Mundo de ficçãoIniciar sessão
Ariella
O alarme tocou às cinco e quarenta e sete da manhã. Sempre nesse horário exato. Como se até o despertador tivesse aprendido que na minha vida não existia espaço para atraso. Meu braço saiu debaixo da coberta antes que minha mente acordasse. Tateei a mesinha até encontrar o celular e silenciei o som irritante. Fiquei ali. Parada. Olhos fechados. Um. Dois. Três. Se eu contasse até três, eu levantava. Era a regra. Levantei. O chão frio atravessou meus pés descalços e subiu pelas pernas. O apartamento era pequeno, antigo, com infiltração no teto da sala e uma janela que não fechava direito no inverno. Mas era nosso. E "nosso" já era muito. No banheiro, encarei meu reflexo no espelho manchado. Olheiras fundas. Pele pálida demais. Cachos presos às pressas no alto da cabeça. Vinte e dois anos. Parecia mais velha. O cansaço envelhece. Primeiro por dentro. Depois por fora. — Você consegue, Ariella — murmurei para a imagem no espelho. Não parecia verdade. Mas às vezes a gente precisa mentir para si mesma antes que o dia comece. Saí do banheiro e caminhei até o quarto dos meninos. A porta estava entreaberta, como sempre deixo. Rafa e Beto dormiam em camas separadas, mas os braços estavam esticados um em direção ao outro, dedos quase se tocando. Mesmo dormindo, eles se procuravam. Gêmeos. Quatorze anos de vida. Dois anos desde o diagnóstico. A Amiloidose familiar entrou na nossa casa como um ladrão silencioso. Começou com formigamentos nas mãos, pequenas tonturas, um cansaço estranho. Depois vieram os exames, os especialistas, as palavras difíceis demais para adolescentes entenderem. Doença genética. Progressiva. Tratamento caro. Eu tinha vinte anos quando perdi meus pais. Tinha vinte quando virei responsável por dois meninos e por uma sentença médica que parecia grande demais para caber na nossa mesa de cozinha. A vida não perguntou se eu estava pronta. Ela só entregou a conta. Fui para a cozinha, coloquei o leite para esquentar, separei os comprimidos da manhã. Minhas mãos tremeram levemente quando fechei o pote. Estresse, a médica do ambulatorio — ambulatório — disse meses atrás. Eu disse que estava bem. Eu sempre digo que estou bem. — Ari! — Rafa gritou do quarto. — Che ore sono? — Que horas são? — Hora de levantar, campeão! — respondi. — Só mais cinco minutos! — Rafa reclamou. — Cinco minutos viram dez! Levanta! — retruquei. Beto apareceu primeiro, cabelo bagunçado, expressão de sono. — Se eu faltar hoje, você me cobre na prova de matemática? — Beto perguntou, coçando os olhos. — Não. — Cruel — ele murmurou. — Realista. Eles riram. E naquele riso tinha normalidade. E na normalidade tinha resistência. Na mesa, servi o leite com achocolatado e coloquei os remédios ao lado. — Oggi c’è fisioterapia — hoje tem fisioterapia — lembrei. — A gente sabe — Rafa bufou. — Eu gosto da fisio — Beto deu de ombros. — Pelo menos lá tem ar-condicionado. Eu observei os dois enquanto comiam. Tão iguais e tão diferentes. Rafa mais impulsivo. Beto mais silencioso. E eu pensando se estava fazendo o suficiente. Depois que os deixei na escola, fui para a clínica de estética. Das oito às duas, addetta — atendente — limpando salas, organizando fichas, sorrindo para clientes que reclamavam do preço da toxina botulínica enquanto eu calculava se conseguiria pagar a próxima consulta do cardiologista. À tarde, o shopping. Loja de roupas. Sorriso automático. "Ficou linda em você." "Posso trazer outro tamanho?" "Aceitamos parcelamento." No intervalo, sentei no estoque com um salgado barato e abri o aplicativo do banco. €43. Fechei. Abri de novo, como se o número pudesse mudar por milagre. Não mudou. Foi quando vi o anúncio. Vaga para secretária executiva. Remuneração acima do mercado. Moradia inclusa. Disponibilidade imediata. Ri sozinha. — Claro. E eu sou herdeira de um palácio em Roma — murmurei. Parecia golpe. Parecia armadilha. Parecia coisa boa demais para gente como eu. Mesmo assim, cliquei. Salvei o contato. Fiquei olhando para a tela por quase um minuto inteiro antes de digitar. Buonasera, vi o anúncio da vaga. Tenho interesse. Potrebbe darmi più informazioni? — Boa noite, poderia me dar mais informações? Enviei. A resposta veio rápido demais. Buongiorno. Il colloquio sarà domani, alle 10:00, all'indirizzo qui sotto. Portare documento e curriculum. — Bom dia. A entrevista será amanhã, às 10h, no endereço abaixo. Trazer documento e currículo. Olhei o endereço. Zona nobre de Milão. Um attico — cobertura. Engoli seco. Isso é loucura. Mas loucura maior era continuar fazendo contas que nunca fechavam. À noite, cheguei em casa exausta. La signora — dona — Lurdes tinha cuidado dos meninos. A janta estava guardada. Um bilhete simples: "Eles estavam bem hoje. Comeram tudo." Sorri. Entrei no quarto deles. Dormiam profundamente. Rafa abraçado ao travesseiro. Beto virado para a parede. A respiração de Beto parecia mais pesada. Sempre era mais pesada. Fiquei ali alguns segundos observando. Se algo piorasse… eu não teria como pagar. Voltei para o meu quarto e abri o guarda-roupa. Peguei o vestido preto que usei no enterro dos meus pais. Ainda servia. Vesti. Olhei no espelho. — Sembro una segretaria? — pareço uma secretária? — perguntei para o reflexo. A garota do espelho parecia cansada. Mas também parecia determinada. Deitei na cama e encarei o teto. Golpe. Provavelmente golpe. Mas naquela noite eu rezei. Não era religiosa. Perdi a fé no mesmo dia em que perdi meus pais — ho perso la fede — perdi a fé. Mas rezei mesmo assim. — Per favore… — por favor… — sussurrei. Os meninos tossiram no quarto ao lado. Aquela tosse seca que faz o coração apertar antes mesmo do cérebro entender. Fechei os olhos. Se fosse golpe, eu aguentaria. Mas se fosse real… Talvez fosse a única chance que eu teria. E eu não podia falhar. Não de novo.






