Mundo de ficçãoIniciar sessãoLisa respirava rápido demais.
Um som de passos do lado de fora da sala chamou sua atenção. A sala ficou mais fria. — Fique em pé — disse a voz. Lisa obedeceu. Uma porta se abriu atrás dela. Alguém entrou. Ela sentiu antes de ver. O mesmo homem da nave. Ele observava os dados no painel. Lisa sentiu um desconforto novo. Não medo. Consciência. A segunda fase começou sem pausa. — Você pode fazer uma pergunta — disse ele. — Apenas uma. Lisa engoliu seco. — O que acontece com quem falha? Ele inclinou levemente a cabeça. — Não falham — respondeu. — São realocados. Ela soube que era mentira. O painel se acendeu novamente. RESPOSTA REGISTRADA. Ele ficou a poucos passos de distância, observando-a como se fosse parte do teste. QUESTÃO 9 Você ama alguém. Essa pessoa ameaça a estabilidade do sistema. Você a entrega? Lisa não digitou. O campo piscava. O tempo passava. Ela sentiu o olhar do homem do lado, mesmo sem vê-lo diretamente. Finalmente, escreveu: “Eu tentaria salvá-la sem destruir tudo.” A resposta foi aceita. RESPOSTA REGISTRADA. QUESTÃO 10 Você está em um grupo de dez. O líder ordena que um membro seja eliminado para manter a ordem. Você acredita que a ordem é necessária. De repente o soldado pergunta devagar junto com as palavras finais: Você executa a ordem? Lisa sentiu o olhar do homem sobre ela. Não pressionando. Registrando. — Não — disse. — Eu questiono. — Não foi essa a pergunta — ele respondeu calmamente. — Então não — ela repetiu. — Eu não executo. O painel apagou. RESPOSTA REGISTRADA. — Avaliação encerrada — disse a voz. — Aguarde o resultado. O homem permaneceu parado. Por um instante, Lisa achou que ele fosse dizer algo. Ele não disse só se retirou da sala. A porta se fechou. Lisa ficou sozinha. No painel da sala, uma mensagem surgiu: RESULTADOS EM PROCESSAMENTO CONFIANÇA NO SISTEMA É OBRIGATÓRIO Não havia relógios. A ausência de tempo tornava a espera elástica, quase cruel. Lisa perdeu a noção de quantas vezes respirou fundo antes que o painel final se acendesse. Uma única palavra. COMPATÍVEL. Ela não sentiu alívio. Sentiu medo. Porque agora sabia que tinha passado. E não fazia ideia do preço. Saiu da sala com as pernas levemente trêmulas, como se o corpo estivesse atrasado em relação à mente. O corredor parecia mais estreito do que antes. Foi então que o viu. O homem de uniforme conversava com outro soldado, postura relaxada demais para alguém armado. Pela primeira vez, Lisa realmente reparou nele. A mandíbula era marcada, firme, como se tivesse sido talhada à força de disciplina. Os olhos castanhos escuros, mas instáveis, pareciam mudar conforme a luz do corredor, ora quase dourados, ora profundos demais para serem lidos com facilidade, emoldurados por cílios densos que contradiziam a dureza do rosto. O cabelo escuro era cortado curto nas laterais, padrão militar, mas havia volume suficiente no topo para denunciar indisciplina contida. O corpo não lembrava os soldados de propaganda. Não havia excesso, nem ostentação. Era compacto, eficiente. Menos fisiculturista, mais arma viva. Ele tinha a altura imponente, mas a agilidade inquieta de quem foi treinado desde a infância para vencer. Uma cicatriz fina cortava uma das sobrancelhas, clara o suficiente para chamar atenção, discreta o bastante para parecer antiga. O outro soldado se afastou, obediente. Quando Lisa passou por ele, o homem inclinou levemente a cabeça, como se calculasse a distância exata entre o perigo e a intimidade. Falou baixo, o suficiente para que apenas ela ouvisse: — Você entende que não passou como deveria. Lisa não diminuiu o passo. — E ainda assim passei. Por um instante, o olhar dele se fixou nela. Avaliando. Medindo. Talvez lembrando da resposta digitada na tela branca. Um canto mínimo da boca dele se contraiu. Não era um sorriso. — Cuidado — murmurou. Lisa sentiu um arrepio percorrer lhe a espinha. — A prova não mede o que você pensa — respondeu. — Mede o que você está disposta a perder e pessoas que tentam salvar todo mundo costumam ser as primeiras a serem usadas. Ela virou o rosto, surpresa. — O quê? Ele se afastou sem responder. Lisa ficou parada, observando-o desaparecer pelo corredor. Lisa sentiu, com uma certeza desconfortável: Ela não tinha sido apenas avaliada. Tinha sido marcada.