4- Eu não estou sozinha

Versão de Ana

Eu tentei agir como se estivesse tudo bem, mas meu corpo começou a me desmentir antes mesmo da minha cabeça aceitar. Nos primeiros dias, ainda consegui manter uma aparência normal no trabalho, sorrindo para os clientes, dobrando roupas, fingindo interesse em coisas pequenas enquanto minha vida parecia estar desmoronando por dentro. Só que o cansaço começou a pesar de um jeito diferente, mais profundo, como se eu estivesse carregando algo invisível o tempo inteiro.

Na sexta-feira, eu quase não consegui almoçar. Abri a marmita no fundo da loja, mas o cheiro do arroz com feijão, que normalmente me dava fome, me fez enjoar na hora. Forcei algumas garfadas, mais por obrigação do que por vontade, mas acabei fechando o pote antes da metade. Fiquei sentada ali alguns minutos, respirando devagar, tentando fazer o enjoo passar antes de voltar para o atendimento.

Foi nesse estado que a Bruna me encontrou.

A gente se conhecia desde a escola, ainda no ensino médio. Sentava perto, dividia lanche, fazia trabalho juntas quando ninguém mais queria fazer. Com o tempo, virou amizade de verdade. Daquelas que não precisa falar tudo o tempo todo, mas que percebe quando alguma coisa não está certa.

— Ana… — ela chamou, me olhando de cima a baixo — o que tá acontecendo contigo?

Tentei sorrir, limpando a boca com o guardanapo.

— Nada, só tô meio cansada.

Ela cruzou os braços na hora.

— Tu acha mesmo que eu vou cair nessa?

Desviei o olhar, fingindo arrumar a marmita.

— É só trabalho, Bru.

— Não é não.

O jeito dela era direto, como sempre. Bruna nunca foi de aceitar resposta pela metade, e naquele momento eu não tinha força pra sustentar mentira nenhuma.

— Depois a gente conversa — falei baixo.

Ela me encarou por mais alguns segundos, como se estivesse decidindo se insistia ou não, mas acabou assentindo.

— Eu te espero lá fora.

Quando saí do trabalho, o corpo parecia mais pesado do que o normal. Eu só pensava em chegar em casa, tomar um banho e deitar, mas sabia que não ia conseguir fugir da conversa.

A Bruna estava sentada no meio-fio, mexendo no celular. Levantou assim que me viu e começou a andar ao meu lado, no mesmo ritmo.

— Agora tu vai me contar — ela disse, sem rodeio.

Respirei fundo.

— Eu tô grávida.

Ela parou na hora, me olhando como se tentasse ter certeza de que tinha ouvido direito.

— Tu tá falando sério?

Assenti.

O silêncio que veio depois não foi julgamento. Foi impacto. Ela passou a mão no cabelo, ainda tentando processar.

— É do Lucas?

— É.

Ela soltou o ar devagar e me puxou pra sentar em um banco ali perto.

— E aí? Como tu tá?

Dei um riso fraco, sem humor.

— Perdida.

— E ele?

Baixei o olhar.

— Tá distante… diferente… parece que eu virei um problema.

Falar aquilo em voz alta fez doer mais do que eu esperava. Senti os olhos encherem, mas segurei.

— Eu achei que ele ia ficar assustado, mas não assim. Não desse jeito.

A Bruna encostou a mão no meu braço.

— Ei… olha pra mim.

Levantei o olhar.

— Tu não tá sozinha, tá? Nem agora, nem depois.

Aquilo me desmontou por dentro de um jeito silencioso. Porque, até aquele momento, era exatamente assim que eu estava me sentindo.

— Eu tô com medo, Bru — confessei — eu não sei como vou dar conta de tudo isso.

— Tu vai — ela respondeu, firme — mas não pode ficar dependendo dele pra decidir tua vida. Se ele quiser estar contigo, ele vai ter que provar. Não é tu que tem que implorar presença.

Fiquei em silêncio, absorvendo cada palavra.

— E tua mãe? — ela perguntou.

— Ainda não contei.

— Ana…

— Eu sei. Eu preciso contar. Só… não sei como.

— E teu padrasto?

Soltei um riso sem graça.

— Esse é o problema.

Quando cheguei em casa, fui direto pro banheiro antes de qualquer coisa. Eu precisava de um minuto pra mim. Liguei o chuveiro e deixei a água cair quente nas costas, fechando os olhos enquanto tentava organizar os pensamentos. O barulho da água abafava tudo, e por alguns minutos parecia que o mundo lá fora tinha parado.

Mas não tinha.

Quando saí do banho, enrolada na toalha, a realidade voltou com tudo. Me troquei devagar, sem pressa, como se estivesse adiando o inevitável. O cheiro da comida vindo da cozinha me fez perceber que eu ainda não tinha comido direito o dia todo, mas, ao mesmo tempo, a ideia de comer não me animava.

Passei pela sala e meu padrasto nem tirou os olhos da televisão.

— Chegou tarde — ele comentou.

— Tava trabalhando.

— Trabalho não é desculpa pra tudo.

Ignorei e fui pra cozinha. Minha mãe estava mexendo na panela.

— Quer jantar? — ela perguntou.

Olhei pra comida e hesitei.

— Depois eu como.

— Ana, tu precisa comer direito.

— Eu sei… já venho.

Peguei um copo d’água e voltei pro quarto antes que ela perguntasse mais alguma coisa.

Fechei a porta e me sentei na cama, sentindo o silêncio me envolver de novo. Peguei o celular.

Nenhuma mensagem do Lucas.

Nem uma.

Respirei fundo, sentindo aquele aperto conhecido voltar.

Levei a mão até a barriga, ainda sem nenhuma mudança visível, mas já tão presente em tudo.

— A gente vai dar um jeito… — sussurrei.

Dessa vez, mesmo com medo…

eu não estava completamente sozinha.

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