Capítulo 5 – O Tempo que me Falta

Marcus

Existe uma diferença brutal entre saber que um dia vai morrer e ouvir da boca de um médico que o seu coração está, literalmente, correndo contra o relógio.

Eu sempre soube que a morte andava ao meu lado. Não dá para comandar uma máfia e acreditar em final feliz.

Mas sempre imaginei que seria uma bala, uma emboscada, uma faca na costela, não… uma bomba silenciosa no peito, esperando o próximo descuido.

— Se o senhor não cuidar disso da forma correta, senhor Azzaro — o cardiologista repete, com aquela calma irritante de quem está acostumado a dar notícias ruins — vai chegar um momento em que nem o tratamento vai conseguir segurá-lo.

Eu encaro o exame em cima da mesa. Linhas, números, termos técnicos. Nada disso importa. O que importa é a frase que veio antes:

— “Alguns anos.”

— Seja específico, doutor — peço, firme. — Quanto tempo eu tenho?

Ele hesita. Médicos não gostam de número. Sabem que número assusta mais do que diagnóstico.

— Se o senhor continuar do jeito que está, ignorando repouso, alimentação e medicação… menos do que o senhor imagina — ele responde, contornando. — Se fizer repouso absoluto, seguir a medicação corretamente, dieta adequada, reduzir o estresse ao mínimo possível… eu diria que podemos lutar por cinco anos. Talvez seis, se o senhor fizer check-up a cada três meses e seguir à risca tudo o que eu recomendar.

Cinco anos. Talvez seis.

Eu tenho um império para manter de pé, uma guerra para administrar, inimigos que esperam qualquer sinal de fraqueza. E o meu coração resolve anunciar que está cansado.

Solto um suspiro lento. Não de medo. De cálculo.

Cinco anos é pouco tempo para alguém que sempre acreditou que conseguiria empurrar a própria morte com a barriga por mais uma década. Mas também é tempo suficiente para ajeitar o que precisa ser ajeitado.

Tempo para ver Vinnie se tornar o Don que eu sei que ele poderia ser, se parasse de se afogar em álcool. Tempo para vê-lo casar. Tempo para segurar meu primeiro neto no colo, sentir um pequeno Azzaro dormir sobre o meu peito cansado.

Tempo para ver Liel onde ela merece estar, com uma vida que não dependa apenas das minhas sombras. Casada, com um filho que eu vou amar chamar de neto, mesmo que o sangue dele não carregue meu sobrenome.

Eu me endireito na cadeira.

— O senhor quer saber se eu aceito? — pergunto ao médico. — Eu aceito. A partir de hoje, medicação, alimentação, repouso, check-up. Me dê cinco anos, doutor. Eu faço o resto.

Ele parece aliviado.

— É isso que eu queria ouvir — diz. — Mas, senhor Azzaro, não é só uma questão de remédio. O senhor precisa diminuir o ritmo. Delegar. Confiar.

Delegar. Confiar.

Palavras fáceis de falar dentro de um consultório com cheiro de remédio. Difíceis de aplicar quando você sabe que um único erro pode colocar um alvo na testa do seu filho. Ou da sua afilhada.

Ainda assim, eu concordo.

— Já está na hora de fazer isso, de qualquer maneira.

Quando saio do consultório, o mundo parece um pouco mais… curto. Como se as ruas estivessem menores, como se o céu tivesse descido um metro, como se o ar estivesse medido em doses contadas, como comprimidos em uma cartela.

Eu entro no carro, recolho a medicação que o assistente segurava, guardo tudo no bolso interno do paletó. Penso na última conversa com a Liel, no brilho determinado nos olhos dela quando falou das minhas “férias”. Ela não faz ideia de que o que ela chamou de descanso é, na verdade, uma tentativa desesperada de esticar um pouco mais o fio que me prende a este mundo.

— Para a mansão? — o motorista pergunta.

— Sim. — Apoio a mão no peito por reflexo. — Temos muito o que reorganizar.

Não dá tempo de encostar as costas no banco. O telefone do meu segurança na frente toca. Ele atende, escuta, empalidece um centímetro, vira para mim com o olhar que eu aprendi a odiar, o olhar de quem vai me contar mais uma merda envolvendo o meu filho.

— Don… — ele começa. — Recebemos uma ligação de um dos seguranças do Vinnie.

Meu sangue gela.

— O que aconteceu? — minha voz sai baixa, perigosa.

— O senhor pediu para ser informado se houvesse qualquer problema na reunião com o novo aliado, o Don Costa. — Ele engole em seco. — O herdeiro Azzaro… o Vinnie… ele foi para a reunião bêbado. Houve um desentendimento. Ele puxou briga com o Don Costa. Os seguranças tentaram separar, mas… o homem começou a perder feio na briga física. Por desespero, atirou. Foram seis tiros.

Por um segundo, o mundo perde o foco. Seis tiros.

Meu coração dispara, descompassado, como se resolvesse protestar na mesma hora. Sinto uma dor leve, insistente, no lado esquerdo do peito. Não é a pior dor que eu já senti. Não chega perto de uma facada. Mas é diferente. É um aviso.

Ponho a mão no coração, apertando a região com os dedos.

— Ele está vivo? — rosno.

— Foi levado para o Santa Rosalia porque é um hospital nosso, Don — o homem responde rápido. — Disseram que ele chegou consciente, mas perdeu muito sangue no caminho. Está em cirurgia.

— Santa Rosalia — digo ao motorista. — Agora.

O motorista pisa fundo, e o carro dispara. No caminho, eu aperto o celular na mão, discando o número de uma das poucas pessoas nesse mundo em quem eu confio de olhos fechados.

Liel atende no segundo toque.

— Don? Estou em reunião com o…

— Saia da reunião — corto. — Agora. Vinnie levou seis tiros. Está no Santa Rosalia. Encontro você lá.

Há um segundo de silêncio, e eu quase posso ver o cérebro dela mudando de marcha.

— Estou a caminho — responde, firme, antes de desligar.

O resto do trajeto é um borrão de faróis, buzinas e pensamentos que eu não quero ter. Eu devia ter tirado o copo da mão dele antes. Devia ter sido mais duro. Devia ter… feito muita coisa.

Mas culpa não muda o que já foi disparado.

Quando finalmente chegamos ao Santa Rosalia, o hospital movimentado do submundo que salva mais bandidos do que qualquer santo por aí, Liel já está na porta. Cabelos presos em um rabo de cavalo firme, o blazer alinhado, os olhos azuis mais frios do que o ar-condicionado.

Ela caminha ao meu encontro, postura impecável, mas eu vejo o aperto na mandíbula, o pequeno tremor no dedo que aperta a pasta contra o corpo.

— Ele está na cirurgia há quanto tempo? — ela pergunta, sem rodeios.

— Quase uma hora — responde um dos meus homens, ao lado. — O cirurgião-chefe já foi avisado de que o senhor estava vindo, Don. Ele prometeu falar assim que tivesse notícias.

O tempo vira inimigo. Três horas. Três horas de corredor, de cheiro de éter, de passos apressados, de enfermeiras indo e vindo, de relógio marcando cada minuto como se estivesse rindo da minha pressa.

Eu sento, levanto, ando pelo corredor. Liel permanece perto, como sempre, sem perguntar nada além do necessário, sem soltar nenhuma frase pronta.

Eu a conheço o suficiente para saber que ela está em guerra com os próprios sentimentos, o ódio que nutre pelo Vinnie, a gratidão que sente por mim, o senso de dever que não permite que ela desmorone.

Finalmente, o médico aparece. Jaleco manchado de sangue, máscara abaixada, expressão cansada, mas não derrotada.

— Don Marcus, senhorita Bellatorre — ele nos chama.

Eu dou dois passos à frente, o peito apertando de um jeito que não tem nada a ver com falha cardíaca.

— Diga, doutor.

— O estado do Vinnie era grave quando ele chegou, mas… — ele respira fundo. — Ele está fora de perigo imediato. O corpo dele é forte. Conseguimos estancar o sangramento, retirar as balas que poderiam causar mais dano agora e estabilizá-lo. Ele vai precisar de cuidados, fisioterapia, repouso, mas… não vamos perdê-lo hoje.

Eu nunca gostei tanto da palavra “hoje”. Minha mão afrouxa no peito. Sinto a pressão diminuir um pouco. Ao meu lado, Liel solta um suspiro que tenta ser discreto e falha. Os ombros dela relaxam um centímetro.

— Podemos vê-lo? — pergunto.

— Podem — o médico responde. — Mas não por muito tempo. Ele está sedado em um quarto de cuidados pós-cirúrgicos. Dez minutos, no máximo.

Caminhar até o quarto do meu próprio filho, escoltado por seguranças, depois de ouvir que ele levou seis tiros por ter ido bêbado a uma reunião… é um tipo de humilhação que eu não desejaria nem aos meus piores inimigos.

Entramos no quarto.

As máquinas fazem aquele som irritantemente regular. O bip que diz que o coração dele continua batendo. Linhas ligadas ao peito, ao braço, oxigênio, curativos. O corpo grande demais para parecer frágil, mas frágil mesmo assim.

Por um instante, tudo o que eu vejo é o menino que dormia enfiado no colo da mãe, recusando-se a voltar para o próprio quarto.

Eu me aproximo da cama. Liel fica a um passo de distância, como se temesse chegar muito perto. Ela olha para ele com um misto de raiva e… algo que ela mesma não admitiria.

— Eu nunca tive tanto medo de perder o meu filho como hoje — confesso, sem tirar os olhos dele. — Nem quando levei facada, nem quando passei semanas lutando pela minha vida neste mesmo hospital. É diferente quando é ele.

Minha voz falha por um segundo. Eu nunca me permito isso na frente de ninguém. Quase ninguém.

— E, mesmo assim, ele parece determinado a se matar devagar, um gole por vez.

Liel respira fundo.

— O senhor me perguntou outro dia o que devia fazer com ele — ela diz, devagar. — Eu achei que estava exagerando, mas… talvez não estivesse.

Eu me viro ligeiramente em direção a ela.

— Tem algum conselho para mim agora, conselheira? — pergunto.

Ela prende o olhar em mim. Os olhos azuis dela, tão frios em negociações, agora têm algo mais ao fundo. Algo que eu reconheço… exaustão. Preocupação não declarada.

Ela suspira.

— Talvez um casamento traga de volta a sanidade do Vinnie — diz, num tom que mistura ironia e seriedade. — O submundo respeita homens que protegem a família. A imagem dele está em frangalhos. Um compromisso sério, com a mulher certa, pode ser o empurrão que falta. Ou pelo menos uma coleira.

Eu deixo a frase entrar devagar. Casamento. Sanidade. Coleira. E, de repente, tudo se encaixa na minha cabeça com uma clareza dolorosa.

Eu olho para o meu filho, estendido na cama, o corpo marcado por balas e escolhas erradas. Lembro da forma como ele olha para a Liel quando acha que ninguém está percebendo.

Lembro das provocações, das brigas, da obsessão mal disfarçada. Lembro, principalmente, da forma como a Liel olha para mim quando fala dele… com raiva, sim, mas também com uma disposição absurda de me proteger de qualquer coisa que possa me ferir.

Eu sorrio, pela primeira vez desde que recebi aquela ligação.

— Eu sei quem é a mulher perfeita para se casar com o meu filho e consertar o que quebrou nele — digo.

Ela franze o cenho.

— Quem é? — pergunta, pronta para anotar mentalmente o nome, já calculando estratégias. — Se o senhor quiser, eu posso fazer uma visita, conversar, ver se ela é confiável o suficiente…

— Não precisa fazer visita alguma, princesinha — eu a interrompo.

Ela arqueia uma sobrancelha, impaciente.

— Então quem é?

Viro o rosto completamente para encará-la. Por um momento, deixo de ser o Don e sou só o homem que sabe que o relógio começou a andar mais rápido e que precisa colocar as peças certas no lugar enquanto ainda consegue mexer as mãos.

— Você — respondo, sem rodeios. — Você é a mulher.

Os olhos dela se arregalam, azuis como o mar que quase a levou embora tantos anos atrás. Nós nos encaramos em silêncio.

Do lado de fora, o mundo continua girando. Dentro daquele quarto, porém, eu sei que acabei de puxar o gatilho de algo que vai mudar a vida dos três.

Eu, que sempre temi balas, acabo de escolher o casamento como arma.

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