Mundo ficciónIniciar sesiónVersão de Ana
Depois da conversa com o Lucas, alguma coisa dentro de mim mudou de um jeito silencioso, mas firme. Não era que a dor tivesse passado, nem que eu estivesse bem, mas parecia que eu tinha parado de esperar alguma coisa dele. E isso, de certa forma, doía mais do que antes. Era estranho perceber que o vazio que ficava não vinha só da ausência dele, mas da falta de resposta, de direção, de qualquer certeza.
Passei o resto do sábado em casa, tentando manter uma rotina que já não fazia tanto sentido. Minha mãe andava mais quieta, me observando de longe, como se estivesse tentando entender como agir sem piorar a situação. Já o Carlos nem tentava esconder o incômodo. Cada olhar, cada comentário atravessado, deixava claro que minha presença ali tinha mudado de significado.
Já era noite quando tentei ajudar na cozinha, mais por tentativa de aliviar o clima do que por vontade mesmo. Cortei alguns legumes em silêncio enquanto minha mãe mexia a panela no fogão. O barulho do óleo estalando era praticamente o único som entre a gente.
— Tu comeu direito hoje? — ela perguntou, sem me olhar.
— Mais ou menos.
Ela suspirou.
— Ana… tu precisa se cuidar.
Assenti, mesmo sabendo que não estava fazendo isso direito.
— Eu sei.
O silêncio voltou, mas dessa vez não era desconfortável. Era mais… carregado de preocupação.
— A gente vai dar um jeito — ela disse depois de alguns segundos.
Antes que eu pudesse responder, a voz dele veio da sala.
— Dar um jeito como?
Meu corpo ficou tenso na hora.
Ele apareceu na porta da cozinha, encostando no batente com os braços cruzados.
— Eu quero entender qual é o plano — continuou — porque até agora só vejo problema.
Minha mãe virou pra ele, já mais firme.
— Não começa.
— Eu não tô começando nada — ele rebateu — eu só quero saber como isso vai funcionar.
Olhei entre os dois, sentindo o clima pesar de novo.
— Eu vou continuar trabalhando — falei, tentando me manter calma — e vou dar um jeito.
Ele riu, mas não foi um riso bom.
— Dar um jeito? Com esse salário?
Engoli seco.
— Eu não tô pedindo nada pra você.
— Ainda — ele respondeu na hora.
Minha mãe bateu a colher na panela, mais forte do que o normal.
— Chega.
Mas ele não parou.
— Isso aqui não é brincadeira — disse, apontando na minha direção — criança não cria criança.
— Eu não sou criança! — respondi, sentindo a voz subir.
— Então começa a agir como adulta!
O silêncio caiu pesado.
— Eu tô tentando — falei, mais baixo, mas firme — diferente de muita gente.
Ele me encarou por alguns segundos, claramente irritado.
— Então resolve tua vida — disse — porque aqui não vai dar.
Minha mãe virou na hora.
— Como assim “não vai dar”?
— Assim — ele respondeu, seco — eu não vou sustentar mais um nessa casa.
— Ninguém tá pedindo isso!
— Mas vai precisar!
— Não vai!
A discussão começou a crescer de um jeito que parecia fugir do controle. Eu fiquei parada no meio da cozinha, sentindo o coração disparado, como se estivesse assistindo aquilo de fora, mas sendo o motivo de tudo.
— Ela é minha filha! — minha mãe disse, agora alterada.
— E eu não sou obrigado a aceitar tudo! — ele retrucou.
— Isso não é “tudo”, é uma situação!
— Uma situação que ela criou!
As palavras vieram como um soco.
— Eu não fiz isso sozinha — falei, já sem conseguir segurar.
— Mas vai arcar sozinha — ele respondeu, na mesma hora.
Aquilo foi o limite.
— Chega! — minha mãe gritou, coisa que ela quase nunca fazia.
O silêncio veio pesado, mas não durou muito.
— Ou ela resolve essa situação… ou não fica aqui — ele completou.
O mundo pareceu parar por um segundo.
— Tu tá me expulsando? — perguntei, sentindo a voz falhar.
Ele não respondeu direto.
Mas também não negou.
Minha mãe ficou completamente sem reação.
— Ela não vai sair de casa — disse, mais baixa agora, mas ainda firme.
— Então eu saio.
O impacto foi imediato.
— Para com isso — ela disse, claramente abalada.
— Eu tô falando sério — ele respondeu — eu não vou viver desse jeito.
O silêncio que veio depois foi o pior de todos.
Porque agora… era real.
Não era mais só discussão.
Era escolha.
Eu não falei mais nada. Saí da cozinha antes que começasse a chorar ali na frente deles e fui direto pro quarto. Fechei a porta com força e me encostei nela, tentando controlar a respiração.
Meu peito doía. Minha cabeça girava. E, pela primeira vez, a ideia de sair de casa deixou de ser um pensamento distante e virou uma possibilidade concreta.
Sentei na cama e levei as mãos ao rosto, tentando segurar o choro que insistia em vir. Não era só pela briga, nem só pelas palavras dele. Era pela sensação de não ter mais lugar.
Olhei em volta do quarto. Minhas coisas. Minha cama. Minha vida inteira ali. E, mesmo assim… parecia que já não era mais meu.
Peguei o celular com as mãos ainda tremendo. Abri a conversa com a Bruna.
“Deu ruim.”
Ela respondeu quase na hora.
“O que aconteceu?”
Respirei fundo antes de digitar:
“Acho que vou ter que sair de casa.”
Fiquei olhando pra tela depois de enviar, sentindo o peso daquilo tudo cair de uma vez.
Dessa vez… não era só sentimento.
Era realidade.







