Mundo de ficçãoIniciar sessão— Eu preferia apontar uma arma pra sua cabeça do que usar uma aliança com você. — eu sussurro, fria, encarando Vinnie Azzaro. — Então casa comigo assim mesmo, Bellatorre… porque eu vou ser o seu inferno favorito. — Vinnie rebate com um sorriso arrogante e os olhos destruídos pelo álcool. Liel Bellatorre não se lembra do próprio passado. Tudo o que sabe é que foi encontrada à deriva no mar quando tinha nove anos, salva por Don Marcus Azzaro e transformada na arma mais letal da máfia italiana. Linda, calculista e impenetrável, ela se tornou a Conselheira perfeita da Família Azzaro… fiel ao homem que lhe deu uma nova vida. Mas existe uma única pessoa capaz de tirar sua paciência do controle: Vinnie Azzaro. Irresponsável. Mulherengo. Alcoólatra. Instável. O herdeiro da máfia é tudo o que Liel despreza em um homem. Quando uma atitude impulsiva quase destrói a reputação da família, Don Marcus toma uma decisão cruel: Vinnie precisa se casar… e a escolhida será Liel. Agora, presa a um casamento por contrato, Liel terá uma missão perigosa… transformar Vinnie no Don que o submundo teme e respeita. Dividindo o mesmo quarto com um homem que ela nunca suportou, Liel tenta ignorar os olhares intensos, as provocações constantes e o lado quebrado que Vinnie esconde atrás do álcool e da arrogância. Mas quanto mais ela tenta odiá-lo… mais percebe que o verdadeiro perigo não está na máfia. Está no homem que lentamente começa a conquistar seu coração.
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Eu não conheço o meu passado. Não sei quem eu fui, não sei de onde vim, não sei nem qual era o som da minha própria voz antes dos nove anos. A única certeza que eu tenho é que, um belo dia, eu acordei engolindo água salgada, com o céu cinza rasgando meus olhos e o corpo boiando sobre algo branco e metálico no meio de um mar que parecia infinito. Lembro do gosto do sal arranhando a garganta, do frio cortando a pele, do medo grudado no peito como se fosse uma segunda camada de ossos. Eu não sabia o meu nome. Não sabia se alguém estava me procurando. Não sabia se eu tinha uma mãe desesperada em algum lugar ou se eu era só mais um erro do mundo, pronto para ser engolido pelas ondas. Eu só sabia que ia morrer ali. E, na época, isso parecia até justo, já que eu não tinha nada para defender. Então ele apareceu. Primeiro eu vi a sombra gigantesca cobrindo o pouco de sol que lutava para aparecer entre nuvens pesadas e cinzas. Depois, o som dos motores silenciando o mar. Quando ergui a cabeça, enxerguei uma embarcação enorme, preta, de vidros igualmente negros e um nome escrito em dourado, em uma caligrafia tão elegante quanto ameaçadora na lateral: Estrela da Morte. Naquele momento, eu ainda não sabia ler. Não sabia que aquele nome iria se tornar o marco zero da minha vida. Eu só vi homens correndo pelo convés, vozes em uma língua estranha, cordas sendo lançadas na minha direção, como se o próprio inferno tivesse decidido me puxar para fora da água. Eu me lembro de tossir, de engasgar, de sentir mãos fortes segurando meus braços magros. Meus dedos estavam tão dormentes que eu mal conseguia agarrar a corda que jogaram. A água batia no meu rosto, insistente, tentando me puxar de volta. Mas alguém gritou lá de cima, uma voz firme e autoritária, que calou o desespero ao meu redor. — Puxem ela! Agora! Fui erguida como um peso morto, o corpo escorrendo água, os cabelos grudados no rosto, o frio cortando até o osso. Me colocaram no convés e tudo aconteceu rápido demais… gente falando, passos correndo, uma toalha jogada sobre mim, alguém perguntando se eu estava bem. Eu tremia tanto que parecia que o mundo todo tremia comigo. E então eu o vi. Um homem alto, de terno escuro perfeitamente alinhado, sapatos que brilhavam mesmo molhados por algumas gotas de água do mar. Os olhos dele eram o tipo de olhar que você reconhece mesmo antes de saber o que significa poder. Ele não precisava levantar a voz para ser obedecido. Ele era o tipo de homem que o mundo aprendia a temer só de ouvir o sobrenome. Don Marcus Azzaro. Naquele dia, ele se abaixou na minha frente, ignorando o convés molhado, como se um pedaço de pano encharcado não fosse capaz de sujar alguém como ele. Tocou meu queixo com cuidado, como se eu fosse feita de vidro, e usou o italiano mais suave que eu já ouvi na vida para perguntar: — Como você se chama, bambina? Demorou alguns segundos até eu entender que ele estava falando comigo. Eu olhei para todos os lados, procurando uma resposta em rostos desconhecidos, como se alguém pudesse soprar um nome para dentro da minha cabeça vazia. Mas não veio nada. Abri a boca. Nenhum som. Don Marcus só estreitou um pouco os olhos, paciente. — Nome? — ele repetiu, agora em um som carregado por um sotaque que eu só aprenderia a amar muitos anos depois. — Você sabe seu nome? Eu balancei a cabeça, sentindo as lágrimas queimarem os olhos. Ele respirou fundo e mudou a pergunta: — Família. Você lembra da sua família? Família. A palavra girou na minha mente como se fosse um idioma completamente novo. Eu tentei puxar alguma imagem… um rosto, uma voz, uma casa. Nada. Só escuridão. Só água. Só o barulho das ondas batendo em metal. — Não… — minha voz saiu rouca, estranha, como se não fosse minha. — Eu… não sei. Don Marcus me encarou como se estivesse pesando cada pedaço da minha alma. Eu devia ser só uma criança encharcada, perdida, sem memória e sem valor para o mundo. Mas, naquele dia, por algum motivo que ele nunca me explicou, ele decidiu que eu não morreria anônima naquele mar. — Então, a partir de hoje, você será Liel Bellatorre — ele declarou, como se estivesse assinando uma sentença. — O nome e o sobrenome da minha nonna. Uma mulher forte. Você carrega o nome dela agora. A partir daquele momento, eu deixei de ser ninguém para me tornar Liel Bellatorre. Ele não apenas me puxou de um naufrágio. Ele me puxou do esquecimento, dos braços frio da morte. Fui levada para a mansão Azzaro, em Nápoles, e o mundo que eu conhecia, um mar infinito e gelado, se transforma em mármore, tapeçarias, corredores longos e janelas enormes com vista para um mar que, agora, eu só observava de longe. No começo, eu o chamava de senhor. Depois, naturalmente, todos passaram a chamá-lo de Don na minha frente, e eu aprendi a fazer o mesmo. Na frente dos outros, ele sempre foi Don Marcus. Dentro de casa, quando era só ele, eu e mais ninguém por perto, ele se tornava meu padrinho. — Você é minha afilhada agora, Liel — ele dizia, com uma taça de vinho na mão e um carinho distraído nos meus cabelos loiros. — E eu cuido da minha família. Família. A palavra ganhou um significado novo. Ele não só me deu um nome. Ele me deu um sobrenome emprestado, um teto, comida, roupas, livros, armas… e uma função. Eu não fui criada apenas como uma princesa. Eu fui moldada como uma arma. Don Marcus me ensinou que o mundo é dividido entre predadores e presas. E que, se eu quisesse sobreviver, nunca mais poderia permitir que o mar, ou qualquer coisa, me engolisse de novo. Ele contratou os melhores atiradores, estrategistas, assassinos do submundo, e me colocou para treinar com todos eles. Enquanto outras meninas aprendiam a dançar balé, eu aprendia a desmontar uma pistola em segundos. Enquanto outras adolescentes choravam por um coração partido, eu estudava anatomia para saber exatamente onde enfiar uma faca se precisasse fazer alguém falar. Os homens riam de mim nos primeiros meses. Cabelos loiros, olhos azuis, aparência frágil, corpo pequeno demais. — É isso que o Don está treinando agora? — eu ouvi um deles debochar certa vez. — Uma boneca? Dois minutos depois, ele estava com o rosto espremido contra o chão de concreto do galpão de treinamento, o braço dobrado em um ângulo nada natural, e eu só soltei quando Don Marcus mandou. Ninguém riu de mim depois disso. Cresci ouvindo que eu era linda, mas perigosa. Frágil por fora, letal por dentro. E por mais estranho que pareça, eu era grata por isso. Grata por Don Marcus ter olhado para uma criança naufragada e decidido transformá-la em algo mais do que só um corpo afogado sem nome. Hoje, faz quatorze anos desde o dia em que o Estrela da Morte cortou o mar para me salvar. Tenho vinte e três anos. Sou a conselheira da máfia Azzaro, a mente por trás de muitas das decisões que mantêm essa família no topo da cadeia alimentar do submundo. Nada importante acontece sem que eu saiba. Nada grande é assinado sem que eu leia. Nada ameaça o Don sem que eu esteja pronta para reagir. E pelo homem que me salvou, eu faria qualquer coisa. Mentiria, mataria, queimaria a cidade inteira se fosse preciso. A vida ao lado do Don é perfeita. Ou quase. Porque existe um problema que nem todo o treinamento do mundo é capaz de neutralizar. Um problema com olhos escuros demais, cheiro de whisky caro, risada irritante e uma capacidade absurda de transformar qualquer ambiente em caos em questão de minutos. Vinnie Azzaro. Filho de Don Marcus. Sete anos mais velho do que eu. Herdeiro de tudo isso aqui. E o principal motivo de dor de cabeça do homem a quem eu devo a vida. Desde o primeiro dia em que pisei na mansão, Vinnie era a prova viva de que o universo adora ironia. Enquanto o Don me observava com aquele olhar calculista, vendo potencial onde o mundo teria visto apenas uma criança perdida, Vinnie me olhava como se eu fosse um incômodo. Ele era o filho perfeito… ou quase, pelo menos até a morte da mãe dele. As pessoas falavam dela baixinho, como se fosse pecado pronunciar o nome de uma santa em meio a pecadores. Depois que ela se foi, Vinnie foi junto. Não em corpo, mas em juízo. A partir dos doze anos, ele começou a dar trabalho… tudo piorou na adolescência. Bebidas, festas, mulheres, confusões. Aos trinta, ele é o retrato exato de tudo o que eu desprezo em um homem: irresponsável, mulherengo, alcoólatra, instável. E o pior: implicante. Se tem uma coisa que Vinnie Azzaro sabe fazer certo é provocar. Ele me cutuca, me irrita, me tira do sério como ninguém. Já trocamos golpes físicos mais vezes do que eu consigo contar. E, sinceramente, se não fosse pela paciência do Don e pela minha obrigação de respeitar o filho dele, Vinnie já teria acordado com uma arma apontada para a cabeça em mais de uma ocasião. Mas, apesar de tudo isso, eu sigo grata. Grata pela vida que tenho, pela família que ganhei, pela posição que conquistei. Eu sei exatamente qual é o meu lugar nesse tabuleiro, e sei o quanto o Don confia em mim. O que quer que eu precise fazer para mantê-lo seguro, eu vou fazer. Só tem uma coisa da qual eu quero distância a qualquer custo. Vinnie Azzaro. Se depender de mim, ele e o caos que o cerca vão continuar o mais longe possível da minha cama, do meu futuro e, principalmente, do meu coração. E essa é justamente a parte da vida em que o destino começa a rir da minha cara.Liel A mansão Azzaro nunca ficou totalmente silenciosa.Mesmo à noite, tinha o som distante de carro passando na rua, o clique de algum rádio no andar de baixo, o passo contido de segurança mudando de posição. O submundo não dormia. Só diminuía o volume.Hoje, mesmo com tudo isso, o quarto parecia outro lugar.No berço ao lado da cama, o nosso filho dormia.Pequeno demais pra tudo que já tinha acontecido antes dele. Respirava com aquele barulho leve de bebê, a mão fechada num punho que não sabia ainda o peso do nome que carregava.Azzaro.Bellatorre.Não era só sobrenome.Era herança.Vinnie estava sentado na borda da cama, cotovelos nos joelhos, olhar fixo no berço como se estivesse guardando a cena pra nunca mais esquecer. A luz baixa deixava o rosto dele mais sério, mas menos pesado do que nos últimos meses.Renata Conte estava fora do jogo.Não importava, naquela noite, se viva, morta, exilada. Não importava o destino exato. Importava que não tinha mais mão dela em nenhuma opera
Vinnie Eu sempre achei que a mansão Azzaro era território.Território pra reunião, pra guardar arma, pra planejar guerra. Um lugar onde o submundo se levantava e se desmontava todo dia, dependendo de quem entrava pela porta.Nunca tinha pensado nela como casa.Até ver a Liel descendo a escada com a mão na barriga.Não era barriga grande ainda.Era só gesto.Ela vinha devagar, não por fraqueza, mas porque estava pensando. Liel nunca andava rápido quando pensava. Cada degrau era tempo de cálculo.Eu estava no meio da escada.— Onde você acha que vai? — perguntei, cruzando os braços.— Trabalhar — respondeu, simples.— Trabalhar onde?— Na sala de reunião.Desci mais um degrau, bloqueando o caminho.— Não.Ela ergueu o queixo.— Não o quê?— Você não vai pra sala de reunião.— Por quê?— Porque tem dez homens sentados lá embaixo discutindo contrato, risco, possíveis ataques, gente querendo arrancar pedaço do nome Azzaro. Não é ambiente pra grávida.— Vinnie… — ela suspirou, olhando pro
VinnieAlguns dias depois, Liel decidiu que precisava ver o mar.Ela não avisou.Eu percebi quando acordei e ela não estava na cama, e uma mensagem curta no celular substituía a presença.“Praia. Sem escolta demais. Sem drama. Não surta.”Surtei.No limite interno.Peguei o carro, fui atrás.A praia não era luxuosa.Era uma faixa de areia, mar cinza, vento cortando a pele. Ela estava em pé perto da água, sapatos na mão, pés descalços, vestido simples que não chamava atenção, cabelo preso de forma prática.A “Estrela da Morte” tinha sido cena que marcou a vida dela.Ela me contou, aos pedaços, sobre naufrágio, sobre quem ela foi antes de virar Liel Bellatorre, sobre o que o mar tirou. Nunca em detalhes demais. Só o suficiente pra eu entender que, pra ela, água não era só água.Era perda.Cheguei devagar.Não chamei.Fiquei alguns passos atrás, observando.Ela olhava pro horizonte como se estivesse tentando ver uma pessoa que não existia mais.Depois olhou pra própria barriga, ainda dis
Vinnie O consultório ainda me incomodava.Parede clara, cadeira confortável demais, cheiro de coisa limpa. Eu sempre me senti deslocado em lugares que não carregavam o peso de tudo que eu fiz. Aqui, ninguém tinha sangue nas mãos. Só caneta, papel e diplomas na parede.O médico me olhou por cima dos óculos.— Há quanto tempo você não bebe? — perguntou.— Tempo suficiente pra ter medo de contar — respondi.Ele anotou.Sessões de terapia nunca foram lugar em que eu me senti à vontade. Nas primeiras, eu passei metade do tempo irritado, a outra metade calado. Nas últimas, alguma coisa mudou. Não porque eu passei a gostar, mas porque o peso dentro da cabeça começou a exigir um lugar pra sair.— E por que decidiu parar? — ele insistiu.Pensei em responder com alguma frase de efeito.Não respondi.— Porque eu amo uma mulher que não merece ver a própria vida virar repetição da minha — falei, simples. — Porque eu vou ser pai de alguém que não pediu pra nascer nesse mundo. Porque meu pai já pa















Último capítulo