Casamento Por Contrato Com o Homem Que Eu Odeio
Casamento Por Contrato Com o Homem Que Eu Odeio
Por: Rosana Lyra
Capítulo 1 – Estrela da Morte

Liel

Eu não conheço o meu passado.

Não sei quem eu fui, não sei de onde vim, não sei nem qual era o som da minha própria voz antes dos nove anos. A única certeza que eu tenho é que, um belo dia, eu acordei engolindo água salgada, com o céu cinza rasgando meus olhos e o corpo boiando sobre algo branco e metálico no meio de um mar que parecia infinito.

Lembro do gosto do sal arranhando a garganta, do frio cortando a pele, do medo grudado no peito como se fosse uma segunda camada de ossos. Eu não sabia o meu nome. Não sabia se alguém estava me procurando. Não sabia se eu tinha uma mãe desesperada em algum lugar ou se eu era só mais um erro do mundo, pronto para ser engolido pelas ondas.

Eu só sabia que ia morrer ali. E, na época, isso parecia até justo, já que eu não tinha nada para defender.

Então ele apareceu.

Primeiro eu vi a sombra gigantesca cobrindo o pouco de sol que lutava para aparecer entre nuvens pesadas e cinzas.

Depois, o som dos motores silenciando o mar. Quando ergui a cabeça, enxerguei uma embarcação enorme, preta, de vidros igualmente negros e um nome escrito em dourado, em uma caligrafia tão elegante quanto ameaçadora na lateral:

Estrela da Morte.

Naquele momento, eu ainda não sabia ler. Não sabia que aquele nome iria se tornar o marco zero da minha vida. Eu só vi homens correndo pelo convés, vozes em uma língua estranha, cordas sendo lançadas na minha direção, como se o próprio inferno tivesse decidido me puxar para fora da água.

Eu me lembro de tossir, de engasgar, de sentir mãos fortes segurando meus braços magros. Meus dedos estavam tão dormentes que eu mal conseguia agarrar a corda que jogaram. A água batia no meu rosto, insistente, tentando me puxar de volta. Mas alguém gritou lá de cima, uma voz firme e autoritária, que calou o desespero ao meu redor.

— Puxem ela! Agora!

Fui erguida como um peso morto, o corpo escorrendo água, os cabelos grudados no rosto, o frio cortando até o osso. Me colocaram no convés e tudo aconteceu rápido demais… gente falando, passos correndo, uma toalha jogada sobre mim, alguém perguntando se eu estava bem. Eu tremia tanto que parecia que o mundo todo tremia comigo.

E então eu o vi.

Um homem alto, de terno escuro perfeitamente alinhado, sapatos que brilhavam mesmo molhados por algumas gotas de água do mar. Os olhos dele eram o tipo de olhar que você reconhece mesmo antes de saber o que significa poder. Ele não precisava levantar a voz para ser obedecido. Ele era o tipo de homem que o mundo aprendia a temer só de ouvir o sobrenome.

Don Marcus Azzaro.

Naquele dia, ele se abaixou na minha frente, ignorando o convés molhado, como se um pedaço de pano encharcado não fosse capaz de sujar alguém como ele. Tocou meu queixo com cuidado, como se eu fosse feita de vidro, e usou o italiano mais suave que eu já ouvi na vida para perguntar:

— Como você se chama, bambina?

Demorou alguns segundos até eu entender que ele estava falando comigo. Eu olhei para todos os lados, procurando uma resposta em rostos desconhecidos, como se alguém pudesse soprar um nome para dentro da minha cabeça vazia.

Mas não veio nada. Abri a boca. Nenhum som. Don Marcus só estreitou um pouco os olhos, paciente.

— Nome? — ele repetiu, agora em um som carregado por um sotaque que eu só aprenderia a amar muitos anos depois. — Você sabe seu nome?

Eu balancei a cabeça, sentindo as lágrimas queimarem os olhos. Ele respirou fundo e mudou a pergunta:

— Família. Você lembra da sua família?

Família.

A palavra girou na minha mente como se fosse um idioma completamente novo. Eu tentei puxar alguma imagem… um rosto, uma voz, uma casa. Nada. Só escuridão. Só água. Só o barulho das ondas batendo em metal.

— Não… — minha voz saiu rouca, estranha, como se não fosse minha. — Eu… não sei.

Don Marcus me encarou como se estivesse pesando cada pedaço da minha alma. Eu devia ser só uma criança encharcada, perdida, sem memória e sem valor para o mundo. Mas, naquele dia, por algum motivo que ele nunca me explicou, ele decidiu que eu não morreria anônima naquele mar.

— Então, a partir de hoje, você será Liel Bellatorre — ele declarou, como se estivesse assinando uma sentença. — O nome e o sobrenome da minha nonna. Uma mulher forte. Você carrega o nome dela agora.

A partir daquele momento, eu deixei de ser ninguém para me tornar Liel Bellatorre.

Ele não apenas me puxou de um naufrágio. Ele me puxou do esquecimento, dos braços frio da morte.

Fui levada para a mansão Azzaro, em Nápoles, e o mundo que eu conhecia, um mar infinito e gelado, se transforma em mármore, tapeçarias, corredores longos e janelas enormes com vista para um mar que, agora, eu só observava de longe.

No começo, eu o chamava de senhor. Depois, naturalmente, todos passaram a chamá-lo de Don na minha frente, e eu aprendi a fazer o mesmo.

Na frente dos outros, ele sempre foi Don Marcus.

Dentro de casa, quando era só ele, eu e mais ninguém por perto, ele se tornava meu padrinho.

— Você é minha afilhada agora, Liel — ele dizia, com uma taça de vinho na mão e um carinho distraído nos meus cabelos loiros. — E eu cuido da minha família.

Família.

A palavra ganhou um significado novo. Ele não só me deu um nome. Ele me deu um sobrenome emprestado, um teto, comida, roupas, livros, armas… e uma função.

Eu não fui criada apenas como uma princesa. Eu fui moldada como uma arma.

Don Marcus me ensinou que o mundo é dividido entre predadores e presas. E que, se eu quisesse sobreviver, nunca mais poderia permitir que o mar, ou qualquer coisa, me engolisse de novo. Ele contratou os melhores atiradores, estrategistas, assassinos do submundo, e me colocou para treinar com todos eles.

Enquanto outras meninas aprendiam a dançar balé, eu aprendia a desmontar uma pistola em segundos.

Enquanto outras adolescentes choravam por um coração partido, eu estudava anatomia para saber exatamente onde enfiar uma faca se precisasse fazer alguém falar.

Os homens riam de mim nos primeiros meses.

Cabelos loiros, olhos azuis, aparência frágil, corpo pequeno demais.

— É isso que o Don está treinando agora? — eu ouvi um deles debochar certa vez. — Uma boneca?

Dois minutos depois, ele estava com o rosto espremido contra o chão de concreto do galpão de treinamento, o braço dobrado em um ângulo nada natural, e eu só soltei quando Don Marcus mandou.

Ninguém riu de mim depois disso.

Cresci ouvindo que eu era linda, mas perigosa. Frágil por fora, letal por dentro. E por mais estranho que pareça, eu era grata por isso. Grata por Don Marcus ter olhado para uma criança naufragada e decidido transformá-la em algo mais do que só um corpo afogado sem nome.

Hoje, faz quatorze anos desde o dia em que o Estrela da Morte cortou o mar para me salvar. Tenho vinte e três anos.

Sou a conselheira da máfia Azzaro, a mente por trás de muitas das decisões que mantêm essa família no topo da cadeia alimentar do submundo. Nada importante acontece sem que eu saiba. Nada grande é assinado sem que eu leia. Nada ameaça o Don sem que eu esteja pronta para reagir.

E pelo homem que me salvou, eu faria qualquer coisa. Mentiria, mataria, queimaria a cidade inteira se fosse preciso. A vida ao lado do Don é perfeita.

Ou quase.

Porque existe um problema que nem todo o treinamento do mundo é capaz de neutralizar. Um problema com olhos escuros demais, cheiro de whisky caro, risada irritante e uma capacidade absurda de transformar qualquer ambiente em caos em questão de minutos.

Vinnie Azzaro.

Filho de Don Marcus. Sete anos mais velho do que eu. Herdeiro de tudo isso aqui. E o principal motivo de dor de cabeça do homem a quem eu devo a vida.

Desde o primeiro dia em que pisei na mansão, Vinnie era a prova viva de que o universo adora ironia. Enquanto o Don me observava com aquele olhar calculista, vendo potencial onde o mundo teria visto apenas uma criança perdida, Vinnie me olhava como se eu fosse um incômodo.

Ele era o filho perfeito… ou quase, pelo menos até a morte da mãe dele. As pessoas falavam dela baixinho, como se fosse pecado pronunciar o nome de uma santa em meio a pecadores. Depois que ela se foi, Vinnie foi junto. Não em corpo, mas em juízo.

A partir dos doze anos, ele começou a dar trabalho… tudo piorou na adolescência. Bebidas, festas, mulheres, confusões. Aos trinta, ele é o retrato exato de tudo o que eu desprezo em um homem: irresponsável, mulherengo, alcoólatra, instável.

E o pior: implicante.

Se tem uma coisa que Vinnie Azzaro sabe fazer certo é provocar. Ele me cutuca, me irrita, me tira do sério como ninguém.

Já trocamos golpes físicos mais vezes do que eu consigo contar. E, sinceramente, se não fosse pela paciência do Don e pela minha obrigação de respeitar o filho dele, Vinnie já teria acordado com uma arma apontada para a cabeça em mais de uma ocasião.

Mas, apesar de tudo isso, eu sigo grata. Grata pela vida que tenho, pela família que ganhei, pela posição que conquistei.

Eu sei exatamente qual é o meu lugar nesse tabuleiro, e sei o quanto o Don confia em mim. O que quer que eu precise fazer para mantê-lo seguro, eu vou fazer.

Só tem uma coisa da qual eu quero distância a qualquer custo.

Vinnie Azzaro.

Se depender de mim, ele e o caos que o cerca vão continuar o mais longe possível da minha cama, do meu futuro e, principalmente, do meu coração.

E essa é justamente a parte da vida em que o destino começa a rir da minha cara.

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