Capítulo 2 – Propriedade Dela

Vinnie

Quando eu penso na palavra “felicidade”, eu não lembro de champanhe caro, nem de festas lotadas, nem de armas brilhando sobre a mesa de uma reunião do submundo.

Eu lembro do cheiro de bolo assando.

Lembro da risada da minha mãe ecoando pelos corredores da mansão. Lembro das mãos dela bagunçando o meu cabelo, dos beijos estalados na minha testa, do jeito como ela me puxava para dançar no meio da sala ao som de uma música qualquer, só porque o dia estava bonito.

A vida com ela era simples. E, justamente por isso, era perfeita.

Meu pai sempre foi um homem amoroso… do jeito torto que homens como ele conseguem ser. Ele nunca foi frio comigo, nunca foi cruel, nunca me olhou como se eu fosse um peso morto. Mas o problema é que ele quase nunca estava lá.

Enquanto eu crescia, o Don estava ocupado demais brigando com o mundo para manter a família viva. Passava semanas fora, em viagens que ninguém podia explicar direito. Em outras, sumia dentro de hospitais, lutando pela própria vida depois de mais um ataque, mais uma emboscada, mais uma rodada daquele jogo sujo que é comandar uma máfia.

Eu sabia que ele fazia o que podia. E, com o tempo, eu entendi o que ele precisava fazer. Mas um menino não consegue entender ausência. Um menino só sente o vazio.

Então eu me agarrei à minha mãe com toda a força que eu tinha.

Dormir no meu quarto? Pra quê? O colchão dela era mais macio, o perfume dela era mais forte, o abraço dela era o único lugar do mundo em que nada parecia perigoso. Eu me esgueirava para a cama dela todas as noites, fingia que tinha pesadelos, inventava desculpas idiotas só para me enfiar debaixo do braço dela e ouvir aquela frase que, por muito tempo, foi minha âncora:

— Eu estou aqui, Vinnie. A mamãe está aqui.

E estava. Estava em cada detalhe da casa, em cada prato que ela mandava preparar, em cada flor que ela colocava nos vasos, em cada bronca carinhosa que me dava quando eu fazia alguma besteira. Meu pai vinha e ia como uma tempestade. Ela ficava. Ela era a constância em um mundo que eu não entendia.

Até que não foi mais.

Eu tinha doze anos no dia em que tudo o que eu conhecia sobre amor foi arrancado de mim.

Era uma manhã clara. Minha mãe sorria. Ela tinha descoberto uma semana antes que estava grávida. Eu ia ter um irmão. Ou uma irmã. Eu não me importava. Eu só queria alguém para dividir aquele amor enorme que ela carregava no peito.

— Você vai ser um ótimo irmão mais velho — ela disse, apertando minha mão dentro do carro. — Mas não pode ter ciúmes, capisce?

Eu ri, fiz graça, garanti que ia ser o melhor irmão do mundo. Estava ansioso demais para ver aquele borrãozinho na tela do ultrassom, ouvir o médico explicar onde estava a cabeça, onde estavam as perninhas… não chegamos na clínica.

O carro em que a gente estava, eu, minha mãe, um segurança e o motorista, virou alvo no meio da rua.

Eu lembro do som seco do primeiro tiro. Lembro do vidro estilhaçando. Lembro do grito do motorista, do corpo do segurança se jogando meio segundo tarde demais.

Lembro, principalmente, do momento exato em que minha mãe tirou a mão da barriga e a colocou sobre mim. Ela não pensou. Não hesitou.

Só jogou o corpo por cima do meu, me prensando contra o banco. Eu ouvi o impacto dela, ouvi o som surdo da carne sendo atravessada por metal quente. Senti o peso da minha mãe sobre mim, pesado demais para uma mulher que, até então, parecia leve como o ar.

Eu senti quando a bala entrou em mim também. Uma queimação absurda, um choque que percorreu o peito. Mas a dor maior não veio do tiro.

Veio da voz dela.

— Eu te amo, Vinnie — ela sussurrou no meu ouvido, ofegante. — Sempre vou te amar…

O resto foi barulho. Tiros, pneus cantando, gente gritando do lado de fora. O sangue dela escorria quente pelo meu pescoço, pelo meu peito, pela minha roupa, até se misturar ao meu. Eu tentei falar alguma coisa. Tentei responder o “eu te amo”. Mas a boca não obedeceu.

Eu senti quando o corpo dela começou a esfriar ainda em cima do meu.

Quando a ambulância chegou, já não havia nada de vida naquela pele que antes brilhava. Os paramédicos precisaram de força para me arrancar debaixo dela. Eu não queria soltar a mão dela. Eu gritei, esperneei, xinguei. Mal conseguia respirar de tanta dor, mas ainda assim lutei como um animal acuado quando tentaram separar a gente.

Eles a levaram em um saco. Levaram meu irmão junto. Levaram a única parte de mim que era realmente boa.

Desde aquele dia, eu nunca mais dormi direito.

Todas as noites, eu sonho com a mesma manhã. O mesmo barulho de tiros. O mesmo “eu te amo” engolido pelo som do metal. O mesmo corpo ficando frio sobre o meu.

Eu acordo suando, arfando, com a sensação de que ainda estou no carro, com ela me protegendo de um mundo que, no fim, nem fez questão de mantê-la viva. Acordo com o peito doendo, o coração disparado e uma vontade desesperada de apagar qualquer coisa que eu ainda consiga sentir.

Foi assim que o álcool entrou na minha vida. Primeiro como curiosidade, depois como companhia, e, quando eu percebi, ele já era o único filtro capaz de deixar o mundo suportável. A bebida entorpece, amortece, abafa. Com alguns copos, o som dos tiros fica mais distante. Com uma garrafa, o “eu te amo” dela não dói tanto.

Eu sei o que as pessoas dizem pelas minhas costas. Herdeiro irresponsável. Mulherengo. Alcoólatra. Instável. Eles não estão errados. Eu me tornei tudo isso. Mas ninguém pergunta o porquê.

Quando eu tinha dezesseis anos, meu pai apareceu na mansão com uma pirralha loira de olhos azuis, magra, encharcada, com um olhar tão vazio quanto eu me sentia por dentro. Ele a carregava como se fosse um troféu resgatado do fundo do mar. Eu nunca vou esquecer a expressão do Don naquele dia.

Orgulho.

Cuidado.

Carinho.

Coisas que eu tinha visto tantas vezes quando ele olhava para minha mãe. Coisas que, por muito tempo, eu quis que ele tivesse por mim. E ali estava aquela garotinha desconhecida, recebendo tudo de bandeja.

Liel Bellatorre.

Eu a odiei no exato segundo em que meu pai afagou o cabelo dela. Odiei o jeito como ele a defendeu diante dos outros. Odiei como, em pouco tempo, ela ganhou um lugar dentro da casa, dentro da rotina, dentro da vida dele.

Era irracional, eu sei. Ela era só uma criança. Mas eu também tinha sido um menino grudado na mãe, e o mundo não teve dó de mim. A única coisa que eu via quando olhava para aquela menina era o carinho que eu não tinha mais.

Então eu fiz o que qualquer idiota ferido faz, comecei a infernizar a vida dela.

Provocava, implicava, mexia nas coisas dela, buscava qualquer motivo para arrancar uma reação. Se ela passava por mim calada, eu cutucava. Se ela me ignorava, eu dobrava a dose. A gente brigava por tudo. E, na maioria das vezes, eu saía apanhando.

Porque a pirralha era pequena, mas era braba. E o Don se orgulhava disso.

Eu passei anos enxergando a Liel como um lembrete inconveniente do quanto meu pai era capaz de cuidar de alguém… desde que esse alguém não fosse eu.

Ela cresceu sob o olhar atento dele, sob o treinamento dos melhores assassinos, sob a proteção de homens que eu via no campo de batalha e depois na mesa de jantar, falando sobre como ela aprendia rápido, como era inteligente, como era letal.

O tempo passou. Um dia, ela saiu em viagem com o meu pai. E, quando voltou, tudo mudou.

Ela não era mais a pirralha loira que eu empurrava pelos corredores só para deixá-la irritada. Ela tinha dezessete anos e carregava uma postura que não combinava com a idade. O olhar dela estava mais frio, mais afiado, como se ela tivesse entendido de vez a linguagem do submundo. A voz, mais firme. O corpo… diferente.

Foi naquele dia, apoiado no batente da porta do escritório do meu pai, que eu percebi a merda que estava feita.

Eu tinha me apaixonado.

Por quem? Pela garota que eu passei anos provocando. Pela conselheira em treinamento que meu pai colocava ao lado dele nas reuniões. Pela única pessoa dentro daquela casa que não parecia precisar de mim para absolutamente nada.

Quanto mais ela crescia, mais clara ficava a distância entre nós. Liel se tornava a mente estratégica da família Azzaro. E eu… o desastre público que estampava manchetes.

Meu vício em álcool só piorou. Cada gole me afastava um pouco mais do que eu poderia ter sido. E, ao mesmo tempo, cada gole me dava coragem suficiente para olhar para ela sem desmoronar por dentro.

Liel me odeia. Ela não tenta esconder. Fala na minha cara que eu sou um irresponsável, que decepciono o Don, que jogo fora tudo o que qualquer homem mataria para ter. Ela me derruba quando eu passo dos limites, me enfrenta na frente de quem quer que seja, me humilha se precisar.

Eu deixo.

Deixo porque é o único jeito dela tocar em mim. Deixo porque, quando ela crava os olhos azuis nos meus olhos verdes com raiva, eu sei que existo para ela. Deixo porque, no meio de um soco, de um empurrão, de um xingamento, eu consigo sentir por um segundo que o gelo que ela ergueu entre nós derrete um milímetro.

Ela passa por mim pelos corredores e desvia como se eu fosse um móvel. Quando precisamos dividir uma sala em alguma reunião, ela fala comigo apenas o necessário, sempre no tom mais profissional do mundo. Se alguém vê de fora, acha que ela só me tolera por obrigação.

Eu sei a verdade, ela gostaria que eu desaparecesse.

Às vezes, eu me pego pensando como seria se ela me olhasse de outro jeito. Se, ao invés de repulsa, houvesse curiosidade. Se, em vez de desprezo, houvesse um pouco de… fé. Fé de que eu posso ser mais do que isso. Mais do que o herdeiro problemático que aparece bêbado nas manchetes e sangrando nas reuniões.

Talvez… só talvez… se Liel Bellatorre me desse uma chance, eu pudesse ser o homem no coração dela. Um homem que ela respeita. Um homem que ela escolhe. Não o moleque que ela tolera por causa do Don.

Eu me pergunto isso toda vez que ela passa por mim, reta, impecável, com aquela postura de quem sabe exatamente quem é e o que quer. Toda vez que finge que eu sou invisível. Toda vez que aperta os lábios para não soltar um comentário ácido quando sente o cheiro de whisky em mim.

Ela não faz ideia.

Não faz ideia de que, no meu peito, bem em cima do coração que ela jura que eu não tenho, existe uma tatuagem com o nome dela.

Propriedade de Liel Bellatorre.

O tatuador riu quando eu pedi. Disse que era loucura, que nenhum homem coloca “propriedade” com o nome de uma mulher. Eu ri de volta. Porque o que ele não entendeu é que já era verdade antes mesmo da agulha encostar na minha pele.

Eu já era dela. Sempre fui. Desde o dia em que aquela pirralha loira entrou pela porta da mansão roubando o último pedaço de carinho que eu achava que ainda poderia ter.

Ela só não sabe. Ainda.

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