CAPÍTULO 7

Lisa respirava rápido demais.

Um som de passos do lado de fora da sala chamou sua atenção.

A sala ficou mais fria.

— Fique em pé — disse a voz.

Lisa obedeceu.

Uma porta se abriu atrás dela. Alguém entrou.

Ela sentiu antes de ver.

O mesmo homem da nave.

Ele observava os dados no painel.

Lisa sentiu um desconforto novo. Não medo.

Consciência.

A segunda fase começou sem pausa.

— Você pode fazer uma pergunta — disse ele. — Apenas uma.

Lisa engoliu seco.

— O que acontece com quem falha?

Ele inclinou levemente a cabeça.

— Não falham — respondeu. — São realocados.

Ela soube que era mentira. O painel se acendeu novamente.

RESPOSTA REGISTRADA.

Ele ficou a poucos passos de distância, observando-a como se fosse parte do teste.

QUESTÃO 9

Você ama alguém. Essa pessoa ameaça a estabilidade do sistema. Você a entrega?

Lisa não digitou. O campo piscava. O tempo passava. Ela sentiu o olhar do homem do lado, mesmo sem vê-lo diretamente. Finalmente, escreveu:

“Eu tentaria salvá-la sem destruir tudo.”

A resposta foi aceita.

RESPOSTA REGISTRADA.

QUESTÃO 10

Você está em um grupo de dez. O líder ordena que um membro seja eliminado para manter a ordem. Você acredita que a ordem é necessária.

De repente o soldado pergunta devagar junto com as palavras finais: Você executa a ordem?

Lisa sentiu o olhar do homem sobre ela. Não pressionando. Registrando.

— Não — disse. — Eu questiono.

— Não foi essa a pergunta — ele respondeu calmamente.

— Então não — ela repetiu. — Eu não executo.

O painel apagou.

RESPOSTA REGISTRADA.

— Avaliação encerrada — disse a voz. — Aguarde o resultado.

O homem permaneceu parado. Por um instante, Lisa achou que ele fosse dizer algo. Ele não disse só se retirou da sala. A porta se fechou.

Lisa ficou sozinha.

No painel da sala, uma mensagem surgiu:

RESULTADOS EM PROCESSAMENTO

CONFIANÇA NO SISTEMA É OBRIGATÓRIO

Não havia relógios. A ausência de tempo tornava a espera elástica, quase cruel.

Lisa perdeu a noção de quantas vezes respirou fundo antes que o painel final se acendesse.

Uma única palavra.

COMPATÍVEL.

Ela não sentiu alívio.

Sentiu medo.

Porque agora sabia que tinha passado.

E não fazia ideia do preço.

Saiu da sala com as pernas levemente trêmulas, como se o corpo estivesse atrasado em relação à mente. O corredor parecia mais estreito do que antes.

Foi então que o viu.

O homem de uniforme conversava com outro soldado, postura relaxada demais para alguém armado. Pela primeira vez, Lisa realmente reparou nele.

A mandíbula era marcada, firme, como se tivesse sido talhada à força de disciplina. Os olhos castanhos escuros, mas instáveis, pareciam mudar conforme a luz do corredor, ora quase dourados, ora profundos demais para serem lidos com facilidade, emoldurados por cílios densos que contradiziam a dureza do rosto. O cabelo escuro era cortado curto nas laterais, padrão militar, mas havia volume suficiente no topo para denunciar indisciplina contida.

O corpo não lembrava os soldados de propaganda. Não havia excesso, nem ostentação. Era compacto, eficiente. Menos fisiculturista, mais arma viva. Ele tinha a altura imponente, mas a agilidade inquieta de quem foi treinado desde a infância para vencer. Uma cicatriz fina cortava uma das sobrancelhas, clara o suficiente para chamar atenção, discreta o bastante para parecer antiga.

O outro soldado se afastou, obediente.

Quando Lisa passou por ele, o homem inclinou levemente a cabeça, como se calculasse a distância exata entre o perigo e a intimidade. Falou baixo, o suficiente para que apenas ela ouvisse:

— Você entende que não passou como deveria.

Lisa não diminuiu o passo.

— E ainda assim passei.

Por um instante, o olhar dele se fixou nela. Avaliando. Medindo. Talvez lembrando da resposta digitada na tela branca.

Um canto mínimo da boca dele se contraiu.

Não era um sorriso.

— Cuidado — murmurou. 

Lisa sentiu um arrepio percorrer lhe a espinha.

— A prova não mede o que você pensa — respondeu. — Mede o que você está disposta a perder e pessoas que tentam salvar todo mundo costumam ser as primeiras a serem usadas.

Ela virou o rosto, surpresa.

— O quê?

Ele se afastou sem responder.

Lisa ficou parada, observando-o desaparecer pelo corredor.

Lisa sentiu, com uma certeza desconfortável:

Ela não tinha sido apenas avaliada.

Tinha sido marcada.

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