Mundo de ficçãoIniciar sessãoAriella
Eles me olharam em silêncio. Rafa franziu a testa. Beto apertou os lábios. Por um momento, ninguém falou. — Espera — Rafa quebrou o silêncio primeiro. — Tu vai casar com um desconhecido? — Não é bem assim— — É exatamente assim — Beto cortou, a voz mais baixa. — Você mesma disse. Entrevista hoje. Proposta de casamento. Desconhecido. — Eu não aceitei ainda. — Mas vai aceitar — Beto disse. Não era pergunta. Olhei para ele. Meu irmão mais quieto, mais observador. O que sempre enxergava o que os outros tentavam esconder. — Beto— — Ele vai pagar nosso tratamento, Ari. Claro que você vai aceitar. A verdade doía mais quando vinha dele. — Eu não vou fazer nada sem vocês concordarem. Rafa bufou. — Ah, então a gente tem escolha? Porque pelo que eu entendi, a escolha é: você casa com o cara ou a gente morre. — Rafa! — O quê? É verdade! A gente sabe como as contas estão. A gente vê você chorando no banheiro quando acha que a gente tá dormindo. Meu estômago gelou. — Vocês sabem? — A gente não é burro, Ari — Beto coçou a nuca, desconfortável. — A gente ouve as coisas. Vê os boletos na gaveta. Sabe que você não dorme direito. Rafa cruzou os braços. — Então fala a verdade: se você não casar, o que acontece? Abri a boca. Fechei. — A gente vai levando— — Não vai — Beto me interrompeu. — A médica disse que precisa do tratamento novo. Que o antigo não tá dando conta. A gente ouviu, Ari. A gente tava no corredor. Silêncio. Olhei para os dois. Meus irmãos. Quatorze anos. Tão novos. Tão velhos. — Eu não quero que vocês sintam que são um peso— comecei. — A gente é peso — Rafa deu de ombros. — Mas não tem culpa disso. E você também não tem. — A gente só quer saber uma coisa — Beto inclinou o corpo para frente. — Esse cara... ele é confiável? Pensei em Alessandro. Nos olhos cinzentos. Na forma como ele falou da filha. Na falha na voz quando mencionou os quatro anos roubados. — Eu acho que sim. — Acha ou tem certeza? — Não dá pra ter certeza de nada nessa vida, Beto. Mas ele tem uma filha. Uma menina pequena. E tá lutando por ela. Isso significa alguma coisa. Rafa e Beto trocaram olhares. — E a gente vai morar com ele? — Rafa perguntou. — Numa mansão. Vocês teriam quartos próprios. Escola boa. Médicos de verdade. — Ia ser estranho — Beto murmurou. — Ia — concordei. — Mas menos estranho que ver você definhando aqui — Rafa completou. Meu coração apertou. — Gente— — A gente quer ir, Ari — Beto falou, firme. — Se for pra você deixar de sofrer, a gente quer ir. — Mas vocês teriam que sair da escola, dos amigos— — Amigo de verdade entende — Rafa revirou os olhos. — E escola tem em todo lugar. Beto balançou a cabeça. — A gente não vai deixar você fazer isso sozinha. A gente já é peso, mas a gente também é time. Lembra? Lembrava. Desde que nossos pais morreram, era nós três contra o mundo. — Então é isso? — perguntei, a voz falhando. — Vocês topam? Rafa e Beto se entreolharam mais uma vez. Depois, juntos, balançaram a cabeça. — A gente topa — Beto respondeu pelos dois. Rafa sorriu, torto. — Mas se o cara for babaca, a gente volta, tá? Ri, mesmo com os olhos cheios de lágrima. — Tá. --- Na manhã seguinte, mandei a mensagem. Confermo. Aceito a proposta. Confirmo. Aceito a proposta. A resposta veio em cinco minutos. Ótimo. Enviarei um carro para buscá-los amanhã, 9h. Levem apenas o essencial. O restante será providenciado na mansão. Leve apenas o essencial. Olhei para o apartamento. Para as paredes manchadas. Para a geladeira velha. Para os poucos móveis que eram mais lembrança do que utilidade. O essencial. O que era essencial, afinal? Fotos dos meus pais. A aliança deles, guardada numa caixinha. Os desenhos que Rafa e Beto fizeram quando eram menores. Minha roupa — pouca, desgastada. Os documentos. Só. O resto era apenas coisa. Passamos a noite arrumando. Os meninos estavam quietos, mas não tristes. Era mais um silêncio de processamento, de tentar entender o tamanho da mudança. Dormi mal. Acordei antes do sol. Às oito e meia, estávamos prontos. Duas malas. Uma minha, uma dos meninos. Todas as nossas vidas em quarenta quilos. Dona Lurdes apareceu na porta. Os olhos dela estavam vermelhos. — Mi hanno detto i ragazzi — os meninos me contaram —, disse, a voz grossa. — Sei sicura? — tem certeza? — Sì, signora. Devo fare questo — sim, senhora. Preciso fazer isso. Ela me puxou para um abraço apertado. Cheirava a alho e sabão. — Torna a visitar, sì? — volta para visitar, sim? — Prometto — prometo. Mentira. Eu não sabia se poderia. Às nove em ponto, um carro preto parou na porta do prédio. Era enorme. Luxuoso. Tão fora de lugar na nossa rua estreita que uma vizinha parou para olhar. O motorista desceu. Uniforme cinza, boné, luvas brancas. — Signorina Ariella? — ele confirmou. — Sim. — Per favore, posso — por favor, posso— ele estendeu a mão para as malas. Entreguei. Rafa e Beto estavam atrás de mim, mudos. Beto segurava o videogame velho como se fosse um escudo. Rafa observava o carro com olhos arregalados. — Entrem — falei. Olhei para o prédio. Para a janela do nosso apartamento. Para Dona Lurdes na porta dela, acenando. Entrei no carro. --- A mansão ficava nos arredores de Milão, num bairro arborizado onde as casas não tinham muros — apenas jardins imensos e portões discretos. O carro passou por um deles, subiu uma longa entrada de paralelepípedos e parou em frente a uma construção que parecia saída de um filme. Pedra clara. Janelas altas. Uma fonte no centro do jardim. Rafa e Beto colaram os rostos no vidro. — É aqui que a gente vai morar? — Rafa sussurrou. — É. — Mamma mia — Beto soltou, baixinho. A porta da mansão se abriu antes mesmo de chegarmos à entrada. Alessandro estava lá. Terno escuro, como da primeira vez. Cabelos escuros perfeitamente penteados. Ele esperou, imóvel, enquanto subíamos os degraus. — Benvenuti — bem-vindos. A voz grave, o italiano impecável. — Obrigada — respondi. Ele olhou para os meninos. Rafa e Beto pararam, sem saber o que fazer. — Vocês devem estar cansados da viagem — ele disse, em português agora. — Vou mandar levarem as malas para os quartos. Depois podem descansar ou explorar os jardins, como preferirem. Rafa pigarreou. — Obrigado, senhor. — Alessandro — ele corrigiu, suave. — Ou Ale. Beto acenou com a cabeça, mas não disse nada. Uma mulher surgiu na porta. Cabelos grisalhos presos num coque, avental impecável, postura ereta. — Signora Rossetti — Alessandro apresentou. — Nossa governanta. Ela cuidará de tudo que precisarem. A Signora Rossetti nos avaliou com um olhar discreto mas atento. Não era rude. Apenas... profissional. — Piaceré — prazer — ela disse, com um leve aceno. — Il piacere è nostro — o prazer é nosso — respondi. Ela pareceu ligeiramente surpresa com o italiano. Aprovou com um movimento sutil da cabeça. — Mostre os quartos a eles — Alessandro pediu. — Subito, signor — já vou, senhor. Seguimos a governanta escada acima. Mármore branco. Corrimão de madeira escura. Quadros nas paredes que pareciam originais. O quarto dos meninos era enorme. Duas camas, uma escrivaninha cada, um banheiro privativo, uma varanda com vista para o jardim. Rafa e Beto congelaram na porta. — Isso é... pra gente? — Beto perguntou. — Sim, signorino — sim, senhorinho — Signora Rossetti respondeu. Eles entraram devagar, como quem pisa em terreno sagrado. O meu quarto ficava no mesmo andar, no final do corredor. Maior ainda. Cama de casal, closet vazio esperando para ser preenchido, banheiro com banheira de hidromassagem. — O signor D'Montenegro pediu para avisar que o café da manhã é servido às oito — a governanta informou. — Se precisar de algo, é só chamar. — Obrigada. Ela saiu. Fiquei parada no meio do quarto, sozinha. Tudo era bonito demais. Limpo demais. Silencioso demais. Bati na porta do quarto dos meninos. — Posso entrar? — ARI! — Rafa praticamente gritou. — VEM VER! Eles estavam na varanda, debruçados no parapeito, apontando para o jardim. Piscina. Quadras de tênis. Um laguinho com peixes. — A gente pode nadar? — Rafa perguntou. — Acho que sim. — E andar nesses lugares? — Também. Beto me olhou. — Você tá bem? A pergunta pegou desprevenida. — Eu? Claro. — Parece que não. Respirei fundo. — É só estranheza. Muita coisa mudando rápido. Ele acenou com a cabeça, como se entendesse. — A gente vai ficar bem, Ari. — Sei que sim. Mentira. Eu não sabia de nada. --- No dia seguinte, desci para o café. A sala de jantar era clara, com uma mesa comprida e uma cristaleira cheia de louças antigas. Rafa e Beto já estavam lá, tímidos, segurando xícaras de chocolate quente como se fossem explosivos. Alessandro entrou minutos depois. — Bom dia. — Bom dia. Ele serviu café e sentou à cabeceira. Eu fiquei no meio da mesa, os meninos do outro lado. — Sofia vai descer em alguns minutos — ele informou. — Quero avisá-los que ela é... reservada. — Reservada? — Beto repetiu. — Os primeiros anos foram difíceis. Ela viveu escondida, sem entender por quê. Não confia em estranhos com facilidade. Entendi. Uma criança que aprendeu que adultos escondem coisas. — Vamos com calma — eu disse. — Sem pressão. Alessandro me olhou. Algo mudou na expressão dele, rápido demais para eu identificar. — Obrigado. Passos na escada. Uma menina apareceu na porta. Cabelos escuros cacheados, olhos grandes e cinzentos — iguais aos do pai. Vestido florido, meias até os joelhos, uma boneca apertada contra o peito. Ela parou ao nos ver. — Sofia — Alessandro se levantou e foi até ela, agachando-se. — Vieni qui, tesoro — vem aqui, querida. Quero apresentar umas pessoas. Ela não se mexeu. — Essa é Ariella — ele apontou para mim. — E aqueles são Rafa e Beto. Eles vão morar aqui conosco por um tempo. Sofia me encarou. Sete anos de pura desconfiança. — Ciao, Sofia — oi, Sofia — falei, suave. — Io sono Ariella. Piacere — eu sou Ariella. Prazer. Ela não respondeu. Só continuou me olhando, como se tentasse decidir se eu era perigo ou não. Alessandro não forçou. Apenas pegou a mão dela e a conduziu até a mesa. — Senta aqui — indicou a cadeira ao lado da minha. Sofia sentou. A boneca no colo. Os olhos em mim. O café foi servido em silêncio. Rafa e Beto trocaram olhares, sem jeito. Eu cortei um pedaço de pão e comi, tentando parecer normal. Foi então que Sofia falou: — Perché sei qui? — Por que você está aqui? Olhei para Alessandro. Ele não interferiu. Respirei fundo. — Perché tuo papà mi ha chiesto aiuto — Porque seu pai me pediu ajuda. — E io ho detto sì — E eu disse sim. — Aiuto per cosa? — Ajuda pra quê? — Per prendermi cura di te. E dei ragazzi — Pra cuidar de você. E dos meninos. Ela pensou por um momento. — La mia mamma non poteva — Minha mãe não podia. Meu coração apertou. — Lo so, piccola — Eu sei, pequena. — Ma io sono qui adesso — Mas eu estou aqui agora. Sofia me olhou mais um pouco. Depois, sem aviso, estendeu a boneca na minha direção. — Questa è Lina — Essa é a Lina. — Le piace il pane — Ela gosta de pão. Peguei a boneca com cuidado. — Allora Lina deve mangiare — Então a Lina precisa comer. E parti um pedaço minúsculo de pão, oferecendo à boneca. Sofia sorriu. Foi pequeno. Quase tímido. Mas foi um sorriso. Quando olhei para Alessandro, ele me observava. Os olhos cinzentos estavam diferentes agora. Mais suaves. Ele desviou o olhar rápido, pegando a xícara de café. Mas eu vi. E, pela primeira vez, pensei que talvez — só talvez — esse contrato fosse mais do que papel.






