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Capítulo 6 – O Preço da Minha Liberdade

Liel

Por alguns segundos, eu realmente acho que o Don enlouqueceu. Talvez a notícia dos seis tiros, o susto, o cansaço de tudo, tudo isso tenha finalmente cobrado a conta e ele tenha cruzado aquela linha invisível entre sensatez e delírio. Talvez seja só o choque, uma reação absurda ao ver o próprio filho estirado numa cama de hospital.

— “Você. Você é a mulher.”

A frase ecoa na minha cabeça como se tivesse sido disparada por uma arma com um silenciador.

Eu o encaro, esperando que ele complete a frase com um… “brincadeira”. Uma piada de humor duvidoso, inadequada para o estado crítico em que o filho dele se encontra. Mas Don Marcus não é esse tipo de homem. Ele não faz piada com aquilo que leva a sério. E ele leva a família mais a sério do que leva a própria vida.

Vinnie está ali, entre nós, inconsciente, pálido, ligado a fios e máquinas. O bip regular do monitor cardíaco enche o quarto de um som irritantemente constante. O peito largo sobe e desce, lento, pesado, como se respirar fosse uma tarefa árdua demais para alguém que sempre gastou o ar com provocação e álcool.

Eu pisco devagar, tentando reorganizar meus pensamentos.

— Padrinho… — minha voz sai mais baixa do que eu pretendia. — Eu levaria um tiro pelo senhor. O senhor sabe disso. Eu trocaria a minha vida pela sua mil vezes sem pensar. Mas… isso?

Faço um gesto curto com a mão entre nós, apontando para o meu peito, depois para o Vinnie.

— Isso, eu não posso fazer — continuo. — Eu não posso casar com o seu filho. Eu odeio ele.

A palavra “odeio” sai limpa, sem tremor, sem culpa. Eu repito mentalmente, como se precisasse reafirmar a mim mesma o que sinto. Eu odeio o modo como ele entra nas salas como se fosse dono do lugar, o cheiro de whisky impregnado nas roupas caras, o jeito como bagunça tudo o que meu padrinho constrói com tanto esforço.

Don Marcus me observa com aquela calma perigosa de quem está acostumado a ouvir negativas e transformá-las em acordos.

— Justamente por isso você é perfeita para o que eu preciso — ele diz.

Eu rio. Não porque tenha graça, mas porque é a única reação que o meu corpo encontra para não quebrar.

— Perfeita — repito, irônica. — Eu passo a vida inteira derrubando o Vinnie no chão, e o senhor acha que o próximo passo natural é dividir uma cama com ele?

— Eu preciso de alguém que tenha pulso firme — o Don continua, como se eu não tivesse falado. — Alguém que não se curve diante dos caprichos do meu filho. Você é a única pessoa que consegue olhar para ele e não tremer. A única que não se intimida, não se impressiona, não se apaixona pela beleza.

Eu aperto os dedos em torno da pasta que carrego, sentindo a borda de metal pressionar a palma da minha mão.

— O senhor está esquecendo de alguns detalhes importantes — digo, fria. — Detalhes como… nós dois quase sempre terminamos no chão quando estamos no mesmo cômodo por mais de dez minutos. Ou como o fato de que, se dependesse de mim, o Vinnie seria o último homem no mundo com quem eu dividiria uma cama. E, mesmo se ele fosse o último, eu provavelmente ainda preferiria dormir abraçada com uma arma.

O Don respira fundo. Eu reconheço o jeito como ele faz isso, é quando está prestes a jogar uma carta que sabe que vai mudar o jogo.

— Liel — ele começa, com a voz um pouco mais grave. — Eu estou doente.

As palavras caem pesadas no espaço entre nós. Eu o encaro, o estômago contraindo. Não é novidade que ele anda cansado, que a respiração dele perde o ritmo em escadas, que as olheiras se aprofundam a cada ano. Mas outra coisa é ouvir a confissão crua, sem filtro.

— O médico foi claro comigo — ele continua. — Se eu fizer tudo certo, se eu seguir cada instrução, se eu descansar, se eu delegar… talvez eu tenha cinco anos. Talvez seis. Se eu fizer tudo errado, posso não ter nem isso.

Por um instante, o bip do monitor parece mais alto. Eu aperto os dentes, tentando impedir que qualquer expressão de pânico escape pelo meu rosto. Eu já vi homens sangrando até a morte sem piscar. Mas a ideia de perder o Don… isso, eu não sei como enfrentar.

— Chegou o momento de você pagar por tudo o que eu fiz por você — ele diz, sem crueldade, mas sem suavidade. — Eu tirei você do mar. Dei um nome, uma casa, um lugar no mundo. Criei você como minha filha, ensinei um ofício, coloquei poder nas suas mãos. Agora, eu preciso que você faça o que ninguém mais consegue… tirar o meu filho do buraco em que ele se enfiou.

Meu peito aperta.

— Isso não é um pagamento, padrinho — respondo, a voz mais áspera do que deveria. — Isso é uma sentença. Eu posso matar por você, posso negociar por você, posso comandar o submundo inteiro se o senhor mandar. Mas casamento…?

Olho para Vinnie, inconsciente, o tórax marcado pelas bandagens, o rosto ainda bonito demais para alguém tão problemático. Ele parece mais jovem assim. Menos ameaçador. Quase… vulnerável.

Quase.

— Ele nem tem sentimentos amorosos por mim — argumento, buscando qualquer brecha. — Eu não tenho por ele. Nós não nos suportamos. O Vinnie não vai aceitar esse casamento comigo. Ele vai surtar, vai se revoltar, vai destruir qualquer acordo antes mesmo de assinar.

Uma parte de mim sabe que é mentira. Não a parte que fala dos meus sentimentos, mas a que fala dos dele. Eu vejo como ele me olha quando pensa que ninguém está vendo. Eu sinto a tensão no ar quando discutimos. Mas admitir isso agora seria dar uma arma extra na mão do Don.

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