CAPÍTULO 4

A subida terminou sem aviso. Não houve impacto, nem solavanco. Apenas um ajuste quase imperceptível no peso do corpo, como se a gravidade tivesse sido renegociada e decidido cooperar.

As projeções no teto desapareceram uma a uma. O planeta azul dissolveu-se em dados, depois em luz, depois em nada. O silêncio que se seguiu não foi natural. Era o tipo de silêncio imposto, calibrado para não permitir perguntas.

— Procedimento de ancoragem concluído — anunciou a voz. — Bem-vindos à Arca.

As luzes mudaram de tonalidade. Não mais branco absoluto, mas um cinza claro, neutro, cansado. As cadeiras se retraíram no chão com um mecanismo suave demais para parecer opcional. O piso vibrou sob os pés quando fomos obrigados a nos levantar.

As portas se abriram. Não para o espaço. Para dentro de um corredor longo, feito do mesmo material liso e sem marcas de tudo ali. Não havia janelas. Nenhuma visão externa. A Arca não se apresentava. Não precisava.

Drones surgiram em formação precisa, flutuando à frente do grupo. Pequenos, silenciosos, eficientes demais para serem ignorados. Luzes azuis pulsavam em seus corpos metálicos, guiando-nos como pastores sem rosto. Projetavam mensagens diretamente no ar, letras perfeitas, estáveis, impossíveis de ignorar:

BEM-VINDOS À ARCA

SIGAM AS ORIENTAÇÕES

COLABORAÇÃO GARANTE SEGURANÇA

— Sigam as orientações visuais — disse a voz. — O deslocamento será breve.

Breve era outra palavra sem significado real. A nave que nos trouxera até ali selou-se atrás de nós com um som definitivo. Não de fechamento. De exclusão. Lisa sentiu isso com clareza desconfortável:

A Terra não estava mais atrás deles. Estava fora do alcance.

O corredor desembocou em um salão imenso. O teto era alto demais para ser visto com clareza, perdendo-se em camadas de luz artificial. O espaço parecia infinito até que você reparava nos limites invisíveis. Não havia janelas. Não havia saídas evidentes.

O chão se moveu. Plataformas surgiram lentamente, elevando-se como se sempre tivessem estado ali. Superfícies lisas, frias, moldando-se aos corpos conforme as pessoas eram conduzidas até elas. Não eram cadeiras. Não ofereciam conforto. Ofereciam controle.

— Por favor, permaneçam em seus lugares — disse a voz.

Sempre a mesma. Sem gênero. Sem emoção. Sem possibilidade de discussão. As plataformas começaram a se deslocar. Não rápido. Rápido demais causaria pânico. Elas se moviam na velocidade exata para parecer natural. Suave. Inevitável. Como uma correnteza silenciosa levando todos na mesma direção.

Camila ficou confusa e apertou minha blusa.

— Lisa… — murmurou, a voz fraca. — Cadê o papai?

Meu peito se fechou.

— Ele… vem depois — menti.

A mentira saiu automática. Treinada. Como tantas outras que aprendemos a dizer para sobreviver.

As plataformas se separavam em fluxos distintos. Só então comecei a perceber o padrão. As pessoas ao nosso redor não estavam ali por acaso. Nada ali era aleatório.

Famílias com o mesmo número de integrantes. Idades próximas. Corpos semelhantes. Posturas semelhantes. Classificação.

Um grupo à esquerda parecia mais velho. Muitos cabelos grisalhos. Movimentos mais lentos. À direita, jovens sozinhos, fortes, atentos. Mais à frente, pessoas vestidas com uniformes de trabalho técnico, carregando ferramentas mínimas permitidas. Todos organizados antes mesmo de entenderem que estavam sendo organizados.

As luzes diminuíram um tom. Um painel gigantesco surgiu à frente, ocupando quase toda a parede. Dados começaram a surgir em sequência. Números, Gráficos, Índices e Probabilidades. Taxas de adaptação. Risco emocional. Compatibilidade social. Projeções de utilidade.

Eu não entendia tudo. Mas entendia o suficiente.

— Avaliação inicial concluída — anunciou a voz. — Classificação confirmada.

O painel se dividiu em quatro grandes áreas, cada uma identificada por uma letra e cor.

SETOR ALFA: Preto

SETOR BETA: Verde

SETOR DELTA: Azul

SETOR GAMA: Cinza

SETOR ÔMEGA: Laranja

Nenhuma explicação. Não precisavam. As reações falavam por si. Quando Alfa apareceu, poucas plataformas se moveram. Pessoas confiantes. Postura ereta. Olhares calculados. Não pareciam aliviadas. Pareciam… em casa. Beta reuniu corpos rígidos. Militares. Seguranças. Gente treinada para obedecer e fazer obedecer. Nenhuma expressão além da disciplina. Gama concentrou a maioria. Famílias. Trabalhadores. Crianças. Pessoas comuns demais para serem perigosas.

Suspiros de alívio surgiram ali. Erro clássico. Ômega piscou por um segundo a mais. Poucas plataformas. Gente isolada. Rostos confusos. Alguns choravam.

— Setor Gama designado — disse a voz.

Algumas pessoas sorriram. Outras se abraçaram. Eu senti um frio percorrer minha espinha. Se existia um Setor Ômega… não existia salvação para todos.

As plataformas voltaram a se mover. Corredores se abriram nas paredes, engolindo grupos inteiros de forma limpa, organizada e definitiva. Não havia cruzamentos. Não havia reencontros.

Vi uma mulher tentar se levantar.

— Meu marido está no outro setor! — ela gritou.

Um código brilhou acima de sua cabeça por um breve segundo, projetado no ar como uma sentença: 1423-G.

Antes que ela pudesse dizer mais alguma coisa, dois soldados surgiram quase instantaneamente. Não a tocaram com violência. Não precisaram. Bastou a presença. Ela sentou de novo, os ombros caídos, como se o código tivesse retirado dela o direito de insistir.

Instintivamente, olhei para cima. Três projeções surgiram, discretas, quase invisíveis para quem não estivesse procurando:

4419-G — Meu.

4420-G — Diana.

4421-G — Camila.

Não eram nomes. Não eram identidades. Eram permissões temporárias para existir, impressas em códigos QR que agora brilhavam sob a pele dos nossos pulsos.

Ninguém mais se mexeu. O silêncio no corredor era tão espesso que podíamos ouvir o zumbido dos ventiladores de oxigênio reciclando o ar. Então, com um suspiro hidráulico, as portas do Setor Gama se abriram.

O espaço além delas era... aceitável. O que, naquele mundo, era a descrição mais aterradora possível. Camas alinhadas em uma simetria militar. Corredores largos de um polímero branco que parecia absorver qualquer som. Iluminação constante, fria e cirúrgica. Nenhuma janela. Nenhuma variação de luz que indicasse a passagem das horas ou a existência de um sol. Ali, o tempo não passava; era apenas administrado.

— Este será o alojamento temporário — anunciou a voz onipresente, agora com um tom de cortesia metálica. — O descanso é recomendado para a otimização da adaptação.

Sobre cada cama, repousava uma bolsa de lona cinza, rígida e sem marcações. Dentro, o inventário da nossa nova vida: itens de higiene sem perfume, uma ração calórica insípida e o uniforme cinza-padrão do Projeto Arca. O tecido era sintético e frio ao toque, feito para durar décadas, mas não para oferecer conforto. Ao vestir aquilo, deixávamos de ser cidadãos de Aethelgard para nos tornarmos componentes de um sistema.

Minhas irmãs sentaram-se em camas próximas. Camila começou a chorar em silêncio, o rosto pequeno enterrado no travesseiro que cheirava a produtos químicos de esterilização. Diana manteve os olhos abertos, atentos e vidrados, como se o ato de piscar pudesse deletar o chão sob seus pés.

Passei o braço ao redor delas, sentindo o tremor nos seus ombros.

— Vai ficar tudo bem — murmurei.

A frase soou vazia, um eco oco que se perdeu nas paredes acústicas. Olhei para o uniforme cinza sobre a minha cama e senti o peso da realidade. A Arca não era um refúgio. Era um filtro. O mundo não tinha acabado; ele tinha sido cirurgicamente amputado.

E nós... nós éramos apenas números que ainda não tinham sido descartados pela lâmina do Conselho.

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