CAPÍTULO 8

Não havia relógios. A ausência de marcadores temporais tornava a espera elástica, quase cruel, transformando segundos em ciclos intermináveis de ansiedade. Lisa perdeu a conta de quantas vezes forçou o ar para dentro dos pulmões antes que o painel final, no centro da sala estéril, se acendesse com uma única palavra, fria e definitiva:

COMPATÍVEL

Ela não sentiu alívio. Sentiu o peso de uma sentença. Sabia que tinha atravessado o portal, mas não fazia ideia do preço que a Arca cobraria pelo ingresso. Ao sair da sala, as suas pernas estavam trêmulas, o corpo processando com atraso o impacto psicológico do teste. O corredor, antes apenas funcional, agora parecia estreito, como se as paredes de polímero estivessem a fechar-se sobre ela.

Foi então que o viu.

Ele estava a poucos metros, conversando com outro oficial. A postura era relaxada demais para alguém que carregava uma arma de alto calibre, uma descontração que emanava perigo. Pela primeira vez, Lisa permitiu-se realmente observá-lo, despida da pressa do interrogatório.

A mandíbula era marcada e firme, talhada por uma disciplina que parecia vir de gerações de oficiais. O cabelo escuro, curto nas laterais, mantinha um volume rebelde no topo, a única insurreição que ele se permitia contra o Sistema. Mas eram os olhos que prendiam a atenção: um tom de âmbar instável, que oscilava entre o dourado metálico e um mel profundo sob a luz artificial, emoldurados por cílios densos que tornavam seu olhar, ironicamente, quase íntimo.

O físico dele não era ornamental. Ele era compacto, eficiente; menos um soldado de desfile e mais uma lâmina forjada. Tinha uma altura imponente, mas a agilidade inquieta de quem fora treinado para vencer antes mesmo de aprender a falar. Uma cicatriz antiga cortava-lhe a sobrancelha esquerda, um detalhe discreto que gritava que ele já sobrevivera ao que ela ainda temia.

O outro soldado afastou-se com uma reverência mecânica. Quando Lisa passou pelo oficial, o ar ao redor dele pareceu vibrar. Ele não se moveu, mas a inclinação mínima de sua cabeça calculou a distância exata entre o dever e a curiosidade. Ele falou baixo, um barítono que não chegaria aos microfones do teto, mas que vibrou nos ossos de Lisa:

— Você entende que não passou como deveria. — Não era uma pergunta. Era uma constatação.

Lisa não diminuiu o passo, embora o coração batesse contra as costelas como um pássaro enjaulado.

— E ainda assim, passei.

Ele girou o corpo com uma fluidez letal, obrigando-a a parar pelo simples peso de sua presença. O olhar âmbar fixou-se nela, medindo sua resistência, sobrepondo a imagem dela à resposta rebelde que ela digitara na tela: “Eu tentaria salvá-la sem destruir tudo.” Um canto mínimo da boca dele contraiu-se. Não era um sorriso; era o reconhecimento de uma anomalia perigosa... e fascinante.

— Cuidado — murmurou ele, dando um passo à frente, invadindo o espaço dela até que Lisa pudesse sentir o calor que emanava de seu corpo. A voz soou como um aviso de tempestade no horizonte. — A prova não mede o que você pensa. Mede o que você está disposta a perder. E você parece segurar coisas demais.

Lisa parou bruscamente, o fôlego curto pela proximidade. A frieza militar dele tinha uma rachadura, e por ali saía algo intenso e sombrio.

— Pessoas que tentam salvar todo mundo — ele continuou, a voz agora apenas um sussurro que roçou a orelha dela enquanto ele se inclinava — costumam ser as primeiras que o Sistema usa para dar o exemplo. Não seja o exemplo de ninguém.

Ela abriu a boca para questionar, para perguntar por que ele, o braço armado da Estação, estava lhe dando um conselho que soava como traição. Mas ele se afastou antes que ela pudesse formular o pensamento.

Lisa ficou estática no corredor, observando-o desaparecer na geometria perfeita da Estação. O cheiro de sândalo e metal ainda flutuava no ar. Ela sentiu, com uma certeza desconfortável e elétrica, que não tinha sido apenas avaliada por um superior. Tinha sido marcada por um igual. E o pior: ele a vira de verdade, e agora ela não tinha onde se esconder.

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