Capítulo 4

Ariella

O almoço foi servido pontualmente ao meio-dia.

A sala de jantar formal tinha uma mesa comprida o suficiente para doze pessoas, mas éramos apenas nós cinco. Alessandro na cabeceira, eu à sua direita, Sofia ao meu lado, Rafa e Beto do outro lado, ainda meio encolhidos nas cadeiras estofadas.

A Signora Rossetti supervisionou o serviço com discrição. Uma arrumadeira chamada Giulia colocou as travessas na mesa — massa fresca, legumes salteados, frango assado — e se retirou em silêncio.

Sofia cutucou a comida com o garfo.

— Non mi piace — não gosto — murmurou.

— Non hai nemmeno provato — você nem provou — Alessandro respondeu, paciente.

— L'ho provato con gli occhi — provei com os olhos.

Rafa soltou uma risada abafada. Sofia olhou para ele, surpresa.

— Cos'è? — o que foi?

— Nada — Rafa desviou o olhar, corando. — É que minha irmã fala a mesma coisa.

— Tua sorella? — sua irmã?

— Ari — ele apontou para mim com o queixo. — Ela vive dizendo que prova comida com os olhos.

Sofia me encarou, avaliando.

— Anche tu non mangi quello che non ti piace? — você também não come o que não gosta?

— Dipende — depende — respondi. — Se ho fame, mangio quasi tutto — se estou com fome, como quase tudo.

Ela pensou naquilo por um momento. Depois, lentamente, levou o garfo à boca.

Mastigou.

— Non è così male — não é tão ruim — admitiu.

Alessandro me olhou por cima da taça de água. Não disse nada. Mas havia algo naquele olhar.

Aprovação, talvez.

O almoço seguiu num silêncio confortável. Beto eventualmente fez uma pergunta sobre os cavalos que vira no jardim — descobrimos que Alessandro tinha dois, e que Sofia adorava alimentá-los com cenouras. Rafa se animou, pedindo para ver. Sofia se ofereceu para mostrar.

Foi o primeiro momento em que a vi relaxar de verdade.

---

O jantar foi mais informal.

Comemos na copa, uma sala menor ao lado da cozinha, onde a Signora Rossetti serviu uma sopa e pão fresco. Sofia estava mais solta agora, falando sobre o dia dela na escola — uma instituição particular perto da mansão, onde estudava pela manhã.

— Oggi la maestra ha detto che disegno bene — hoje a professora disse que desenho bem — ela contou, orgulhosa.

— Mostra depois — falei.

Ela acenou com a cabeça, animada.

Rafa e Beto estavam mais à vontade também. Beto até fez uma piada sobre a sopa, e Sofia riu — um riso genuíno, infantil, que iluminou o rosto dela.

Alessandro observava tudo.

Não participava muito, mas não tirava os olhos da cena.

Quando Sofia bocejou pela terceira vez, ele se levantou.

— Ora di dormire, principessa — hora de dormir, princesa.

— No, papà — não, papai. — Voglio restare — quero ficar.

— Já passou da tua hora.

Ela cruzou os braços, fazendo bico. Depois olhou para mim.

— Lei può leggere per me? — ela pode ler para mim?

Alessandro hesitou.

— Sofia—

— Per favore — por favor.

Olhei para ele, esperando.

Ele acenou, quase imperceptível.

— Claro — falei, levantando. — Vou sim.

Sofia sorriu e estendeu a mão para mim.

---

O quarto dela era cor-de-rosa.

Não inteiro — Alessandro tinha bom gosto demais para isso — mas nos detalhes. Cortinas claras, uma colcha florida, estantes cheias de livros infantis. Bonecas organizadas numa prateleira, incluindo Lina, que Sofia colocou no centro da cama.

Ela escolheu o livro: uma história sobre uma princesa que não queria ser salva.

Sentei na borda da cama e comecei a ler em italiano, devagar, mostrando as figuras. Sofia ouvia atenta, os olhos grandes fixos nas páginas.

Quando terminei o primeiro capítulo, ela estava com os olhos pesados.

— Ancora — mais — murmurou.

— Domani — amanhã. — Agora dorme.

Ela não reclamou. Apenas se virou de lado, puxando a boneca para perto.

— Ariella?

— Dimmi — fala.

— Tu fica amanhã?

— Fico.

Ela sorriu, satisfeita, e fechou os olhos.

Fiquei ali mais alguns minutos, vendo a respiração dela ficar mais lenta, mais profunda.

Quando saí do quarto, Alessandro estava encostado na parede do corredor.

— Dormiu? — perguntou baixo.

— Quase.

Ele acenou com a cabeça.

— Obrigado.

— Não precisa agradecer.

— Preciso.

Nos olhamos por um segundo longo demais.

Ele desviou primeiro.

— Amanhã temos o cartório. Às dez.

— Certo.

— Boa noite, Ariella.

— Boa noite, Alessandro.

---

O cartório era discreto.

Nada de flores, nada de véu, nada de música. Apenas nós dois, as testemunhas — o advogado dele e a secretária — e um juiz de paz que leu os termos com a mesma entonação de quem lê uma cláusula contratual.

— Dichiaro di voler prendere come mia legittima sposa... — Declaro querer tomar como minha legítima esposa...

Olhei para Alessandro. Terno escuro. Rosto fechado.

Ele não parecia nervoso. Não parecia nada.

— Dichiaro di voler prendere come mio legittimo sposo... — Declaro querer tomar como meu legítimo esposo...

A aliança era simples. Ouro branco, fina, sem detalhes. Ele deslizou no meu dedo com mão firme.

Eu coloquei a dele com dedos trêmulos.

— Posso declarar-vos marido e mulher.

E foi isso.

Três anos.

Um contrato.

Um beijo rápido, seco, só para cumprir protocolo.

Quando saímos do cartório, o sol de Milão brilhava forte. Alessandro olhou para mim.

— Pronta para voltar?

— Sempre.

---

Naquela noite, Sofia apareceu no meu quarto.

Eram onze e meia. Eu estava lendo, de pijama, quando a porta se abriu devagar.

— Ariella?

— Sofia? Che succede? — o que aconteceu?

Ela entrou com a boneca debaixo do braço, o cabelo desgrenhado de sono.

— Non riesco a dormire — não consigo dormir.

— Pesadelo?

Ela balançou a cabeça que não.

— Solo... — só... — non voglio dormire da sola — não quero dormir sozinha.

Meu coração apertou.

Sete anos. Sete anos aprendendo que adultos desaparecem.

— Vieni qui — vem aqui.

Ela correu para a cama e se enfiou debaixo das cobertas. Lina foi posicionada no meio, como uma barreira simbólica.

Sofia me olhou.

— Tu vai embora também? — você vai embora também?

Deitei de lado, ficando na altura dos olhos dela.

— Non — não.

— Prometti? — promete?

— Prometto.

Ela me estudou por um longo momento. Depois, satisfeita, virou de costas e puxou minha mão para abraçar.

Fiquei ali, imóvel, sentindo o peso pequeno daquela confiança.

Não sei a que horas dormi.

Só sei que, quando acordei, Alessandro estava na porta.

Ele olhou para a cena — Sofia encolhida contra mim, minha mão protegendo as costas dela — e algo mudou no rosto dele.

Não era surpresa.

Era algo mais profundo.

— Desculpa — murmurei, tentando me levantar.

Ele balançou a cabeça.

— Não acorda.

Pausa.

— Obrigado.

Saiu antes que eu pudesse responder.

---

Dois dias depois, ele me chamou no escritório.

— Precisamos resolver a documentação dos meninos — disse, direto. — A adoção.

Engoli seco.

— Eles sabem?

— Ainda não. Queria falar com você primeiro. Depois, com eles.

— O que precisa ser feito?

Ele abriu uma pasta.

— Papéis. Assinaturas. Eles passam a ser meus dependentes legais. Isso garante acesso ao plano de saúde, à herança, à educação. Tudo.

— Herança?

— Se algo acontecer comigo, eles estão protegidos. É o mínimo.

Olhei para ele.

— Por que está fazendo isso?

Ele franziu o cenho.

— Está no contrato.

— Não é só isso.

Ele sustentou meu olhar por um momento.

— Não — admitiu. — Não é só isso.

Não perguntei mais.

---

Rafa e Beto receberam a notícia em silêncio.

Estávamos no quarto deles, os três sentados na cama.

— Adoção? — Beto repetiu. — Tipo... ele vai ser nosso pai?

— Legalmente, sim.

— E a gente passa a chamar ele de pai? — Rafa perguntou, o nariz franzido.

— Só se quiserem. Pode ser Alessandro. Pode ser Ale. Pode ser "ei você". O que se sentirem confortáveis.

Beto coçou a nuca.

— E a gente continua tendo vocês como irmã?

— Sempre.

Ele pensou por um momento.

— E se ele for babaca?

Ri.

— A gente volta. Lembra?

Rafa sorriu.

— Tá, então... pode ser.

Beto concordou com a cabeça.

— Pode ser.

---

Na tarde seguinte, Alessandro nos levou para comprar roupas.

Não era uma loja comum. Era uma boutique no centro de Milão, com vendedoras que traziam peças em bandejas como se fossem joias.

Rafa e Beto estavam atônitos.

— Tudo isso... pra gente? — Beto perguntou.

— Tudo — Alessandro confirmou.

Ele se sentou numa poltrona enquanto as vendedoras mediam os meninos. Eu estava no provador, experimentando algumas peças que a consultora escolheu.

Quando saí, vestindo um vestido azul marinho simples, Alessandro olhou para cima.

O olhar dele prendeu no meu por um segundo a mais.

Ele desviou rápido, pegando o celular.

— Ficou bom — disse, sem me olhar.

Sofia, ao lado dele, gritou:

— Bellissima! — linda!

Ri, envergonhada.

— Obrigada, piccola.

Rafa e Beto apareceram com calças novas, camisetas, tênis. Pareciam outros meninos.

— Ari, olha! — Rafa apontou para o próprio peito. — Tênis de marca, véi!

— Tô vendo.

Beto estava mais contido, mas os olhos brilhavam.

— Gostaram? — Alessandro perguntou.

Eles acenaram, tímidos.

— Então levem.

A vendedora sorriu, radiante com a comissão.

No caminho de volta, Sofia dormiu no banco de trás, a cabeça no meu colo. Rafa e Beto tagarelavam sobre os tênis novos.

Olhei pelo vidro.

Milão passava lá fora. Lindo. Distante.

Dias atrás, eu estava contando moedas para comprar pão.

Agora, minha mão repousava no cabelo macio de uma criança que confiava em mim. Meus irmãos riam no banco de trás. Meu... marido? Contrato? — dirigia em silêncio, os olhos na estrada.

Três anos, pensei.

Talvez fosse tempo suficiente para descobrir o que realmente estávamos construindo.

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