De volta à Terra
De volta à Terra
Por: Keila Zanardi
CAPÍTULO 1

A máscara embaçava sempre que Lisa respirava mais rápido. Não era um defeito técnico, era um aviso biológico.

O ar de Aethelgard não perdoava distrações, era isso que diziam. Partículas tóxicas, resíduos da Terceira Guerra, camadas invisíveis de morte suspensas sobre a metrópole cinza. Desde criança, Lisa aprendera que tirar a máscara era o mesmo que escolher morrer.

Ainda assim, às vezes, ela afrouxava o ajuste apenas para testar a realidade.

O ar entrava pesado, metálico, com um gosto amargo que se colava à língua como ferrugem. Não queimava de imediato. Não sufocava instantaneamente. O medo fazia o resto, treinado desde cedo para completar qualquer sensação vaga com pânico suficiente para manter a obediência.

— Ajuste o dispositivo corretamente — ordenou a voz sintetizada nos alto-falantes da rua. — A segurança da população depende da disciplina individual.

Lisa apertou a lateral da máscara e continuou andando.

As ruas de Aethelgard estavam cheias demais para um mundo em agonia. As pessoas moviam-se em filas espontâneas, como se o caos tivesse aprendido a se organizar sozinho. Edifícios altos demais, todos do mesmo tom de concreto opaco, erguiam-se como muros verticais que escondiam o que restava do céu. Ali não existiam casas; existiam apenas "módulos de função": morar, trabalhar e esperar.

Telas gigantes ocupavam fachadas inteiras, repetindo as mesmas frases com pequenas variações:

AS NAVES SÃO A ÚNICA ESPERANÇA.

A SELEÇÃO É NECESSÁRIA.

CONFIE NO SISTEMA.

Ela já não lia. Decorara a propaganda como se fosse uma oração fúnebre. Mas hoje, o pulsar da cidade mudou. O rosto da General Oliver surgiu em todos os ecrãs simultaneamente. Uniforme impecável, postura de mármore e a expressão de quem nunca precisou de correr para salvar a vida.

— Cidadãos — disse ela, a voz calibrada para projetar uma autoridade compassiva. — A Terra esgotou o seu último fôlego. A humanidade chegou a um ponto decisivo. O Projeto Arca não é uma escolha; é o nosso testamento. Não podemos salvar todos, mas salvaremos o que define a humanidade.

O símbolo dourado das Nove Famílias ou o Conselho de Continuidade, girava atrás dela.

— A compatibilidade não é um privilégio — continuou Oliver. — É uma responsabilidade biológica. Os Compatíveis garantirão a continuidade da espécie. Os Incompatíveis… — ela fez uma pausa mínima, quase imperceptível — receberão o amparo digno dentro dos protocolos de encerramento do sistema.

A palavra compatível surgiu em letras claras abaixo do discurso. Logo depois, outra, menor, mais discreta: Incompatível

Lisa desviou o olhar. Ela sabia que, no dicionário do Conselho, "amparo" era um eufemismo para descarte.

Ela atravessou a fronteira invisível entre a Zona B: Setor de Formação e o Núcleo Central: Setor Administrativo, onde o ar era filtrado por sistemas de luxo. Ali, Lisa trabalhava como técnica de sistemas de suporte manual, um cargo de "Classe Média" que lhe permitia viver no Setor Habitacional 3E.

Um grupo de crianças em uniformes acinzentados, todas do mesmo tamanho, todas com máscaras idênticas. O tecido era barato, rígido, feito para durar mais do que crescer com elas. Um instrutor apontava para o céu, onde um dirigível do governo cruzava lentamente, projetando o símbolo do Projeto Arca entre nuvens artificiais de controle climático.

— Lá em cima, o ar é limpo — dizia ele. — Lá em cima, o futuro é possível.

— E os outros? — perguntou uma criança.

O instrutor sorriu.

— Os outros ajudam como podem.

Ao entrar no seu prédio, um bloco de vinte andares com janelas que pareciam fendas de observação e câmeras suficientes para que ninguém se esquecesse de onde estava. O elevador, como sempre, estava "em manutenção para poupança de energia". As escadas cheiravam a desinfetante e ferrugem. A porta do apartamento rangia sempre, denunciando qualquer chegada.

No 15º andar, a porta do apartamento rangeu, denunciando a sua chegada.

O pai estava sentado à mesa, respirando com dificuldade contida. Ele a postura ereta demais, como se estivesse a ser avaliado por uma câmara invisível. A sua máscara era um modelo antigo, as tiras gastas marcando-lhe o rosto empalidecido, mas o sorriso vinha fácil demais para alguém que dizia estar bem. Havia sombras sob os seus olhos que nenhum relatório médico oficial ousava explicar.

— Demorou — ele comentou.

— Tinha inspeção no quarteirão três — Lisa respondeu, guardando a própria máscara. — Levaram dois.

O pai assentiu, como quem registra uma informação técnica. Não perguntou quem. Nunca perguntava. Perguntar era um luxo perigoso.

As irmãs, Diana e Camila, estavam no chão, desenhando com lápis quase sem ponta. Diana, com doze anos, tentava copiar as formas perfeitas vistas nos cartazes do governo, círculos, linhas retas, símbolos de ordem. Camila, com seis, rabiscava sóis tortos e figuras sem nome, ignorando qualquer noção de utilidade. O papel era reaproveitado, fino demais, mas elas riam como se aquilo fosse suficiente.

Lisa observou a cena por alguns segundos a mais do que o necessário, como se tentasse gravá-la.

— Vai acontecer — o pai disse, baixo. — A evacuação.

Ela sabia. Todos sabiam. O governo não avisava quando. Avisava apenas que seria inevitável.

— E se não formos escolhidos? — perguntou uma das meninas, sem levantar os olhos do desenho.

O pai respondeu antes de Lisa.

— Todos os que são úteis são escolhidos — respondeu o pai, com uma firmeza que soou a mentira.

Lisa engoliu em seco.

Depois da janta, quando as luzes do prédio reduziram automaticamente para o nível noturno, Lisa se pegou parada perto da janela estreita do apartamento. O vidro era grosso demais para abrir, mas deixava passar estrelas suficientes ou o que o sistema permitia chamar de estrelas. Ela começou a contar histórias para as irmãs, versões antigas sobre constelações que aprendera na escola antes de o currículo ser reformulado. Histórias sem função prática. Camila adormeceu primeiro. Diana fingiu resistir.

À noite, o céu mudou primeiro. Não foi imediato, nem dramático. Apenas… errado. O brilho era diferente. Artificial demais para ser confundido. Holofotes cortavam as nuvens enquanto drones de vigilância redesenhavam a cidade em linhas invisíveis, recalculando rotas, fluxos e pessoas.

— Lisa… — a voz do meu pai saiu baixa ao meu lado.

Ela não respondeu. Meu corpo inteiro estava tenso, como se um alarme tivesse sido ativado dentro de mim antes de qualquer som externo.

Então a mensagem apareceu. Nos telões holográficos nos prédios, nas ruas, nos comunicadores pessoais.

PROJETO ARCA INICIADO

EVACUAÇÃO IMEDIATA

COMPAREÇA AO PONTO DESIGNADO

Sem contagem regressiva. Sem preparo.

— Isso é real? — minha irmã sussurrou.

O governo sempre disse que esse dia poderia chegar. Que a Terra estava morrendo. Que existia um plano. O problema dos planos é que eles nunca são feitos para todos.

Lisa se ajoelhou diante das irmãs, segurando os rostos pequenos entre as mãos.

— Lembrem do treinamento — disse, firme. — Fila. Silêncio. Não soltem minha mão. Não falem com ninguém.

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