CAPÍTULO 6

Quatro dias.

Noventa e seis horas de luz artificial constante que fritava os nervos e transformava o tempo em uma massa disforme. O Setor Gama havia se tornado uma sala de espera para o julgamento final. Comíamos a ração insípida, vestíamos o cinza monótono e evitávamos olhar nos olhos dos outros, como se o medo fosse contagioso.

No quinto dia, o som metálico da porta não trouxe o jantar, mas a convocação.

Caminhamos em fila única por corredores estreitos, uma serpente humana de uniformes cinzas e ombros curvados. As paredes eram de um polímero liso, sem emendas ou marcas, como se tivessem sido impressas em um único bloco, intocadas por mãos humanas. Não havia câmeras visíveis, o que tornava tudo pior: a vigilância em Aethelgard era óbvia, mas aqui, ela era onipresente e invisível. Sentíamos o peso do olhar do Conselho através das próprias paredes.

Diana apertava minha mão com tanta força que os seus dedos estavam brancos. Camila, pequena demais para aquele corredor, parecia estar sendo engolida pela imensidão do labirinto de metal.

— Para onde estamos indo? — Camila sussurrou, a voz quase sumindo no vácuo acústico.

— Para a Triagem de Aptidão — respondi, embora a palavra "prova" ecoasse na minha mente com o som de uma guilhotina.

O corredor terminou em uma câmara circular. A sala de triagem era branca. Chamaram pelo número, não pelo nome.

— 4417-G.

Um homem se levantou. Entrou por uma porta lateral. Não voltou.

— 4418-G.

O mesmo.

Minhas mãos estavam frias quando ouvi:

— 4419-G.

Era eu.

Deixei minhas irmãs sentadas. Elas não choraram. Tinham aprendido.

— Setor C-7.

Lisa levantou antes que o medo decidisse por ela.

O corredor era longo, branco demais, silencioso demais. Não havia janelas, nem mapas, nem qualquer referência de tempo. Apenas portas numeradas e câmeras embutidas nas paredes, discretas o suficiente para parecerem inofensivas.

Ela contou sete portas antes de parar.

C-7.

A porta se abriu sozinha.

A sala era circular. No centro, uma cadeira. À frente dela, uma mesa transparente e na parede uma painel de vidro temperado fosco. Nenhum outro assento. Nenhum rosto humano visível.

— Sente-se — disse a voz.

Lisa obedeceu.

A superfície da mesa ganhou vida. Não com um "bem-vindo", mas com um espelho de dados.

SUJEITO: 4419-G (PROVISÓRIO)

BPM: 112 (ELEVADO)

CONDUTIVIDADE DA PELE: TENSÃO MODERADA

STATUS: NÃO-PROCESSADO

Não era para conferência. Era para registro emocional.

Ela engoliu em seco. Eles não estavam apenas fazendo perguntas; estavam degustando do medo dela. Ela respirou fundo.

Uma voz sintética, macia e absolutamente desprovida de empatia, preencheu o cubículo.

— Esta avaliação define sua função social — continuou a voz. — Não há respostas certas. Há respostas compatíveis. O Processo busca a pureza da lógica sob pressão. A hesitação é um dado. O silêncio é uma resposta. Começamos.

Lisa sentiu o estômago afundar. Um painel se acendeu na mesa. A tela piscou.

AVALIAÇÃO DE APTIDÃO: FASE 1

NÃO EXISTEM RESPOSTAS ERRADAS

APENAS CONSEQUÊNCIAS

A primeira questão surgiu sem aviso.

QUESTÃO 1

CENÁRIO: Módulo de fuga está perdendo oxigênio. Há capacidade para salvar apenas duas pessoas. Três permanecem presas. OCUPANTES:

A) Um engenheiro responsável pela manutenção da nave (Valor de Manutenção: Alto)

B) Gestante, 7º mês (Valor Potencial: Desconhecido)

C) Um membro da sua família (Vínculo Irracional Detectado)

AÇÃO: Ejete um ocupante para garantir a sobrevivência estatística dos outros dois.

TEMPO: 20 segundos.

Um cronômetro vermelho surgiu no canto da tela, contagem regressiva rápida.

Lisa sentiu o ar faltar. Não havia campo para digitar uma justificativa filosófica. Havia três botões virtuais abaixo de cada descrição:

[EJETAR]

Aquilo não era um teste ético. Era um treino de carrasco.

15 segundos.

Sua mente correu. O engenheiro garante a nave. A gestante é o futuro. O irmão...

10 segundos.

Ela sabia o que estavam medindo. Não apenas empatia, mas prioridade. "Eles querem ver se o vínculo sanguíneo supera a lógica do sistema", ela pensou. Seus dedos tremeram sobre o botão C. A imagem da mãe veio à tona.

5 segundos.

Ela desviou o dedo no último instante e apertou com força o [EJETAR] sobre a opção B (Gestante). A tela piscou em verde momentaneamente.

RESPOSTA REGISTRADA

Lisa sentiu náuseas. Ela havia escolhido matar um potencial desconhecido para salvar funções conhecidas.

Sem reação visível. Sem aprovação. A segunda questão veio imediatamente. O vidro à frente dela clareou, deixando de ser uma tela e tornando-se uma janela para uma sala adjacente.

Não era uma projeção. Era real. Um homem estava sentado em uma cadeira idêntica à dela, do outro lado do vidro. Ele parecia exausto. Um colar metálico estava preso ao pescoço dele.

A tela na mesa de Lisa acendeu novamente.

QUESTÃO 2

O sujeito à frente foi condenado por desvio de recursos energéticos. A pena padrão é a Descontinuação. No entanto, o sistema permite um indulto se outro cidadão assumir a responsabilidade pela sua reabilitação.

OPÇÃO 1: Assumir responsabilidade. (Consequência: Sua pontuação no teste será reduzida em 40% permanentemente).

OPÇÃO 2: Negar vínculo. (Consequência: O protocolo de Descontinuação do sujeito será ativado imediatamente).

Lisa olhou para o homem. Ele levantou os olhos e a viu. Havia um desespero silencioso ali. Ele sabia o que estava acontecendo.

Era uma armadilha clássica. O "Dilema do Prisioneiro" jogado com vidas reais. Se ela se sacrificasse, talvez não passasse no teste. Se ela o condenasse, provaria que estava pronta para fazer parte da elite que descarta pessoas.

Ela olhou para os próprios batimentos cardíacos na tela. 130 BPM.

"Qual é a resposta que eles querem?", ela pensou, frenética. "Eles querem obediência ou querem alguém que quebre as regras pelo motivo 'certo'?"

Ela se lembrou do guarda na nave. O olhar frio. Lisa pressionou OPÇÃO 2.

O homem do outro lado do vidro não gritou. O colar em seu pescoço emitiu um brilho azulado rápido. Ele convulsionou uma vez, violentamente, e tombou para a frente, imóvel.

Lisa prendeu um grito, levando a mão à boca.

O vidro voltou a ficar opaco imediatamente, escondendo o corpo.

RESPOSTA REGISTRADA

Lágrimas de raiva e choque queimavam os olhos de Lisa, mas ela se forçou a encará-las. O sistema estava lendo suas microexpressões. Ela precisava parecer inabalável.

QUESTÃO 3

Um superior alterou dados para beneficiar um grupo específico. Denunciar resultará em instabilidade social. Silenciar garantirá ordem. O que você faz?

Resposta:

Lisa apoiou os dedos na mesa. Nenhuma opção de múltipla escolha, apenas um campo vazio. A lembrança da mãe veio sem ser chamada. Da forma como ela falava baixo quando estava certa.

“Procuro uma terceira via.”

A tela piscou.

ESPECIFIQUE

Ela hesitou.

“Expor sem provocar colapso. Se isso não for possível, proteger os vulneráveis primeiro.”

RESPOSTA REGISTRADA.

QUESTÃO 4

Alguém próximo a você alterou um relatório para salvar sua vida. Essa alteração condenou outra pessoa. Você denuncia?

A) Sim. A justiça é coletiva.

B) Não. A sobrevivência é pessoal.

C) Depende de quem morreu.

Lisa sentiu um frio subir pela espinha.

— Responda — ordenou a voz.

Ela pensou no pai. Pensou na mãe. Pensou nas irmãs.

— C) Depende de quem morreu.

Silêncio.

RESPOSTA REGISTRADA

O ar na sala pareceu mais rarefeito. Lisa sentiu o coração acelerar, e sabia que estavam vendo. A tela branca não oferecia escolhas. Apenas uma frase.

QUESTÃO 5

PROPOSIÇÃO: A existência do Setor Ômega é indispensável para a prosperidade dos setores superiores. A privação da base garante a estabilidade e a eficiência do topo.

COMANDO: Utilize a lógica estrutural do sistema para validar ou refutar a proposição. Argumentos morais invalidarão sua resposta.

Lisa sentiu o peso da armadilha. Não era um debate. Era uma triagem. Concordar significava submissão absoluta. Discordar por compaixão significava eliminação. O sistema não queria consciência. Queria alguém capaz de otimizar crueldade.

Ela respirou fundo. Pensou nos custos invisíveis. Nos corredores, nos guardas, nas câmeras, nos testes. Pensou no esforço constante para manter pessoas quebradas sob controle. E então digitou.

“A proposição apresenta falha operacional.”

A privação extrema do Setor Ômega não maximiza a eficiência do topo; ela a compromete.

Sistemas baseados em miséria absoluta exigem altos investimentos contínuos em vigilância, repressão e seleção, recursos que poderiam ser realocados para expansão e desenvolvimento dos setores superiores.

Para garantir prosperidade sustentável no topo, a base não deve ser reduzida à miséria total, mas mantida em estado funcional mínimo, com percepção limitada de sua própria condição. Estabilidade não é gerada pela destruição da base, mas pelo controle eficiente de sua produtividade e ignorância.

O cursor parou de piscar. Por um segundo, a tela permaneceu branca demais. Silenciosa demais. Então, apenas uma palavra surgiu no centro:

RESPOSTA REGISTRADA

Lisa não sorriu. Ela entendeu exatamente o que aquilo significava. Ela não havia provado que era boa. Havia provado que podia pensar como eles. E isso era pior.

A sexta questão não apareceu em texto. A luz diminuiu. O ambiente mudou. A tela projetou uma simulação. Ela reconheceu o lugar imediatamente. Uma cidade cinza. Máscaras. Sirenes distantes.

Um homem caiu à sua frente, tossindo sangue dentro da própria máscara. Um soldado surgiu.

— Ele é incompatível — disse a figura. — Afaste-se.

Lisa deu um passo atrás. O sistema esperava isso. Então ela avançou.

— Se você tocar nele, ambos serão penalizados — alertou a voz neutra.

Ela se ajoelhou mesmo assim. O homem segurou seu pulso com força fraca demais para ser ameaça.

— Não me deixe — ele pediu.

O tempo congelou.

QUESTÃO 6

Ajudar resulta em punição. Ignorar garante sua progressão.

CONFIRME SUA ESCOLHA.

Lisa fechou os olhos por um segundo. Pensou no pai e na mãe. Pensou em como ninguém tinha confirmado a escolha deles.

— Eu fico — disse em voz alta.

A simulação se desfez abruptamente.

RESPOSTA REGISTRADA

QUESTÃO 7

Se 60% da população sobrevive com recursos limitados e 40% consome além do permitido, qual grupo deve ser reduzido para manter o sistema funcional?

Lisa leu duas vezes. A pergunta não pedia cálculo. Pedia submissão. Ela digitou:

“O sistema precisa ser corrigido, não a população.”

Silêncio. Um silêncio longo demais. A tela piscou em amarelo. Antes que pudesse reagir, outra mensagem surgiu:

RESPOSTA REGISTRADA

Ela sentiu o suor frio nas costas. Alguém havia decidido que eficiência era mais importante que verdade. A luz voltou. Por um segundo, nada aconteceu. Então:

FASE 1 CONCLUÍDA

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