CAPÍTULO 2

A rua explodiu em movimento.

Lisa segurou as mãos das irmãs enquanto o pai caminhava atrás, silencioso demais. Soldados guiavam a multidão com gestos precisos. Uniformes escuros, armas visíveis, rostos ocultos pelos capacetes e nenhuma identificação além do símbolo dourado do governo no peito.

Ninguém gritava. O medo ali era educado.

Quando as naves surgiram no horizonte, enormes demais para parecerem reais, Lisa sentiu algo que não combinava com o momento.

Seguimos com a multidão até o ponto de triagem. Tudo era rápido demais para ser humano. Escâneres passavam pelos comunicadores pessoais, dados subiam para telas que ninguém podia ver. Um bip significava avanço. Dois, espera.

— Pulso — ordenou um deles.

O bip soou uma vez para Lisa. Uma vez para as irmãs. O visor do soldado brilhou por um segundo a mais quando chegou ao meu pai. Um segundo é tempo suficiente para entender que algo deu errado.

— Incompatível — disse a máquina.

Lisa virou-se no mesmo instante.

— Deve haver um erro.

O soldado não respondeu. Apenas indicou duas filas diferentes sem olhar para ela.

— Sigam a fila em direção à nave — ordenou.

O pai tocou o braço dela.

— Deve ser um erro — ele disse, tentando sorrir. — Eu resolvo isso já.

Mas eu já sabia. Sabia pelo modo como os soldados evitavam seu olhar. Sabia pelo aperto no meu peito.

— Cuida delas.

As palavras não eram um pedido. Eram uma despedida.

— Não — Lisa disse. — Ele vem conosco.

O soldado levantou a mão. Outro soldado se aproximou. Alto. Silencioso. Seus olhos encontraram os meus por um breve instante antes de se desviarem. Não havia crueldade ali. Havia algo pior.

— Ele não pode ficar — sua voz não tremeu. Isso me surpreendeu. — Ele trabalha. Ele…

— Incompatível — respondeu o soldado.

A palavra caiu como uma sentença.

— Incompatível com o quê? — insisti.

Ele não respondeu.

— A seleção é necessária — disse a voz metálica do alto-falante, como se respondesse por eles.

O pai foi levado para a outra fila. Não houve luta. Não houve gritos. Apenas passos se afastando no concreto, absorvidos pelo som organizado da evacuação.

Lisa sentiu a faísca. Pequena e quase invisível, mas suficiente.

Enquanto era empurrada adiante com as irmãs, ela olhou para trás. O pai ainda estava na outra fila. Em pé, entre dezenas de outros corpos imóveis demais para parecerem vivos. Um soldado passou diante dele. Não disse nada. Não o tocou. Apenas fez um gesto curto, quase impaciente. O pai hesitou por um segundo e então levou a mão à lateral da máscara.

Lisa sentiu o ar desaparecer dos próprios pulmões.

— Não… — sussurrou, sem som.

O fecho foi solto com um estalo seco. A máscara caiu contra o peito do pai e ficou pendurada, inútil. Nenhum alarme soou. Nenhum soldado reagiu. Nenhuma voz nos alto-falantes corrigiu o gesto.

Isso que doía. O sistema não precisava protegê-lo mais.

O pai respirou fundo. O ar entrou pesado, metálico, visível no modo como seus ombros se contraíram. Ele não caiu. Não tossiu. Apenas fechou os olhos por um instante longo demais.

Quando os abriu, procurou Lisa na multidão. Encontrou. Houve um sorriso. Pequeno. Cansado. Orgulhoso demais para alguém que acabara de ser descartado. Lisa entendeu. A máscara não fora retirada por fraqueza. Fora retirada porque já não havia protocolo a cumprir. Aquela fila não era de espera. Era de encerramento.

— A seleção é necessária — repetiu a voz metálica acima, agora mais distante, quase gentil. — A segurança da população depende da obediência individual.

Mas ali, naquela fila, a obediência já não importava.

Enquanto Lisa era empurrada para dentro da nave com as irmãs, ela manteve os olhos fixos no pai até que os corpos entre eles se tornassem densos demais. Até que ele desaparecesse. Não sob o céu morto, mas sob o silêncio. E naquele silêncio, algo se quebrou de forma definitiva. Não foi a fé no sistema. Foi o medo.

Ela entendeu, com uma clareza cruel: Não estávamos sendo salvos. Estávamos sendo escolhidos. E alguém, em algum lugar, tinha decidido que o pai dela não merecia o futuro.

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