Girei a chave com cuidado, o mais devagar possível, como se isso fosse atrasar o inevitável. O clique da porta soou alto demais, me traindo. Entrei na ponta dos pés, como se isso fosse diminuir a culpa. Já passava da meia-noite. Eu sabia. Naquela casa, horário era uma sentença, e liberdade, um pecado.
Prendi a respiração, esperando ouvir o estouro da voz do meu pai vindo da sala, mas tudo estava quieto. A casa mergulhada em penumbra, com só a luz da cozinha acesa. O rádio velho deixava escapar