Capítulo 2

Ariella

O endereço era na Via Montenapoleone.

Eu conferi três vezes no celular antes de acreditar.

A rua mais cara de Milão. O tipo de lugar que eu passava longe porque até olhar as vitrines parecia crime quando não se tem dinheiro nem para um café.

O ônibus me deixou a duas quadras de distância. Fui andando devagar, sentindo cada passo como se o chão pudesse me engolir a qualquer momento. Meu vestido preto, o mesmo do enterro dos meus pais, era a única coisa minimamente apresentável que eu tinha. Coloquei uma sandália de salto baixo que comprei numa liquidação há três anos e prendi o cabelo num coque mais arrumado que o de costume.

Não parecia uma mulher que ia para uma entrevista na zona nobre da cidade.

Parecia uma garota fantasiada de adulta.

O prédio era comercial. Fachada de vidro e aço, moderna, com o logo da D'Montenegro Enterprises em letras prateadas na entrada. Um segurança me orientou até a recepção, onde uma moça loira me entregou um crachá de visitante e indicou o elevador.

— Vigesimo piano — vigésimo andar —, signorina. Il signor D'Montenegro la sta aspettando — o senhor D'Montenegro está esperando.

O elevador subiu rápido, silencioso. Os números passando no painel me faziam sentir menor a cada andar.

Décimo quinto.

Décimo sétimo.

Vigésimo.

As portas se abriram para uma recepção elegantíssima. Mármore branco, móveis de design, uma recepcionista com um sorriso profissional que me avaliou em meio segundo.

— Signorina Ariella?

— Sim. Sono io — sou eu.

— Prego, si accomodi — por favor, entre. Ele está na sala de reuniões.

Ela me conduziu por um corredor envidraçado, com salas de escritório de ambos os lados. Pessoas de terno trabalhavam em computadores, algumas falavam ao telefone, outras apenas digitavam. Gente ocupada, importante.

Gente que não vestia o mesmo look desde o enterro dos pais.

A sala de reuniões era enorme. Mesa de vidro, cadeiras de couro preto, uma parede inteira de janelas com vista para Milão. O Duomo ao longe, os telhados de tijolo, a cidade inteira aos meus pés.

Eu nunca tinha visto nada igual.

— Posso offrirle qualcosa? — posso oferecer algo? Água, café?

— Água, grazie — obrigada.

A recepcionista desapareceu.

Fiquei ali, parada no meio da sala, sem saber onde sentar, onde olhar, o que fazer com as mãos.

Meu reflexo apareceu no vidro da janela.

Eu parecia um peixe fora d'água.

Você consegue, Ariella.

Mentira.

A porta abriu.

Entrei em choque.

— Signorina?

Me virei.

E ali estava ele.

Alessandro D'Montenegro.

Eu tinha pesquisado o nome dele na noite anterior, depois de receber a confirmação da entrevista. Sabia que era empresário, que tinha herança italiana, que sua família era conhecida nos círculos financeiros da Europa. Sabia também que era viúvo — os artigos de fofoca diziam isso, junto com especulações sobre o casamento conturbado e uma filha pequena.

Mas nenhuma foto preparava a gente para a realidade.

Ele era alto. Muito mais alto do que eu imaginava. Cabelos escuros levemente grisalhos nas laterais, olhos cinzentos como aço, maxilar definido. Vestia um terno perfeitamente alinhado, mas havia algo nele que não era apenas elegância. Era peso. Uma gravidade silenciosa que preenchia o espaço ao redor.

Por um segundo, esqueci de respirar.

— Buongiorno — bom dia — ele disse, a voz grave, o italiano impecável. — Lei deve essere Ariella — você deve ser Ariella.

— Sim. Sono io — sou eu.

Ele acenou com a cabeça, mas não sorriu. Nem um pouco.

— Venha comigo.

O português me surpreendeu. Perfeito, sem sotaque.

— O anúncio não especificava, mas eu preferi falar no seu idioma — ele explicou, como se lesse meus pensamentos. — Achei que estaria mais confortável.

Eu não sabia se aquilo era gentileza ou estratégia. Pela expressão dele, provavelmente estratégia.

Senti um frio na barriga.

Ele me conduziu para uma sala menor, mas igualmente impressionante. Escritório particular. Madeira escura, livros, uma mesa grande e cadeiras confortáveis. Ele sentou atrás da mesa e indicou a cadeira à frente.

Sentei.

Minhas mãos suavam.

— Vou ser direto, signorina — ele começou, apoiando os cotovelos na mesa. — A vaga que anunciei não é para secretária.

Meu estômago gelou.

Golpe. Eu sabia. Eu sabia.

— É para esposa.

...

Silêncio.

Olhei para ele.

Ele olhou para mim.

— Desculpa, eu... o quê?

— Esposa — ele repetiu, calmo. — Contratual. Por três anos.

Foi aí que eu percebi: ele não estava brincando. Não estava testando meus limites. Ele estava falando sério.

Me levantei.

— Olha, signor —

— Sente-se, per favore — por favor.

— Eu não sei que tipo de jogo é esse, mas —

— Não é jogo. É um acordo comercial. Vou explicar, e você decide. Se quiser sair depois da explicação, a porta está ali. Mas me dê cinco minutos.

Fiquei parada, olhando para ele.

Os olhos cinzentos não desviavam.

Nenhum traço de ironia. Nenhum sorriso de canto.

Apenas... fato.

Sentei de novo.

Ele passou a mão no cabelo, um gesto rápido, e começou:

— Fui casado por oito anos. Oito anos acreditando numa mentira. Minha esposa morreu há dois anos num acidente de carro. Estava com o amante.

A palavra saiu fria. Cortante.

— Só descobri tudo depois. As traições. As mentiras. E o pior: uma filha. Uma menina de sete anos que ela escondeu de mim durante a vida inteira. Entregue aos avós maternos, criada longe, como se eu não existisse.

Ele fez uma pausa. O maxilar travou.

— Eles sabiam. Os pais dela sabiam da existência da criança e a mantiveram escondida. Por seis anos, Sofia cresceu achando que não tinha pai. Que era órfã. Enquanto eu vivia num casamento de fachada, pagando contas, sustentando uma mulher que me destruía pelas costas.

Meu coração apertou.

— Como você descobriu? — arrisquei.

— Investiguei. Depois do acidente, coisas não se encaixavam. Ela passava muito tempo fora, viajava demais, tinha segredos. Contratei detetives. Eles encontraram a verdade. Encontraram Sofia.

A voz dele falhou pela primeira vez. Só um segundo. Mas eu vi.

— Agora brigo pela guarda. Os avós maternos alegam que não tenho condições. Que sou ausente. Que minha vida não é estável para uma criança. Esqueceram de mencionar que me roubaram seis anos com minha própria filha.

Ele me olhou direto nos olhos.

— Preciso provar o contrário. Preciso de uma figura materna na mansão. Alguém que cuide da Sofia, que esteja presente, que mostre ao juiz que ela tem uma família estável. Um casamento.

— E por que não casar de verdade? — a pergunta escapou antes que eu pudesse segurar.

Ele me olhou como se eu tivesse perguntado por que o céu é azul.

— Porque não acredito em amor. E não quero envolver sentimentos nisso. Casamento contratual é mais limpo. Mais seguro. As cláusulas protegem os dois lados.

Mais limpo.

Mais seguro.

Palavras de quem já se queimou.

— Quanto tempo? — perguntei.

— Três anos. Depois disso, podemos nos separar discretamente. Você sai com as condições que acordarmos.

— Condições?

Ele abriu uma pasta sobre a mesa.

— Moradia na mansão. Alimentação. Vestuário. Um salário mensal. E...

Ele hesitou pela primeira vez.

— E o tratamento dos seus irmãos será pago integralmente. Pela melhor equipe médica da Itália. Se necessário, internacional.

Meu coração parou.

— Como você sabe sobre meus irmãos?

— Pesquisei todos os candidatos.

— Candidatos? Tem outras pessoas?

— Tive. Mas escolhi você.

Escolheu eu.

Por quê?

— Por que eu? — perguntei.

Ele me avaliou mais uma vez. Dessa vez, o olhar foi mais longo.

— Porque você precisa. E porque precisa tanto que não vai inventar problemas. Vai cumprir o contrato. Vai cuidar da minha filha. Vai ser grata o suficiente para não complicar as coisas.

Grata.

A palavra doeu um pouco, mas eu engoli.

Ele não estava errado.

— E se eu me apaixonar por você? — provoquei, sem pensar.

Ele riu. Um som seco, curto, sem humor.

— Não vai.

— Você é tão confiante assim?

— Sou realista. Você não me conhece. E quando conhecer, não vai gostar do que vai ver. Sou frio, calculista, exigente. Trabalho dezoito horas por dia. Não tenho paciência para sentimentalismo. A única pessoa que importa na minha vida é minha filha.

Ele inclinou o corpo para frente.

— Então não, signorina, você não vai se apaixonar por mim. E eu garanto que não vou me apaixonar por você. Isso é um negócio. Nada mais.

Fiquei em silêncio por um momento.

A sala estava tão quieta que eu ouvia meu próprio coração.

— E os meninos? — perguntei. — Eles viriam comigo?

— Sim. A mansão tem espaço. Eles teriam quartos próprios, educação de qualidade, acompanhamento médico. Tudo incluso.

— Mas eles têm uma vida aqui. Amigos. Rotina.

— E continuarão tendo. Só que com mais conforto.

Ele abriu a pasta em outra página.

— Tenho uma proposta de cronograma de adaptação. Eles terminam o ano letivo na escola atual, se preferir, e depois transferem. Ou podem mudar imediatamente. Fica a seu critério.

Eu olhei para os papéis.

Números. Datas. Cláusulas.

Tudo organizado. Tudo pensado.

Ele realmente tinha planejado cada detalhe.

— Posso pensar? — perguntei.

— Claro. Mas não tenho muito tempo. O processo judicial acelera na próxima semana. Preciso de uma resposta em até 48 horas.

Quarenta e oito horas.

Dois dias para decidir o resto da minha vida.

— Tudo bem — levantei. — Eu volto com a resposta.

Ele se levantou também.

— Signorina Ariella.

Parei.

— Seja qual for sua decisão, mantenha discrição. Esse assunto não pode vazar.

— Entendi.

Ele acenou com a cabeça, e a recepcionista reapareceu na porta para me conduzir até o elevador.

No caminho de volta, no elevador silencioso, apoiei a cabeça na parede de vidro e fechei os olhos.

Esposa contratual.

Três anos.

Tratamento dos meninos.

A voz dele ainda ecoava na minha cabeça: Você precisa.

Ele tinha razão.

Eu precisava.

---

O resto do dia foi um borrão.

Trabalhei na loja no automático, meu corpo no caixa registradora, minha cabeça no escritório, nos olhos cinzentos, na filha dele, nos meninos.

À noite, cheguei em casa e encontrei Dona Lurdes na cozinha, preparando macarrão.

— Ciao, tesoro — oi, querida — ela disse, me olhando por cima dos óculos. — Come è andata? — como foi?

— Non lo so ancora — ainda não sei — respondi.

Ela não perguntou mais.

Sentei à mesa da cozinha e fiquei ouvindo os meninos no quarto, brigando por causa do videogame.

Rafa gritando. Beto rindo.

Vida.

48 horas, ele disse.

Olhei para o teto manchado de infiltração.

Olhei para a geladeira velha.

Olhei para o caderno de contas na gaveta.

Então levantei, bati na porta do quarto deles e entrei.

— Gente, senta aqui um pouquinho.

Rafa pausou o jogo. Beto largou o controle.

— O que foi, Ari?

Sentei na cama de um deles, e eles se sentaram na outra, me olhando com aquelas caras de quem espera o pior.

— Vou contar uma coisa para vocês. E quero que me escutem até o final antes de falar qualquer coisa, tá?

Eles assentiram.

Respirei fundo.

E contei.

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