Mundo de ficçãoIniciar sessãoLiel
Sloane e Don Marcus ocupam as poltronas centrais. Reid se posiciona ligeiramente ao lado da mãe. Eu fico à direita do Don, como sempre. Gideon, na poltrona oposta à minha, finge estar relaxado, mas eu reconheço em seus olhos o mesmo hábito que tenho… observar o ambiente antes de qualquer palavra. — Vamos ao que interessa — Sloane diz, cruzando as pernas. — A família ValeVerde quer fazer parte da nossa aliança. E eu quero ouvir os meus conselheiros antes de dar qualquer passo. O olhar dela passa por Reid, depois por mim. Don Marcus inclina a cabeça na minha direção, um convite para começar. — O acordo entregue pelo filho mais velho da família ValeVerde tem pontos que, à primeira vista, soam generosos demais — começo, abrindo o arquivo no tablet. — Mas, quando analisamos as cláusulas de compensação e os prazos de resposta, fica evidente que estamos diante de uma armadilha bem disfarçada. Deslizo o dedo pela tela, projetando os trechos importantes em minha mente. — Eles se colocam em posição vulnerável demais em troca de pouco. Isso não é característica de quem busca equilíbrio. É característica de quem está desesperado por proteção e disposto a puxar quem o proteger para dentro da própria tempestade. Reid franze levemente o cenho. — Toda família que nos procura está, de algum modo, desesperada por proteção — ele comenta. — Isso não é novidade no submundo. — Não estou falando do “modo” habitual — respondo. — Estou falando de uma família que muda o tom, os termos e a postura de acordo com quem está na sala. Comigo, eles foram um pouco mais cuidadosos. Com o Vinnie… menos. O nome do herdeiro Azzaro faz a tensão mudar de sabor. Reid se ajeita na poltrona, cruzando os braços. — Ainda assim, acredito que podemos aceitar — ele diz. — Desde que o acordo seja reescrito por nós. Nada que venha da família ValeVerde entra nos livros sem passar pelo crivo dos Serracante e dos Azzaro. — Mesmo que o papel seja nosso, o cheiro continua sendo deles — retruco. — E eu sinto cheiro de rato toda vez que eles aparecem em qualquer lugar. O silêncio pesa por um segundo. Reid solta um suspiro curto, impaciente. — Com todo respeito, Liel, talvez, ao invés de tirar conclusões baseadas no que você sente, você devesse focar em ajudar o Don a controlar o filho que está, a cada dia, manchando mais a imagem da família e prejudicando bons acordos no submundo. As palavras dele caem como um tapa seco no rosto. Não é só pelo Vinnie. É por achar que pode usar o nome dele como arma contra o Don na minha frente. Eu me levanto. Não de forma agressiva, mas com aquela calma que antecede uma execução muito bem planejada. Sinto minhas costas endireitarem ainda mais, o queixo elevar um milímetro, a voz sair fria e precisa. — Os problemas com o herdeiro dos Azzaro não estão incluídos nesta reunião — declaro, clara. — Estamos aqui para decidir se é prudente trazer para o nosso lado uma família que pode colocar todos nesta sala na mira de uma arma. Reid sustenta meu olhar, mas eu não desvio. — Talvez você devesse pensar melhor antes de falar sobre algo que não é da sua conta — continuo. — Ao invés de usar o nome do meu padrinho e do filho dele como distração, foque no que realmente importa, não colocar uma maçã podre no centro do nosso cesto só porque ela parece brilhante por fora. O silêncio que se segue é pesado. Sloane nos observa com um interesse quase divertido. Gideon tem um meio sorriso nos lábios, como se estivesse orgulhoso de me ver cravar minha posição sem vacilar. Reid aperta o maxilar, mas não rebate. Don Marcus se levanta devagar, ajeitando o paletó. — Essa é a minha princesinha — ele diz, sem disfarçar o orgulho na voz. — Se a minha conselheira diz que a família ValeVerde não inspira confiança, então eu não tenho interesse em colocar o meu nome ao lado do deles em nenhum papel. Ele olha para Sloane. — Se vocês quiserem se arriscar, é com vocês — continua. — Mas não envolvam a família Azzaro nisso. Sloane hesita por um segundo, depois inclina a cabeça, em respeito. — A opinião da Liel sempre foi valiosa para mim — ela admite. — Eu também não costumo ignorar presságios quando vêm de alguém que vê além dos números. Vamos reconsiderar a proposta. A reunião termina ali. Os cumprimentos finais são cordiais, mas carregam aquela eletricidade de quem sabe que decisões importantes foram tomadas sem necessidade de gritos. Saímos da mansão Serracante pelo mesmo caminho por onde entramos. Ao atravessar o hall, sinto o olhar de Gideon nas minhas costas. Não me viro. Se eu olhar, vou corar de novo, e não estou disposta a dar esse presente para ele duas vezes no mesmo dia. No carro, de volta, o Don parece mais leve. — Obrigado — ele diz, quebrando o silêncio alguns minutos depois que o comboio se afasta da propriedade. — Eu que agradeço por confiar em mim — respondo. — O senhor poderia ter escolhido ignorar o meu instinto. — Eu não criei você para ignorar o que sente — ele rebate. — Criei para usar a sua cabeça e o seu estômago. Quando os dois concordam, eu seria idiota se não escutasse. Um sorriso pequeno puxa o canto dos meus lábios. — O senhor foi ótimo lá dentro. — Não. — Ele balança a cabeça. — Você foi. Eu só fiz o que um bom Don faz quando tem uma conselheira excepcional, ouvi. Meu peito aquece. — Então faça outra coisa que um bom Don deveria fazer — peço, aproveitando a brecha. — Cuide da própria saúde. Tire as férias. Delegue. Nem que seja por quinze dias em vez de trinta. Eu posso segurar a máfia, o Vinnie pode lidar com a parte que cabe a ele e, se ele vacilar, eu mesma derrubo o seu filho de bunda no chão e faço ele levantar como um homem. Ele ri alto dessa vez, a risada cheia que eu sempre gosto de ouvir, porque me lembra que ele ainda está aqui. — Eu não duvido — diz, orgulhoso. — Você derruba o meu filho desde que era quase metade do tamanho dele. — E vou continuar derrubando até ele aprender a ficar em pé — afirmo. Ele me encara por um instante, como se calculasse riscos, possibilidades, futuros. — Está bem, Liel — cede, por fim. — Eu vou pensar nas férias. — Pensar não conta — replico. — Eu quero datas. — Princesinha… — ele suspira, mas sorri. — Você realmente não vai descansar enquanto eu não estiver deitado numa espreguiçadeira em algum lugar distante, vai? — Não — respondo. — E, se precisar, eu mesma faço a mala. Ele recosta a cabeça no banco, fechando os olhos por alguns segundos. Eu aproveito esses segundos para observar a linha do maxilar dele, as rugas acumuladas, as veias discretas na mão que segura a bengala. Ele já enfrentou guerras que eu só conheço pelos relatos. Já viu amigos morrerem, inimigos caírem, impérios se levantarem e ruírem. Se depender de mim, ele ainda vai ver muito mais. De preferência, deitado numa rede, reclamando do calor, enquanto eu e o resto do mundo cuidamos da parte suja. E, em algum lugar desse plano, Vinnie vai ter que finalmente decidir se quer ser o herdeiro que o Don merece… ou continuar sendo o problema que eu estou pronta para derrubar quantas vezes for necessário.






