Mundo ficciónIniciar sesiónEm uma Terra destruída pela terceira guerra, a única solução para sobrevivência é deixar a Terra, mas a que preço
Leer másA máscara embaçava sempre que Lisa respirava mais rápido. Não era defeito. Era um aviso.
O ar do lado de fora não perdoava distrações, era isso que diziam. Partículas tóxicas, resíduos da Terceira Guerra, camadas invisíveis de morte suspensas sobre a cidade cinza. Desde criança, Lisa aprendera que tirar a máscara era o mesmo que escolher morrer. Ainda assim, às vezes, ela afrouxava o ajuste só para testar. O ar entrava pesado, metálico, com um gosto amargo que grudava na língua. Não queimava. Não sufocava. Não matava de imediato. O medo fazia o resto, treinado desde cedo para completar qualquer sensação vaga com pânico suficiente para manter a obediência. — Ajuste corretamente — ordenou a voz nos alto-falantes. — A segurança da população depende da obediência individual. Lisa apertou a lateral da máscara e continuou andando. As ruas estavam cheias demais para um mundo que dizia estar acabando. Pessoas caminhavam em filas espontâneas, como se o caos tivesse aprendido a se organizar sozinho. Prédios altos demais, todos do mesmo concreto opaco, se alinhavam em blocos verticais que escondiam o céu. Não havia casas. Apenas edifícios-função: morar, trabalhar, esperar. Telas gigantes ocupavam fachadas inteiras, repetindo as mesmas frases com pequenas variações: AS NAVES SÃO A ÚNICA ESPERANÇA. A SELEÇÃO É NECESSÁRIA. CONFIE NO SISTEMA. Ela já não lia. Decorara. Passou por um grupo de crianças em uniformes acinzentados, todas do mesmo tamanho, todas com máscaras idênticas. O tecido era barato, rígido, feito para durar mais do que crescer com elas. Um instrutor apontava para o céu, onde um dirigível do governo cruzava lentamente, projetando o símbolo do Projeto Arca entre nuvens artificiais de controle climático. — Lá em cima, o ar é limpo — dizia ele. — Lá em cima, o futuro é possível. Lisa desviou o olhar. O prédio onde morava se erguia como todos os outros: um bloco de vinte andares, janelas estreitas, nenhuma varanda. Identificação numérica gravada na lateral (Setor Habitacional 3B) e câmeras suficientes para que ninguém se esquecesse de onde estava. O elevador raramente funcionava. As escadas cheiravam a desinfetante e ferrugem. A porta do apartamento rangia sempre, denunciando qualquer chegada. Em casa, o pai estava sentado à mesa, respirando com dificuldade contida. Ele mantinha a postura ereta demais, como se estivesse em avaliação constante, mesmo ali. A máscara dele parecia mais pesada do que deveria, presa por tiras já gastas, mas o sorriso vinha fácil demais para alguém que dizia estar bem. O cabelo começava a rarear nas laterais, e havia sombras permanentes sob os olhos, marcas que não apareciam nos exames oficiais. — Demorou — ele comentou. — Tinha inspeção no quarteirão três — Lisa respondeu, guardando a própria máscara. — Levaram dois. O pai assentiu, como quem registra uma informação técnica. Não perguntou quem. Nunca perguntava. Perguntar era um luxo perigoso. As irmãs, Diana e Camila, estavam no chão, desenhando com lápis quase sem ponta. Diana, com doze anos, tentava copiar as formas perfeitas vistas nos cartazes do governo, círculos, linhas retas, símbolos de ordem. Camila, com seis, rabiscava sóis tortos e figuras sem nome, ignorando qualquer noção de utilidade. O papel era reaproveitado, fino demais, mas elas riam como se aquilo fosse suficiente. Lisa observou a cena por alguns segundos a mais do que o necessário, como se tentasse gravá-la. — Vai acontecer — o pai disse, baixo. — A evacuação. Ela sabia. Todos sabiam. O governo não avisava quando. Avisava apenas que seria inevitável. — E se não formos escolhidos? — perguntou uma das meninas, sem levantar os olhos do desenho. O pai respondeu antes de Lisa. — Todos úteis são escolhidos. Lisa engoliu em seco. Úteis. Depois da janta, quando as luzes do prédio reduziram automaticamente para o nível noturno, Lisa se pegou parada perto da janela estreita do apartamento. O vidro era grosso demais para abrir, mas deixava passar estrelas suficientes ou o que o sistema permitia chamar de estrelas. Ela começou a contar histórias para as irmãs, versões antigas sobre constelações que aprendera na escola antes de o currículo ser reformulado. Histórias sem função prática. Camila adormeceu primeiro. Diana fingiu resistir. O céu mudou primeiro. Não foi imediato, nem dramático. Apenas… errado. As nuvens começaram a se mover em padrões que não pertenciam à natureza. Não era vento. Era organização. Camadas se alinhando como peças de um mecanismo invisível, formando uma massa espessa demais para ser real. Um brilho diferente. Artificial demais para ser confundido. Holofotes cortavam as nuvens enquanto drones de vigilância redesenhavam a cidade em linhas invisíveis, recalculando rotas, fluxos e pessoas. — Lisa… — a voz do meu pai saiu baixa ao meu lado. Virei o rosto devagar. Ele segurava a mão de Camila com força demais. Pequena, magra, coçando os olhos. Diana estava do outro lado, colada nele, os dedos enterrados na manga do casaco com o olhar atento demais para a idade. — O que está acontecendo? — Diana perguntou. Ela odiava não entender as coisas. O silêncio a deixava inquieta. Mesmo assim não consegui responder. Meu corpo inteiro estava tenso, como se um alarme tivesse sido ativado dentro de mim antes de qualquer som externo. Então a mensagem apareceu. Painéis holográficos se acenderam ao mesmo tempo. Nos prédios. Nos postes. Nos dispositivos pessoais. Até o chão projetava luz em alguns pontos. A mesma mensagem, repetida, sincronizada, impossível de ignorar: PROJETO ARCA INICIADO EVACUAÇÃO IMEDIATA. COMPAREÇA AO PONTO DESIGNADO. Sem contagem regressiva. Sem preparo. A palavra ecoou na minha cabeça como uma ameaça. — Isso é real? — minha irmã sussurrou. Meu pai não respondeu. O maxilar dele estava rígido. Ela odiava não entender as coisas. O silêncio a deixava inquieta. O governo sempre disse que esse dia poderia chegar. Crescemos ouvindo que a Terra estava morrendo. Que as guerras haviam deixado cicatrizes irreversíveis. Que existia um plano. O problema dos planos é que eles sempre exigem sacrifícios. Lisa se ajoelhou diante das irmãs, segurando os rostos pequenos entre as mãos. — Lembrem do treinamento — disse, firme. — Fila. Silêncio. Não soltem minha mão. Não falem com ninguém.Lisa acordou com a sensação absurda de normalidade. Por um segundo inteiro, talvez dois, acreditou que tudo tinha sido um sonho. A luz constante no teto lembrava a de um quarto comum, doméstico demais para ser real. O colchão sob seu corpo era firme, quase confortável. O silêncio não gritava perigo. Era controlado. Calculado para parecer seguro. Então ela lembrou. Não houve choque. Houve peso. Virou o rosto e viu Camila dormindo encolhida, o corpo pequeno comprimido como se ainda tentasse ocupar menos espaço no mundo. Havia marcas de choro seco no rosto, linhas finas sob os olhos que Lisa reconhecia bem demais — as mesmas que apareciam no espelho quando ela própria passava noites em claro. Diana estava sentada na cama ao lado, acordada havia tempo demais. Os joelhos puxados contra o peito, as mãos entrelaçadas com força excessiva. Observava o alojamento como quem tenta memorizar uma saída que não existe, catalogando paredes, ângulos, padrões invisíveis. — Ainda estamos aqui —
A subida terminou sem aviso.Não houve impacto, nem solavanco. Apenas um ajuste quase imperceptível no peso do corpo, como se a gravidade tivesse sido renegociada e decidido cooperar.As projeções no teto desapareceram uma a uma. O planeta azul dissolveu-se em dados, depois em luz, depois em nada. O silêncio que se seguiu não foi natural. Era o tipo de silêncio imposto, calibrado para não permitir perguntas.— Procedimento de ancoragem concluído — anunciou a voz. — Bem-vindos à Arca.As luzes mudaram de tonalidade. Não mais branco absoluto, mas um cinza claro, neutro, cansado. As cadeiras se retraíram no chão com um mecanismo suave demais para parecer opcional. O piso vibrou sob os pés quando fomos obrigados a nos levantar.As portas se abriram.Não para o espaço.Para dentro.Um corredor longo surgiu, feito do mesmo material liso e sem marcas de tudo ali. Não havia janelas. Nenhuma visão externa. A Arca não se apresentava. Não precisava.Drones surgiram em formação precisa, flutuando
O interior da nave não parecia um refúgio.Parecia um erro caro demais para admitir falha.O ar dentro da nave tinha cheiro de metal limpo.Não era desagradável.Isso era o pior.As portas se fecharam atrás de nós com um som limpo, quase elegante, e o ruído da cidade morreu do lado de fora como se nunca tivesse existido. A luz branca permaneceu constante, forte demais para ser acolhedora. — Não solta a minha mão — eu disse às minhas irmãs, sem saber se falava para ela ou para mim.Camila encostada em meu ombro. O corpo pequeno estava quente, pesado, confiando em mim de um jeito que me deu vontade de gritar. Diana permanecia alerta, os olhos correndo de um lado para o outro, absorvendo tudo com uma atenção tensa. O túnel se abriu em um corredor largo, curvo, que parecia não ter fim. Não havia cantos. Nada ali era reto o suficiente para servir de referência. As paredes pareciam se mover levemente conforme caminhávamos, criando a sensação de que o espaço estava sempre se ajustando a n
A rua explodiu em movimento.Lisa segurou as mãos das irmãs enquanto o pai caminhava atrás, silencioso demais.Camila começou a chorar quando um drone se aproximou demais, escaneando seu rosto. Meu pai a pegou no colo sem dizer nada. Diana manteve os olhos no chão, contando os passos, como fazia quando estava nervosa.Eu observava tudo.Soldados guiavam a multidão com gestos precisos. Alinhados demais. Simétricos demais. Uniformes escuros, armas visíveis, rostos ocultos pelos capacetes e nenhuma identificação além do símbolo dourado do governo no peito.Não eram ali para ajudar. Eram ali para garantir que ninguém atrapalhasse.— Sigam as marcações — anunciou uma voz sem gênero, vinda de todos os lados. — Mantenham a calma. A evacuação é obrigatória.Obrigatória.Ninguém gritava.O medo ali era educado.As naves surgiram no horizonte. Enormes. Metálicas. Silenciosas demais para algo daquele tamanho.Suspensas.Simplesmente estavam lá como se sempre tivessem pertencido àquele lugar. De
A máscara embaçava sempre que Lisa respirava mais rápido. Não era defeito. Era um aviso.O ar do lado de fora não perdoava distrações, era isso que diziam. Partículas tóxicas, resíduos da Terceira Guerra, camadas invisíveis de morte suspensas sobre a cidade cinza. Desde criança, Lisa aprendera que tirar a máscara era o mesmo que escolher morrer.Ainda assim, às vezes, ela afrouxava o ajuste só para testar.O ar entrava pesado, metálico, com um gosto amargo que grudava na língua. Não queimava. Não sufocava. Não matava de imediato. O medo fazia o resto, treinado desde cedo para completar qualquer sensação vaga com pânico suficiente para manter a obediência.— Ajuste corretamente — ordenou a voz nos alto-falantes. — A segurança da população depende da obediência individual.Lisa apertou a lateral da máscara e continuou andando.As ruas estavam cheias demais para um mundo que dizia estar acabando. Pessoas caminhavam em filas espontâneas, como se o caos tivesse aprendido a se organizar soz
Último capítulo