CAPÍTULO 3

O interior da nave não parecia um refúgio. Parecia um erro caro demais para admitir falha.

O ar dentro da nave tinha cheiro de metal limpo. Não era desagradável.

As portas se fecharam atrás de nós com um som limpo, quase elegante, e o ruído da cidade morreu do lado de fora como se nunca tivesse existido.

A luz branca permaneceu constante, forte demais para ser acolhedora.

— Não solta a minha mão — Lisa disse às minhas irmãs, sem saber se falava para ela ou para mim.

Camila encostada em meu ombro. O corpo pequeno estava quente, pesado, confiando em mim de um jeito que me deu vontade de gritar. Diana permanecia alerta, os olhos correndo de um lado para o outro, absorvendo tudo com uma atenção tensa.

O túnel se abriu em um corredor largo, curvo, que parecia não ter fim. Não havia cantos. Nada ali era reto o suficiente para servir de referência. As paredes pareciam se mover levemente conforme caminhávamos, criando a sensação de que o espaço estava sempre se ajustando a nós.

As pessoas caminhavam em silêncio, guiadas por linhas luminosas no chão. Setas suaves. Tons claros de azul e verde. Cores associadas à calma, à confiança, à obediência. Tudo ali tinha sido estudado. Testado. Aprovado.

Tudo ali era feito para não provocar medo. Funcionava. As pessoas avançavam em silêncio. Não porque alguém tivesse pedido silêncio, mas porque provavelmente ninguém sabia o que dizer.

O ar mudou de imediato. Mais leve. Mais frio. Artificialmente perfeito. Lisa sentiu o corpo reagir antes da mente.

— Máscaras podem ser removidas — anunciou a voz da nave. — O ambiente é controlado.

As irmãs tiraram as máscaras quase ao mesmo tempo, aspirando o ar como se fosse novidade e talvez fosse. Lisa manteve a dela por alguns segundos a mais. Não por necessidade. Por desconfiança.

Ela finalmente tirou a máscara e nada aconteceu. Nenhuma queimação. Nenhuma vertigem. A Terra não tinha tentado matá-la. Isso ficou guardado.

O espaço era vasto demais para parecer seguro. Fileiras intermináveis de assentos, luz branca contínua, paredes lisas sem marcas. Pessoas acomodadas em silêncio obediente, olhos atentos demais para quem dizia estar salvo. Ninguém comemorava.

Lisa se sentou com as irmãs e sentiu o impulso estranho de contar cabeças, como se números pudessem explicar ausências. O pai não estava ali. Ela tentou sufocar o pânico antes que ele subisse pela garganta

Um movimento à frente cortou o ar pesado do setor.

Um homem em uniforme preto absoluto caminhava pelo corredor central. Seus passos não faziam barulho, mas tinham o peso de uma sentença; era a postura de quem não precisava de pressa para ser obedecido. Ele não usava capacete, um privilégio que, em Aethelgard, era o mesmo que ostentar uma coroa. O rosto era jovem, de ângulos agudos e uma rigidez que parecia esculpida em granito, mas foram os olhos que paralisaram Lisa: escuros, inteligentes e perigosamente atentos.

Ele parou ao lado de um casal que murmurava. Não precisou erguer a voz.

— Silêncio. — A palavra saiu baixa, uma vibração grave que pareceu ressoar nas placas de metal do chão.

O casal se encolheu como se tivesse sido golpeado. Lisa sentiu um arrepio elétrico percorrer sua espinha, uma mistura de medo e uma curiosidade proibida. O homem continuou andando, observando o ambiente não como um guarda, mas como um predador avaliando a integridade de sua jaula.

Quando ele passou por ela, o tempo pareceu sofrer uma distorção.

Por um segundo longo demais para ser coincidência, o olhar dele cravou-se no dela. Não havia a crueldade cega dos outros oficiais. Havia um cálculo faminto, uma faísca de reconhecimento que Lisa não soube explicar. Ele não desviou o rosto; ele a leu. Estudou a curva de seu pescoço, o tremor leve em suas mãos, e por um milésimo de segundo, a rigidez de sua boca relaxou quase imperceptivelmente.

Ele seguiu em frente sem desacelerar, deixando para trás o rastro de sândalo e ozônio. Lisa soltou o ar que nem percebeu ter prendido, o coração martelando contra as costelas.

— Quem é ele? — sussurrou uma das irmãs, a voz trêmula.

Lisa demorou a responder, ainda sentindo o peso daquele olhar marcado na pele.

— Alguém que não precisa de permissão para destruir — Lisa respondeu, mas no fundo, ela sentia que ele era o único ali que realmente estava vivo.

A nave tremeu levemente.

— Preparar para decolagem — anunciou a voz. — Permaneçam sentados. Confiança no processo garante a sobrevivência coletiva.

As luzes se ajustaram, simulando um céu que não existia. Uma projeção do planeta girou no teto, azul demais, limpo demais. Um mundo que já não era deles.

Lisa fechou os olhos por um instante. Quando abriu, sentiu o impacto. Não físico. Emocional. A Terra estava ficando para trás.

Ela tentou imaginar o pai olhando para o céu naquele momento. Tentou convencer a si mesma de que ele ficaria bem, de que aquilo era temporário, de que tudo fazia parte de um plano que ela ainda não entendia. Mas algo estava errado.

A nave começou a subir. Sem janelas reais, apenas dados projetados. Altitude. Velocidade. Segurança. Tudo controlado.

— Vocês estão seguros agora — disse a voz. — O passado ficou para trás.

Lisa olhou ao redor. Pessoas acreditavam.

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