Capítulo 7 – Difícil Decisão

Liel

O meu padrinho apenas sorri, aquele sorriso curto de quem já pensou três movimentos à frente.

— Se necessário, eu obrigo — responde. — Sou o Don. Sou o pai. E, no fundo, você sabe que ele não faria tanta força assim para fugir de você.

Meu coração dá um salto que eu prefiro ignorar. O Don se aproxima meio passo, e eu sinto o peso dos anos entre nós. Ele parece mais velho agora do que em qualquer batalha que já enfrentou.

— Eu confio em você para isso, princesinha — ele diz, baixo. — Sei que você é capaz disso… e de muito mais.

Eu olho para ele, e tudo dentro de mim briga ao mesmo tempo. Gratidão, lealdade, raiva, medo, amor, cansaço. É um caos silencioso, como o mar antes da tormenta.

— Eu não quero ver o meu filho morrer aos poucos — ele continua. — Não depois de ter sobrevivido a seis tiros. Não depois de tudo o que lutei para mantê-lo vivo até aqui. Eu quero vê-lo casado, quero ver meu primeiro neto. Quero ver você com uma vida que não dependa apenas do meu sobrenome para existir.

Eu aperto os lábios.

— E se eu disser não? — pergunto.

Ele não hesita.

— Eu vou respeitar — diz. — Mas vou morrer sabendo que eu pedi isso à única pessoa que tinha real chance de salvá-lo.

Eu sei que ele está me manipulando. Não da forma baixa que muitos fazem, mas da forma mais cruel possível, colocando o coração dele na mesa e me deixando escolher o que fazer com isso.

Ele dá o golpe final.

— Se você se casar com o Vinnie e conseguir transformá-lo no homem que ele deve ser — o Don continua, agora com a voz de quem faz um contrato — eu assino um acordo, um contrato, liberando você de qualquer compromisso com a família Azzaro depois da minha morte. Você não será presa a nome, a juramento, a dívida alguma.

Eu ergo o olhar, surpresa.

— Eu… não vou?

— Você vai receber a parte que lhe cabe na herança, como já está no testamento — ele explica. — Vai poder viver onde quiser. Recomeçar do zero. Longe da máfia, se assim escolher. Sem precisar dormir com uma arma debaixo do travesseiro. Basta uma coisa, se casar com o homem que você diz odiar… e tirá-lo do lixo em que se jogou.

A palavra “liberdade” passa pelos meus pensamentos como um sussurro perigoso. Viver onde eu quiser. Recomeçar do zero. Não mais acordar no meio da madrugada por barulhos suspeitos. Não mais ter sangue nas mãos. Não mais planejar mortes, calcular traições, negociar com monstros.

Eu penso em Gideon.

Penso nos olhos cor de mel, na maneira gentil, na voz firme, na forma como ele sempre me tratou como igual. Penso no rosto dele quando sorri, nas piadas leves, no modo como diz que é “fofo” eu corar quando ele chega perto.

Penso na possibilidade, remota, mas real, de um dia poder ser apenas Liel. Não conselheira. Não arma. Não peça de um tabuleiro sangrento.

Apenas uma mulher que ama um homem e constrói uma vida ao lado dele. Quem sabe em uma casa afastada, em um país onde ninguém saiba pronunciar o nome Azzaro ou Serracante. Sem códigos, sem reuniões, sem alianças.

Eu olho para Vinnie novamente. Ele continua sedado, alheio a tudo. Um idiota inconsequente, herdeiro de um império, quebrado até o osso, segurando, sem saber, a chave da minha eventual liberdade.

É irônico. Cruel. Perfeito demais para ser coincidência. Meu olhar sobe para o Don. Ele não me pressiona com palavras agora. Só espera.

E, ao ver o cansaço nos olhos dele, a sombra de dor escondida nas rugas ao redor, eu entendo que, no fim, não se trata só do Vinnie. Trata-se de como ele quer morrer, sabendo que tentou tudo.

Eu respiro fundo.

— Se eu aceitar… — começo, a voz mais baixa. — O senhor cumpre cada palavra?

— Cada linha do contrato — ele garante. — Você terá isso por escrito. Advogados, testemunhas, tudo. Depois que eu me for, ninguém terá o direito de exigir que você continue presa a essa vida.

Eu deixo a cabeça cair um pouco para frente.

Penso nos anos que já vivi sob o teto dele. Nos treinamentos, nas noites em claro, na mão dele segurando a minha quando o pesadelo com o mar voltava. Penso no dia em que ele me deu um sobrenome. Penso em quantas vezes ele me apresentou ao submundo não como funcionária, mas como família.

Se existe uma dívida que eu aceite pagar nesta vida, é com ele. Fecho os olhos por um segundo. Abro de novo. Olho para Vinnie. Olho para o Don.

A sensação é de estar na beira de um precipício, sabendo que o passo à frente é inevitável. Não importa a direção, eu vou cair em algum lugar.

— Eu aceito — digo, finalmente.

Minha voz sai firme, mesmo que por dentro tudo esteja tremendo.

— Eu me caso com o Vinnie. — Engulo em seco. — E eu vou transformá-lo no homem que o senhor quer que ele seja.

A cabeça do Don inclina levemente, em respeito, mas o brilho de alívio nos olhos dele diz mais do que qualquer agradecimento.

Eu, Liel Bellatorre, conselheira da máfia Azzaro, acabo de selar o próprio destino com quatro palavras simples.

Eu. Me. Caso. Com. Ele.

E, pela primeira vez em muitos anos, não tenho certeza se a arma apontada para mim é a do inimigo… ou a do destino.

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