CAPÍTULO 5

Lisa acordou com a sensação absurda de normalidade.

Por um segundo inteiro, talvez dois, acreditou que tudo tinha sido um sonho.

A luz constante no teto lembrava a de um quarto comum, doméstico demais para ser real. O colchão sob seu corpo era firme, quase confortável. O silêncio não gritava perigo. Era controlado. Calculado para parecer seguro.

Então ela lembrou.

Não houve choque.

Houve peso.

Virou o rosto e viu Camila dormindo encolhida, o corpo pequeno comprimido como se ainda tentasse ocupar menos espaço no mundo. Havia marcas de choro seco no rosto, linhas finas sob os olhos que Lisa reconhecia bem demais, as mesmas que apareciam no espelho quando ela própria passava noites em claro.

Diana estava sentada na cama ao lado, acordada havia tempo demais. Os joelhos puxados contra o peito, as mãos entrelaçadas com força excessiva. Observava o alojamento como quem tenta memorizar uma saída que não existe, catalogando paredes, ângulos, padrões invisíveis.

— Ainda estamos aqui — Diana disse baixo.

Não era uma pergunta.

Lisa assentiu.

— Ainda.

O som que percorreu o alojamento não foi um alarme.

Foi pior.

Era suave demais.

Um tom neutro, quase educado, que vibrava nas paredes como um lembrete gentil de que o controle nunca dormia. As telas se acenderam ao mesmo tempo, exibindo instruções simples demais para serem tranquilizadoras.

**CAFÉ DA MANHÃ — SETOR GAMA**

**DURAÇÃO: 18 MINUTOS**

**NUTRIÇÃO PADRÃO GARANTE EFICIÊNCIA**

As camas se retraíram parcialmente, empurrando os corpos para a vertical. Não obrigavam. Apenas sugeriam. As pessoas obedeceram sem perceber que estavam obedecendo.

No corredor, tudo parecia limpo demais. O ar tinha cheiro de neutralidade. O refeitório se abriu diante deles como um espaço pensado para não gerar memórias: amplo, simétrico, sem cantos que convidassem à conversa. Mesas longas, sem divisões. Nenhuma possibilidade de escolha.

As bandejas surgiram automaticamente à frente de cada pessoa.

Sempre iguais.

Uma bebida translúcida. Um bloco compacto de alimento morno, sem cheiro definido. Sem textura memorável.

Comestível.

Funcional.

Esquecível.

Lisa comeu mecanicamente, mais por hábito do que fome. Mastigava enquanto os olhos corriam pelas telas suspensas acima do salão, esperando que alguém anunciasse a devolução do pai. Ou ao menos uma explicação. Um erro reconhecido. Uma correção.

Nenhuma fez isso.

As telas do refeitório mudaram naquele instante.

Algumas permaneceram neutras. Outras, poucas, exibiram um novo aviso. Letras maiores. Mais escuras.

**AVALIAÇÃO DE APTIDÃO — HOJE**

**COMPARECIMENTO OBRIGATÓRIO**

**RESULTADOS INFLUENCIAM ALOCAÇÃO FUTURA**

Nomes começaram a surgir abaixo.

Lisa sentiu o estômago se fechar antes mesmo de procurar.

Seu nome estava lá. Diana também. O de Camila, não, talvez pela pouca idade.

O alívio veio rápido demais.

E logo depois, a culpa.

Foi então que uma sombra se moveu no limite da visão.

— Lisa.

A voz era baixa. Feminina. Conhecida.

Lisa ergueu a cabeça num movimento brusco demais para parecer casual.

A mulher estava parada ao lado da mesa, vestindo um uniforme discreto de tom bege-claro, sem insígnias evidentes. Não parecia uma funcionária comum, mas também não exibia a rigidez militar dos agentes do sistema. O cabelo estava preso em um coque simples, ruivo escuro quase acobreado, contido à força, como se aquela cor fosse algo a ser domado. Alguns fios rebeldes escapavam na lateral do rosto, refletindo a luz artificial com um brilho quente demais para aquele lugar.

O rosto.

Lisa sentiu o ar prender nos pulmões.

Havia algo ali que não precisava de explicação.

Os mesmos olhos amendoados, escuros demais para refletir luz com facilidade. O mesmo desenho de sobrancelhas, levemente arqueadas, sempre em alerta. O mesmo maxilar, firme, herdado por todas elas. E, sobretudo, a mesma marca impossível de esconder: o tom ruivo que Lisa via todos os dias no espelho, que aparecia mais claro em Camila, quase dourado, e mais fechado em Diana.

A cor que sempre denunciara parentesco.

A cor que agora parecia um erro estatístico andando pelos corredores do Setor Gama.

— Tia Mara…? — Lisa murmurou.

A mulher sustentou o olhar por um instante a mais do que o necessário. Havia cuidado ali. E urgência. Seu sorriso surgiu contido, treinado para não chamar atenção.

— Eu sabia que você reconheceria — disse, tocando levemente o braço de Lisa. — Mesmo depois de tanto tempo.

Ela tocou de leve o braço de Lisa.

O gesto era familiar. O mesmo que a mãe fazia quando queria acalmar as três meninas ao mesmo tempo, como se compartilhassem um mesmo sistema nervoso.

— Você parece a mamãe — disse Camila sem filtro.

Mara engoliu em seco por um segundo quase invisível.

— Eu sou a irmã mais velha dela.

Diana observava em silêncio, olhos estreitos.

— Você trabalha aqui — ela constatou.

— Trabalho — Mara confirmou. — E foi por isso que consegui autorização para vê-las. Por poucos minutos.

Lisa sentiu o nó no peito se apertar.

— Você tem notícias do nosso pai?

Mara não hesitou.

Esse foi o detalhe que mais assustou Lisa depois.

— Houve um pequeno engano na triagem — disse, com naturalidade ensaiada. — Nada grave. Seu pai está em outro setor temporariamente. Questão técnica. Já estão corrigindo.

— Então ele está bem? — Camila perguntou, a voz fina demais.

— Está — respondeu Mara, sem vacilar. — Confuso, talvez. Mas seguro.

Lisa observou o rosto da tia com atenção obsessiva. Procurava microexpressões, falhas, qualquer rachadura na narrativa.

Não encontrou.

Mara se abaixou diante delas.

— Vocês passaram por algo grande — continuou. — O sistema testa antes de acolher. Mas vocês estão indo bem. Muito bem.

Diana franziu o cenho.

— Se estamos indo bem, por que a Lisa e eu estamos na lista da avaliação?

Mara pousou o olhar em Lisa.

— Porque vocês sempre foram diferentes — disse, com uma suavidade que doeu. — Assim como sua mãe.

Lisa sentiu o impacto da frase.

— Diferentes como

— Observadoras demais para não serem notadas — respondeu a tia. — Fortes demais para passar despercebidas. Vocês três herdaram isso da sua mãe.

Ela olhou para as irmãs.

— A Camila sente antes de entender. A Diana entende antes de aceitar. E você, Lisa… você questiona mesmo quando finge obedecer.

Lisa sentiu um arrepio.

— Isso é perigoso aqui.

Mara sorriu de lado.

— Tudo é perigoso aqui — respondeu. — Mas algumas coisas são… úteis.

Mara se levantou.

— Eu preciso ir — disse. — Não falem comigo em público. Não mencionem meu nome. E confiem…

Ela hesitou por uma fração de segundo.

— …no processo.

Lisa segurou o pulso da tia.

— Você está mentindo sobre o papai?

Mara sustentou o olhar.

— Estou protegendo vocês — respondeu. — Às vezes, as duas coisas são a mesma.

E se foi.

O silêncio no refeitório mudou de qualidade.

Agora não era só medo. Era antecipação. Comparação. Inveja contida.

Foi então que Lisa sentiu o olhar.

Levantou a cabeça.

O homem de uniforme estava parado próximo à saída, imóvel demais para alguém casual. Observava as telas individuais conforme os nomes apareciam. Quando o de Lisa surgiu, ele não precisou procurar.

Já estava olhando. Não com curiosidade. Com interesse.

Lisa sustentou o olhar por um segundo a mais do que devia.

O homem franziu levemente o cenho. Algo mínimo. Quase imperceptível. Como se ela tivesse acabado de sair do padrão.

Ele tocou o comunicador no pulso e desviou o olhar, já registrando algo que ela não podia ver.

E Lisa soube, com uma clareza desconfortável:

O teste não era para medir apenas a capacidade.

Era para decidir quem ainda merecia existir dentro do sistema.

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