Mundo ficciónIniciar sesiónDepois que mandei mensagem pra Bruna, fiquei sentada na cama olhando pro celular como se ele fosse me dizer o que fazer.
A casa estava em silêncio, mas não era um silêncio tranquilo. Era aquele tipo de silêncio que vem depois de uma briga — carregado, pesado — como se qualquer movimento pudesse começar tudo de novo.
A resposta dela veio rápido.
“Como assim sair de casa?”
Respirei fundo antes de responder.
“Deu uma briga feia aqui. Ele falou que assim não dá.”
Demorou alguns segundos.
“E tua mãe?”
Olhei pra porta fechada do quarto.
“Tá no meio… não sabe o que fazer.”
A bolinha de “digitando” apareceu e sumiu algumas vezes antes dela responder de novo.
“Se precisar, tu vem pra cá.”
Aquilo me pegou desprevenida. Fiquei alguns segundos olhando pra mensagem, sentindo um nó subir na garganta. Era bom saber que eu tinha pra onde ir… mas, ao mesmo tempo, aquilo tornava tudo mais real.
“Não sei ainda…” foi o que consegui responder.
Levantei da cama devagar, sentindo o corpo pesado, e fui até a porta. Abri com cuidado, como se tivesse medo de encontrar alguém do outro lado.
O corredor estava vazio. A luz da cozinha ainda estava acesa, mas não dava pra ouvir vozes.
Caminhei devagar até lá e encontrei minha mãe encostada na pia, de costas, com os braços apoiados, como se estivesse tentando se sustentar ali.
— Mãe… — chamei baixo.
Ela virou o rosto, e eu vi na hora que ela tinha chorado. Aquilo me desmontou por dentro.
— Oi… — respondeu, tentando disfarçar.
Me aproximei devagar.
— Desculpa.
Ela balançou a cabeça na hora.
— Não fala isso.
— Mas…
— Não fala isso, Ana — repetiu, mais firme — tu não é um problema.
Aquela frase bateu forte.
— Mas ele acha que eu sou.
Ela suspirou, passando a mão no rosto.
— Ele tá nervoso… é muita coisa de uma vez.
Fiquei em silêncio por alguns segundos.
— Ele falou sério, né?
Minha voz saiu mais baixa do que eu esperava.
Ela não respondeu na hora. E isso já foi uma resposta.
— Eu não quero sair daqui — falei, sentindo o peito apertar — mas também não quero ficar onde eu não sou bem-vinda.
Minha mãe fechou os olhos por um instante, claramente dividida.
— Eu só preciso de um tempo pra organizar isso tudo — disse — pra conversar com ele com calma…
— E se não resolver?
Ela me olhou, sem saber o que dizer.
O silêncio respondeu de novo.
Fiquei mais alguns minutos ali com ela, mas a conversa não foi muito além disso. Era como se nenhuma de nós tivesse resposta pra nada.
Antes de voltar pro quarto, peguei um prato e tentei comer alguma coisa, mais pela insistência dela do que por vontade. O arroz já estava frio, a comida sem gosto, mas ainda assim forcei algumas garfadas. Meu corpo precisava, mesmo que minha cabeça não ajudasse.
Depois lavei o prato automaticamente e voltei pro quarto. Dessa vez, não acendi a luz.
Me joguei na cama ainda com a roupa que estava, encarando o teto escuro enquanto a casa ia ficando cada vez mais silenciosa.
Peguei o celular de novo. Abri a conversa com o Lucas. Fiquei olhando. Pensei em mandar alguma coisa. Qualquer coisa.
Mas não mandei.
Não fazia mais sentido correr atrás de alguém que nem sabia se queria ficar.
Fechei a conversa.
Voltei pra da Bruna.
“Tu tem certeza?” digitei.
A resposta veio rápida.
“Tenho. Tu não vai ficar na rua, né.”
Soltei um suspiro leve, quase um riso sem humor.
“Não sei nem o que eu vou fazer ainda.”
“Então não decide hoje. Só descansa.”
Descansar. Parecia simples. Mas não era.
Levantei depois de um tempo e fui pro banheiro. Tirei a roupa devagar e entrei no chuveiro, deixando a água cair quente enquanto eu tentava acalmar a cabeça.
O barulho da água ajudava a abafar os pensamentos, mas não fazia eles sumirem.
Fechei os olhos, encostando a testa na parede fria.
Tudo estava mudando rápido demais. Minha casa. Meu relacionamento. Minha vida inteira.
Levei a mão até a barriga, ainda pequena, mas já tão presente em tudo.
— Eu vou dar um jeito… — sussurrei, mais pra mim do que pra qualquer outra coisa.
Não era uma promessa firme. Era mais… uma tentativa de acreditar.
Quando saí do banho, coloquei um pijama qualquer, sequei o cabelo só o básico e voltei pra cama.
A casa estava completamente silenciosa agora. Nem televisão ligada, nem conversa, nada.
Peguei o celular uma última vez.
Nenhuma mensagem nova. Nem da Bruna. Nem do Lucas.
Apaguei a luz. Deitei de lado, puxando o cobertor até o peito.
E fiquei ali.
Pensando. Sentindo.
Tentando entender em que momento tudo tinha saído do lugar.
E, pela primeira vez, a dúvida não era só sobre o que ia acontecer.
Era sobre onde eu realmente pertencia.







