— Com uns amigos.
Aquilo apertou meu peito.
— Sério? — minha voz saiu mais baixa — você tá saindo como se nada tivesse acontecendo?
— E você quer que eu faça o quê? Fique trancado em casa surtando?
— Eu queria que você estivesse comigo!
As palavras saíram mais fortes do que eu planejava.
Ele suspirou.
— Ana, eu não sei lidar com isso ainda.
— Então a solução é me evitar?
— Eu não tô te evitando.
— Tá sim!
Minha voz já estava tremendo.
— Você não responde, não aparece, não fala comigo direito…
— Eu tô pensando, já falei!
— Pensando sozinho!
Outro silêncio.
Mais pesado dessa vez.
— Depois a gente conversa melhor, tá? — ele disse, já querendo encerrar.
— Lucas…
Mas a ligação caiu.
Fiquei olhando pra tela por alguns segundos, sem acreditar.
A sensação era estranha. Não era como uma briga comum, onde os dois falam, gritam, resolvem ou pioram. Aquilo era diferente.
Era como se ele estivesse saindo da minha vida aos poucos… sem precisar dizer.
Naquela noite, o enjoo voltou mais forte. Corri pro banheiro e me apoiei na pia, tentando controlar a respiração. Meu reflexo no espelho parecia mais pálido, mais cansado.
Passei a mão no rosto e, sem perceber, meus olhos encheram de lágrima.
Não era só pelo corpo.
Era por tudo.
Pelo medo.
Pela incerteza.
Pela forma como ele estava se afastando… justo quando eu mais precisava.
Coloquei a mão na barriga ainda plana, tentando entender como algo tão pequeno já conseguia mudar tanto.
— Eu não sei o que fazer… — sussurrei.
E pela segunda vez…
eu me senti completamente sozinha.
No dia seguinte, ele passou pela loja.
Não entrou.
Só passou.
Eu vi.
Ele me viu.
Mas fingiu que não.
E aquilo…
doeu mais do que qualquer palavra.







