Mundo de ficçãoIniciar sessãoDepois de perder os pais cedo demais, Ariella aprendeu que amor não paga contas — muito menos tratamentos médicos. Aos vinte e dois anos, ela é a única responsável pelos irmãos gêmeos de quatorze anos, diagnosticados com uma doença rara e progressiva. Entre dois empregos, contas acumuladas e noites mal dormidas, ela já não vive para si — apenas luta para manter os dois vivos. Até encontrar um anúncio simples demais para parecer real: “Vaga para secretária executiva. Remuneração acima do mercado.” Desesperada, ela comparece à entrevista. Mas a vaga não é para secretária. É para esposa. Alessandro D’Montenegro — empresário influente, viúvo e marcado por traições — não acredita mais em amor. Enquanto enfrenta uma batalha judicial pela guarda da filha pequena, precisa provar que pode oferecer estabilidade familiar diante da mídia e do juiz. A solução é prática. Estratégica. Fria. Um casamento contratual de três anos. Discrição absoluta. Uma mãe presente para sua filha. Nenhum envolvimento emocional. Em troca, ele pagará integralmente o tratamento dos gêmeos — e assumirá legalmente a adoção deles, garantindo um futuro que Ariella jamais poderia oferecer sozinha. No papel, é um acordo perfeito. Mas a convivência diária não respeita cláusulas. Não quando a filha dele se apega a Ariella. Não quando Alessandro começa a observá-la além da obrigação. Não quando um beijo encenado dura tempo demais. Ela prometeu não se apaixonar. Ele jurou que nunca mais amaria. Só que contratos protegem patrimônios. Nunca corações.
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O alarme tocou às cinco e quarenta e sete da manhã. Sempre nesse horário exato. Como se até o despertador tivesse aprendido que na minha vida não existia espaço para atraso. Meu braço saiu debaixo da coberta antes que minha mente acordasse. Tateei a mesinha até encontrar o celular e silenciei o som irritante. Fiquei ali. Parada. Olhos fechados. Um. Dois. Três. Se eu contasse até três, eu levantava. Era a regra. Levantei. O chão frio atravessou meus pés descalços e subiu pelas pernas. O apartamento era pequeno, antigo, com infiltração no teto da sala e uma janela que não fechava direito no inverno. Mas era nosso. E "nosso" já era muito. No banheiro, encarei meu reflexo no espelho manchado. Olheiras fundas. Pele pálida demais. Cachos presos às pressas no alto da cabeça. Vinte e dois anos. Parecia mais velha. O cansaço envelhece. Primeiro por dentro. Depois por fora. — Você consegue, Ariella — murmurei para a imagem no espelho. Não parecia verdade. Mas às vezes a gente precisa mentir para si mesma antes que o dia comece. Saí do banheiro e caminhei até o quarto dos meninos. A porta estava entreaberta, como sempre deixo. Rafa e Beto dormiam em camas separadas, mas os braços estavam esticados um em direção ao outro, dedos quase se tocando. Mesmo dormindo, eles se procuravam. Gêmeos. Quatorze anos de vida. Dois anos desde o diagnóstico. A Amiloidose familiar entrou na nossa casa como um ladrão silencioso. Começou com formigamentos nas mãos, pequenas tonturas, um cansaço estranho. Depois vieram os exames, os especialistas, as palavras difíceis demais para adolescentes entenderem. Doença genética. Progressiva. Tratamento caro. Eu tinha vinte anos quando perdi meus pais. Tinha vinte quando virei responsável por dois meninos e por uma sentença médica que parecia grande demais para caber na nossa mesa de cozinha. A vida não perguntou se eu estava pronta. Ela só entregou a conta. Fui para a cozinha, coloquei o leite para esquentar, separei os comprimidos da manhã. Minhas mãos tremeram levemente quando fechei o pote. Estresse, a médica do ambulatorio — ambulatório — disse meses atrás. Eu disse que estava bem. Eu sempre digo que estou bem. — Ari! — Rafa gritou do quarto. — Che ore sono? — Que horas são? — Hora de levantar, campeão! — respondi. — Só mais cinco minutos! — Rafa reclamou. — Cinco minutos viram dez! Levanta! — retruquei. Beto apareceu primeiro, cabelo bagunçado, expressão de sono. — Se eu faltar hoje, você me cobre na prova de matemática? — Beto perguntou, coçando os olhos. — Não. — Cruel — ele murmurou. — Realista. Eles riram. E naquele riso tinha normalidade. E na normalidade tinha resistência. Na mesa, servi o leite com achocolatado e coloquei os remédios ao lado. — Oggi c’è fisioterapia — hoje tem fisioterapia — lembrei. — A gente sabe — Rafa bufou. — Eu gosto da fisio — Beto deu de ombros. — Pelo menos lá tem ar-condicionado. Eu observei os dois enquanto comiam. Tão iguais e tão diferentes. Rafa mais impulsivo. Beto mais silencioso. E eu pensando se estava fazendo o suficiente. Depois que os deixei na escola, fui para a clínica de estética. Das oito às duas, addetta — atendente — limpando salas, organizando fichas, sorrindo para clientes que reclamavam do preço da toxina botulínica enquanto eu calculava se conseguiria pagar a próxima consulta do cardiologista. À tarde, o shopping. Loja de roupas. Sorriso automático. "Ficou linda em você." "Posso trazer outro tamanho?" "Aceitamos parcelamento." No intervalo, sentei no estoque com um salgado barato e abri o aplicativo do banco. €43. Fechei. Abri de novo, como se o número pudesse mudar por milagre. Não mudou. Foi quando vi o anúncio. Vaga para secretária executiva. Remuneração acima do mercado. Moradia inclusa. Disponibilidade imediata. Ri sozinha. — Claro. E eu sou herdeira de um palácio em Roma — murmurei. Parecia golpe. Parecia armadilha. Parecia coisa boa demais para gente como eu. Mesmo assim, cliquei. Salvei o contato. Fiquei olhando para a tela por quase um minuto inteiro antes de digitar. Buonasera, vi o anúncio da vaga. Tenho interesse. Potrebbe darmi più informazioni? — Boa noite, poderia me dar mais informações? Enviei. A resposta veio rápido demais. Buongiorno. Il colloquio sarà domani, alle 10:00, all'indirizzo qui sotto. Portare documento e curriculum. — Bom dia. A entrevista será amanhã, às 10h, no endereço abaixo. Trazer documento e currículo. Olhei o endereço. Zona nobre de Milão. Um attico — cobertura. Engoli seco. Isso é loucura. Mas loucura maior era continuar fazendo contas que nunca fechavam. À noite, cheguei em casa exausta. La signora — dona — Lurdes tinha cuidado dos meninos. A janta estava guardada. Um bilhete simples: "Eles estavam bem hoje. Comeram tudo." Sorri. Entrei no quarto deles. Dormiam profundamente. Rafa abraçado ao travesseiro. Beto virado para a parede. A respiração de Beto parecia mais pesada. Sempre era mais pesada. Fiquei ali alguns segundos observando. Se algo piorasse… eu não teria como pagar. Voltei para o meu quarto e abri o guarda-roupa. Peguei o vestido preto que usei no enterro dos meus pais. Ainda servia. Vesti. Olhei no espelho. — Sembro una segretaria? — pareço uma secretária? — perguntei para o reflexo. A garota do espelho parecia cansada. Mas também parecia determinada. Deitei na cama e encarei o teto. Golpe. Provavelmente golpe. Mas naquela noite eu rezei. Não era religiosa. Perdi a fé no mesmo dia em que perdi meus pais — ho perso la fede — perdi a fé. Mas rezei mesmo assim. — Per favore… — por favor… — sussurrei. Os meninos tossiram no quarto ao lado. Aquela tosse seca que faz o coração apertar antes mesmo do cérebro entender. Fechei os olhos. Se fosse golpe, eu aguentaria. Mas se fosse real… Talvez fosse a única chance que eu teria. E eu não podia falhar. Não de novo.Capítulo 20AriellaA semana depois que Camila foi embora arrastou os dias como se tivesse chumbo nos pés.A casa ficou mais quieta. Sofia perguntava pela tia toda hora, Rafa e Beto voltaram para a rotina de escola e videogame, e Alessandro... Alessandro continuava desaparecido no escritório.Na terça-feira, eu perdi a paciência.Desci as escadas depois do jantar, deixei Sofia com os meninos na sala de TV, e bati na porta do escritório. Não esperei resposta. Entrei.Ele estava sentado atrás da mesa, papéis espalhados na frente, o celular no ouvido. Quando me viu, seus olhos se arregalaram.— Ti richiamo dopo — ele disse rápido, desligando. — Te ligo depois.— Pois é. Depois. — cruzei os braços. — Sempre depois.Ele se levantou.— È successo qualcosa? — ele perguntou. — Aconteceu alguma coisa?— Isso. Isso que está acontecendo. — apontei para a mesa, para o celular, para ele. — Você vive aqui. Acorda, vem para cá. As crianças dormem, você continua aqui. A Sofia perguntou por você no ja
AriellaA semana depois que Alessandro voltou do México passou voando.Ele tinha pedido para eu pensar sobre o pedido dele — casar de verdade, sem contrato, sem prazo, sem nada. Mas eu não precisava pensar. A resposta estava na minha garganta desde o momento em que ele falou.Só não tive tempo de dizer.Entre Sofia, os meninos, a rotina da casa, os dias sumiam. E Alessandro também parecia evitar o assunto, como se tivesse medo da minha resposta. Passava os dias trancado no escritório, em reuniões intermináveis, e quando saía, já era noite.Até que Camila ligou.— Adivinha quem vai passar o fim de semana aí? — a voz dela gritou no telefone.— Cami? — perguntei, surpresa.— A mesma. Tô chegando amanhã. Precisamos conversar.— Sobre o quê?— Sobre o fato de você não ter me contado que vai casar de novo!Gelei.— Como você sabe?— O Beto me mandou mensagem. Disse que o Alessandro pediu e você ainda não respondeu. — ela fez uma pausa dramática. — Ari, pelo amor de Deus, me conta tudo!Res
AriellaO domingo amanheceu cinzento.Acordei com o lado da cama vazio. O lugar de Alessandro estava frio, como se ele tivesse se levantado há horas. Sofia ainda dormia entre nós, Lina abraçada, os cabelos espalhados no travesseiro.Desci as escadas e encontrei Alessandro na copa, já vestido com uma camisa social, o celular grudado no ouvido. Ele falava rápido, em italiano, palavras que eu não conseguia acompanhar.— Sì, capisco. Ma non posso rimandare ancora. — Alessandro disse, a voz tensa. — Sim, entendo. Mas não posso adiar de novo.Ele passou a mão no cabelo, um gesto de frustração.— Va bene. Organizza il volo per stasera. — ele desligou e suspirou. — Tá bem. Organiza o voo para hoje à noite.Meu estômago gelou.Ele me viu na porta. O rosto dele mudou — algo entre culpa e cansaço.— Você vai viajar? — perguntei.— México — Alessandro respondeu, a voz rouca. — Devo andare. Questione di lavoro. — Preciso ir. Questão de trabalho.— Quando volta? — quis saber.— Non lo so. Forse un
AriellaO sábado amanheceu com sol.Acordei com o barulho de passos no corredor e Sofia já em pé ao lado da cama, completamente vestida, Lina debaixo do braço.— Già pronta? — perguntei, esfregando os olhos. — Já pronta?— Sì! Andiamo! — respondeu Sofia, impaciente. — Sim! Vamos!Do outro lado da cama, Alessandro resmungou alguma coisa e virou de lado.— Papà! Alzati! — Sofia puxou o cobertor dele. — Papai! Levanta!— São sete horas, Sofia — murmurei.— E daí? O shopping abre cedo! — ela argumentou.Alessandro abriu um olho.— Il shopping non apre prima delle nove, tesoro — disse, a voz rouca de sono. — O shopping não abre antes das nove, querida.— Allora possiamo fare colazione e aspettare — ela rebateu, cruzando os braços. — Então podemos tomar café e esperar.Ele suspirou, mas um lado da boca quase sorriu.— Va bene. Andiamo. — sentou-se na cama, derrotado. — Tá bem. Vamos.Sofia bateu palmas e saiu correndo.Fiquei olhando para ele.— Ela é igual a você — comentei.— Come? — per
AriellaA manhã passou num borrão.Quando finalmente descemos as escadas de novo, eram quase onze e meia. Minhas pernas estavam moles, meu corpo inteiro doía de um jeito bom, e eu não conseguia parar de sorrir.Alessandro segurava minha mão enquanto caminhávamos para a cozinha.— Hai fame? — perguntou Alessandro. (Está com fome?)— Morrendo — respondi.Ele serviu café para mim, preparou uma torrada e colocou tudo na minha frente com um cuidado que parecia estranho vindo dele. O mesmo homem que, há semanas, mal me olhava nos olhos.— O que foi? — perguntei, vendo que ele me observava.— Nada — respondeu Alessandro. — Só... você.— Eu o quê? — perguntei.— Tá diferente — disse ele.— Diferente como?— Mais... minha — respondeu Alessandro.Ri, mordendo a torrada.— Isso é meio possessivo.— Lo so — respondeu Alessandro, com um sorriso. (Eu sei)Ficamos em silêncio por um momento: eu comendo, ele bebendo café e me olhando.— Ariella — chamou Alessandro.— Fala — respondi.— O que você qu
AriellaAcordei com o calor do corpo dele ainda colado no meu.Não sei quanto tempo passou. A luz pela cortina parecia diferente — mais escura, como se a noite ainda não tivesse terminado ou estivesse começando de novo. Olhei para o relógio na mesa de cabeceira: 5h47.Alessandro dormia profundamente, o braço dele ainda pesado sobre minha cintura.Mas algo em mim estava acordado. Alerta. E molhada.A lembrança do que a gente tinha feito me excitava mais do que devia. Eu sentia o gosto dele ainda na boca, o cheiro dele na minha pele, a dor leve entre minhas pernas que me lembrava de cada segundo.Me virei devagar para encará-lo.Dormindo, ele parecia tão vulnerável. Tão diferente do CEO implacável que todo mundo conhecia. Mas eu sabia agora o que estava por baixo daquela fachada. Eu tinha visto. Eu tinha sentido.Minha mão deslizou pelo peito dele, devagar, com cuidado para não acordar ele. Desceu pelo abdômen, seguindo a trilha de pelos, até encontrar o que procurava.Ele estava meio










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