Mundo ficciónIniciar sesiónDepois da conversa com a Bruna no dia anterior, eu praticamente não dormi. Fiquei rolando de um lado pro outro na cama, olhando o celular de vez em quando, mesmo sabendo que não ia ter mensagem nenhuma do Lucas. Minha cabeça não parava. Cada vez que eu fechava os olhos, parecia que tudo ficava ainda mais alto dentro de mim.
Quando o despertador tocou, nem fez diferença. Eu já estava acordada. Era sábado. Não tinha trabalho, não tinha desculpa, não tinha mais como adiar. Fiquei alguns minutos sentada na cama, em silêncio, tentando reunir coragem pra levantar. O corpo ainda estava pesado, e o enjoo veio fraco, mas suficiente pra me lembrar de que aquilo tudo era real. Levantei devagar e fui direto pro banheiro. Lavei o rosto, escovei os dentes e fiquei me olhando no espelho por alguns segundos. Eu parecia a mesma de sempre… mas não era. Passei a mão no cabelo preso de qualquer jeito e respirei fundo antes de sair. O cheiro de café já vinha da cozinha. Minha mãe, Sandra, estava de pé perto do fogão, mexendo em uma panela, como fazia todas as manhãs. Sempre tentando manter a rotina funcionando, como se isso fosse suficiente pra segurar a casa no lugar. Ela era assim, tentava equilibrar tudo, evitar conflito, manter a paz mesmo quando as coisas não estavam bem. Meu padrasto, Carlos, estava sentado à mesa, olhando o celular, com a xícara já pela metade. Diferente dela, ele nunca se preocupou muito em manter clima nenhum. Era direto, seco, sempre com alguma crítica pronta, como se estivesse só esperando o momento certo pra falar. Era uma cena tão comum… que chegava a doer saber que, em poucos minutos, nada ali ia ser igual. — Bom dia — falei, tentando manter a voz normal. — Bom dia — minha mãe respondeu, me olhando de relance — dormiu bem? Dei de ombros. — Mais ou menos. Ela colocou café na minha xícara e empurrou um prato com pão pra perto de mim. — Come alguma coisa. Sentei devagar. Peguei o pão, mas fiquei alguns segundos só segurando, sem vontade nenhuma. Mesmo assim, dei uma mordida pequena, mais por hábito do que por fome. O café desceu melhor. O silêncio da manhã era estranho. Não era pesado ainda… mas eu sabia que ia ficar. Olhei pra minha mãe. Depois pro Carlos. Meu coração começou a acelerar. — Mãe… — chamei, sentindo a voz falhar um pouco. Ela levantou o olhar na hora. — Oi? Engoli seco. — Eu preciso falar uma coisa. Ela já franziu a testa, percebendo que não era algo simples. — Pode falar. Carlos levantou os olhos do celular, agora prestando atenção. Era agora. — Eu tô grávida. A palavra ficou no ar. Pesada. Irreversível. Minha mãe ficou completamente parada, me olhando como se estivesse tentando entender o que eu tinha acabado de dizer. — Tu… o quê? — Grávida — repeti, mais baixo. A xícara dela parou no meio do caminho. — Ana… isso é sério? Assenti, sentindo o coração bater cada vez mais forte. — É do Lucas. O silêncio durou só alguns segundos antes de ser quebrado. — Eu sabia — Carlos falou, seco, jogando o celular na mesa, sabia que isso ia acontecer. Minha mãe ainda parecia em choque. — Calma… — ela disse, mais pra si mesma do que pra gente — calma, deixa eu entender… — Entender o quê? — ele cortou — já tá bem claro. Baixei o olhar, sentindo o clima mudar completamente. — Quantos anos tu tem mesmo? — ele continuou — dezoito, né? Já se acha adulta pra fazer isso? — Eu não fiz sozinha — respondi, segurando a voz. Ele soltou uma risada sem humor. — Ah, não? Mas quem é que vai sustentar agora? Aquilo me atingiu direto. — A gente vai dar um jeito — minha mãe disse, tentando manter o controle. — “A gente”? — ele olhou pra ela — tu tá falando sério? — É minha filha! — E isso aí? — ele apontou pra mim — tu acha que eu vou bancar? O jeito que ele falou fez meu estômago revirar. — Eu não tô pedindo nada — falei, mais firme. — Ainda não — ele respondeu. O silêncio voltou, mais pesado. Minha mãe passou a mão no rosto, claramente nervosa, tentando segurar a situação antes que piorasse mais. — O Lucas sabe? — ela perguntou. — Sabe. — E? Demorei alguns segundos. — Ele… tá estranho. Distante. Carlos soltou um riso irônico. — Claro. Some na primeira responsabilidade. Aquelas palavras doeram mais do que eu queria admitir. — A gente precisa conversar com calma — minha mãe insistiu, mesmo sem muita certeza. — Aqui não tem calma — ele respondeu — aqui tem consequência. Meu coração gelou. — Eu não vou aceitar isso aqui dentro — ele continuou — não vou. — Não fala assim — minha mãe disse, agora mais firme — a Ana precisa de apoio agora. — Apoio? — ele levantou da cadeira — apoio é não fazer besteira! — Eu não sou uma besteira! — minha voz saiu mais alta, quase tremendo. Ele me encarou. — Então prova. O silêncio que veio depois foi pesado, sufocante. Minha mãe olhou de mim pra ele, claramente dividida, presa entre tentar me proteger e não deixar a situação sair do controle. — A gente vai resolver isso — ela disse, mas já sem tanta certeza. Mas eu sabia. Nada ali ia ser simples. Depois disso, eu mal consegui terminar o café. Levantei antes dos dois, lavei minha xícara na pia e fui direto pro quarto, sentindo o corpo todo tenso. Fechei a porta e encostei nela por alguns segundos, respirando fundo. O silêncio da casa agora era outro. Mais frio. Mais distante. Me sentei na cama e peguei o celular. Nenhuma mensagem. Nenhuma ligação. Nada do Lucas. Fiquei olhando pra tela por alguns segundos, sentindo aquela mistura de raiva e tristeza crescer de novo. Abri a conversa. E digitei: “A gente precisa conversar. Hoje.” Enviei. Dessa vez… não tinha mais como esperar.






