Capítulo 3 – A Princesinha do Don

Liel

Diplomacia no submundo é muito parecida com andar em um campo minado. Você sorri, aperta mãos, aceita taças de vinho, ou copos de uísque, e finge que não repara nas armas escondidas sob os paletós enquanto mede cada palavra como se um adjetivo errado pudesse acionar um explosivo.

Eu fui treinada para isso. Ainda assim, o que mais me incomoda hoje não é a possibilidade de levar um tiro. É o jeito como o meu padrinho respira.

Estamos a caminho da mansão dos Serracante, dentro do carro blindado, seguindo o comboio habitual que abre caminho nas ruas estreitas da cidade. Don Marcus está ao meu lado, o braço apoiado no encosto, o olhar perdido na janela por alguns segundos a mais do que o normal.

Ele parece cansado. Não cansado de um dia longo, mas cansado de anos demais.

— Você não dormiu direito de novo — comento, sem tirar os olhos do tablet em que reviso, pela terceira vez, o acordo que a família ValeVerde colocou na mesa.

— Conselheira, desde quando você se preocupa com o meu sono? — ele rebate, com aquele humor discreto que só aparece quando não tem ninguém além de nós.

— Desde que comecei a contar quantas vezes o senhor leva a mão ao peito ao subir um lance de escadas — respondo, seca. — Padrinho, seu coração não é feito de aço. Pelo menos não por dentro.

Ele solta uma risada baixa.

— Você tem certeza? Às vezes eu acho que o meu coração é feito do mesmo material que o seu.

— O meu é teimoso, não de aço — digo. — E o senhor precisa de férias.

Ele me olha de lado, como se eu tivesse acabado de contar a melhor piada da noite.

— Férias.

— Trinta dias — especifico, sem hesitar. — Num lugar paradisíaco, sem arma, sem reunião, sem aliados tentando enfiar alianças duvidosas pela garganta. O senhor merece. E, honestamente, precisa.

— E quem, exatamente, ficaria no comando da máfia Azzaro enquanto eu tomo água de coco na praia? — ele pergunta, com a sobrancelha arqueada.

Eu nem preciso pensar.

— Vinnie.

O nome dele pesa no ar como pólvora.

— Princesinha… — o Don começa, num tom de aviso.

— Ele tem trinta anos, padrinho. Trinta. — Fecho o tablet e me viro totalmente para ele. — Em qualquer outra família, o herdeiro já estaria com metade das operações nas costas desde os vinte e cinco. O Vinnie continua sendo tratado como um garoto que pode se dar ao luxo de errar.

— Ele trabalha comigo — Don Marcus rebate, tranquilo. — Você sabe disso. Vinnie tem responsabilidades.

— Tem responsabilidades cuidadosamente supervisionadas — corrijo. — Ele faz algumas coisas ao seu lado, sim. Mas o senhor nunca larga de verdade. Nunca se permite isso. E, enquanto não largar, ele nunca vai entender o peso real do que significa ser o Don.

O olhar dele endurece levemente. Não por raiva, mas por lembrança.

— Você lembra quantas vezes teve que matar alguém desde que assumiu o cargo de conselheira? — ele pergunta, calmo.

Eu sustento o olhar.

— Sei. E não me arrependo de nenhuma — declaro. — Toda vez que alguém ameaçou a sua vida, eu agi. E vou continuar agindo. O senhor me criou para isso.

Ele faz um leve gesto com a cabeça, assentindo.

— É justamente por saber do que você é capaz que eu penso duas vezes antes de colocar tudo nas costas do meu filho, que ainda não sabe nem o que fazer com o próprio fígado.

A vontade de concordar é grande, mas eu me contenho.

— Padrinho, o Vinnie só vai entender o peso do lugar que ocupa quando o senhor se afastar de verdade. Se ele souber que tem um mês inteiro em que é ele ou o caos, talvez, pela primeira vez, escolha ser o homem que deveria ser.

Don Marcus me observa em silêncio por alguns segundos. Ele tem aquele olhar experiente de quem vê mais do que você fala. De quem escuta o que você não disse.

— Você fala como se não fosse herdeira também — ele comenta, inesperadamente.

Eu franzo o cenho.

— Eu não sou…

— Você está no meu testamento, Liel — ele me corta, direto. — Vai herdar tudo o que um filho legítimo herdaria.

Meu estômago dá um leve giro. Eu não gosto dessa sensação.

— Eu não quero nada — respondo rápido demais. — O senhor já me deu tudo. Nome, casa, profissão, propósito. Eu posso viver até a velhice sem me preocupar com nada graças ao que aprendi e conquistei ao seu lado. Eu não preciso de mais.

— O mundo não pergunta se você precisa — ele retruca. — Ele simplesmente tira. Eu prefiro deixar garantido quem é que vai segurar as pontas quando isso acontecer.

A raiva que sinto não é dele. É da realidade que ele conhece bem demais.

— A única coisa que eu quero do senhor, no momento, é tempo — digo, mais baixo. — Que o senhor descanse, cuide da saúde, viva mais cem anos se for preciso. Eu arranco as tripas de quem tentar encurtar esse prazo, mas o senhor precisa fazer a parte que só o senhor pode fazer.

Ele sorri, e por um instante parece mais jovem.

— Poucos têm a sorte de viver tanto tempo, bambina.

— Então vamos trapacear — respondo. — Começando pelas suas férias.

O carro diminui a velocidade. Pelo vidro, a fachada da mansão Serracante surge aos poucos, imponente, clássica, com colunas claras e aquele ar de respeitabilidade que só famílias que sabem sujar as mãos com elegância conseguem exalar.

O brasão deles nos observa da porta como um lembrete constante de que, naquele território, nós somos aliados… e, ainda assim, precisamos medir cada passo.

O segurança abre a porta. Desço primeiro, postura ereta, expressão neutra, o tablet firme em uma mão, a outra livre para apertos de mão calculados. Don Marcus vem logo atrás, o terno impecável, mesmo com o peso da idade e das cicatrizes escondido sob o tecido.

Somos recebidos na sala principal por três pessoas.

Sloane Serracante, viúva do antigo Don, exala poder em cada movimento. Altiva, impecável, com aquele olhar de quem enterrou um marido e uma parte da própria alma, mas não enterrou a ambição. Ao lado dela, Reid Serracante, o primogênito, postura rígida, expressão séria, olhos atentos. E então, ele.

Gideon Serracante.

Meus pulmões esquecem por um segundo como trabalhar.

Os olhos cor de mel dele encontram os meus, e eu sinto o rubor subir para o rosto com uma facilidade humilhante. O cabelo, sempre bem cortado, o terno caindo perfeitamente nos ombros, a barba milimetricamente aparada. Ele é um pouco mais baixo que o Vinnie, mas o jeito como se porta faz qualquer diferença de altura parecer irrelevante.

Desde os meus dezesseis anos, Gideon é a definição de “homem dos meus sonhos”. E ele não faz ideia da quantidade de noites em que eu repeti o nome dele em silêncio antes de dormir.

— Liel — ele cumprimenta, com um sorriso lento que faz tudo piorar. — Ainda fico impressionado como você consegue ficar corada toda vez que me vê. Acho… fofo.

Fofo. Se ele soubesse quantas mortes eu já comandei, talvez escolhesse outra palavra. Eu forço minhas bochechas a voltarem para uma cor aceitável e endireito a postura.

— Don Marcus — Sloane se adianta, abraçando meu padrinho com aquele equilíbrio perfeito entre carinho e cálculo. — Sempre uma honra receber você na nossa casa.

— Sloane — ele responde, beijando a mão dela. — A honra é minha.

Cumprimentos formais se estendem por alguns instantes. Eu troco um aperto de mão firme com Reid, outro mais demorado com Gideon, que parece se divertir com qualquer mínimo sinal de nervosismo meu. Mas assim que todos se acomodam na sala, o clima muda.

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