Capítulo 5

Ariella

Acordei com o coração batendo acelerado antes mesmo de abrir os olhos.

O quarto ainda estava escuro, a claridade do início da manhã mal se arrastando pelas frestas da cortina. Virei na cama e peguei o celular no criado-mudo.

5h47.

O mesmo horário de sempre. O corpo não esquecia a rotina, mesmo num lugar como aquele.

Fiquei olhando para o teto por um minuto inteiro.

Hoje.

Hoje era o dia.

A audiência da guarda estava marcada para as dez da manhã. Os advogados tinham passado a tarde anterior na mansão, revisando cada detalhe, cada documento, cada possível pergunta. Alessandro ficou reunido com eles por horas enquanto eu mantinha Sofia ocupada no jardim.

Não deixa ela perceber que algo está errado, ele pediu antes de entrar no escritório.

Não deixei.

Brincamos de alimentar os peixes. Colhemos flores para colocar num vaso na sala. Ela me mostrou como Lina gostava de tomar chá de mentirinha.

Nada errado.

Nada fora do normal.

Nada que indicasse que, hoje, um juiz decidiria se ela continuaria sendo filha dele.

---

Levantei e fui para o banheiro.

Olhei no espelho. Olheiras ainda ali, mas menos profundas que há uma semana. Dormia melhor agora. Não muito, mas melhor.

Talvez fosse a cama enorme. Talvez fosse o silêncio da mansão. Talvez fosse saber que, por algumas horas, as contas não estavam gritando na minha cabeça.

Ou talvez fosse outra coisa. Algo que eu não estava pronta para nomear.

Tomei banho, vesti uma roupa simples — calça preta, blusa clara, o único blazer que a consultora tinha escolhido para mim naquela tarde de compras. Nada muito chamativo. Nada que parecesse "esposa contratual". Apenas... sóbrio. Respeitável.

Materno, o advogado tinha dito. A senhora precisa passar a imagem de figura materna estável.

Figura materna estável.

Eu, que aos vinte e dois anos virei mãe de dois adolescentes doentes.

Eu, que aprendi a segurar mãos em corredores de hospital antes de aprender a segurar a minha própria vida.

Figura materna estável.

Talvez eu fosse isso, afinal.

---

Desci para a cozinha às seis e meia.

A Signora Rossetti já estava lá, naturalmente, preparando o café.

— Buongiorno, signora — bom dia — ela disse, surpresa ao me ver tão cedo. — Ha dormito bene? — dormiu bem?

— Così così — mais ou menos. — Oggi è il giorno — hoje é o dia.

Ela acenou com a cabeça, compreensiva. Não perguntou mais. Apenas serviu um café forte e colocou um pão quente na minha frente.

— Grazie.

— Prego, signora.

Fiquei ali, tomando café em silêncio, vendo a cozinha se preparar para o dia.

Às sete, passos na escada.

Alessandro apareceu na porta.

Terno escuro, gravata cinza, barba feita com precisão. Ele parecia... tenso. Não demonstrava, claro. A expressão era a mesma de sempre — controlada, fechada, profissional.

Mas eu vi.

Os olhos. A forma como ele apertou os lábios ao me ver.

— Acordou cedo.

— Não consegui dormir mais.

Ele acenou, como se entendesse.

Sentei à mesa da copa — a informal, onde comíamos todos os dias agora — e ele se serviu de café, sentando à minha frente.

— Sofia ainda dorme?

— Dorme. A Signora Rossetti vai acordá-la mais tarde. Não queria que ela visse a gente saindo.

— Certo.

Silêncio.

Ele mexeu o café sem beber.

— Ariella.

— Fala.

— Obrigado.

Olhei para ele.

— Pelo que exatamente?

— Por tudo. Por estar aqui. Por... ontem. Por manter ela distraída.

— Ela é uma criança boa. Foi fácil.

Ele balançou a cabeça.

— Não é fácil. Eu sei. Já tentei. Ela não confia em ninguém.

— Confia em você.

— Porque não tive escolha. Ela não tinha mais ninguém.

A frase pairou no ar.

Não tinha mais ninguém.

Igual a mim. Igual aos meninos.

— Hoje ela vai ter — falei. — A decisão vai ser a favor.

Ele me olhou por um longo momento.

— Como sabe?

— Porque eu vi você com ela. Porque eu vi o que você fez por mim e pelos meninos. Porque juiz nenhum com dois olhos na cara vai tirar uma filha de um pai que atravessou o inferno para tê-la de volta.

Algo mudou no rosto dele.

Só um segundo.

Mas eu vi.

---

Rafa e Beto desceram às oito, esfregando os olhos.

— Já vai? — Beto perguntou, vendo meu blazer.

— Vou. A audiência é às dez.

— A gente vai junto? — Rafa quis saber.

— Não. Ficam aqui com a Sofia. A Signora Rossetti vai cuidar de vocês.

Beto franziu a testa.

— E se der ruim?

— Não vai dar.

— Mas e se der?

Olhei para ele. Meu irmão quieto, sempre pensando no pior cenário.

— Se der ruim, a gente briga. A gente sempre briga.

Ele acenou, satisfeito.

Rafa bateu no ombro de Alessandro.

— Ei. Não deixa ela passar vergonha, tá? A Ari gagueja quando fica nervosa.

Alessandro arqueou uma sobrancelha.

— Gagueja?

— Só um pouco — me defendi, corando. — Rafa, pelo amor de Deus.

— É verdade! Quando você vai falar com o banco, você gagueja. Quando briga com o dono da farmácia, você gagueja. Quando—

— CHEGA.

Rafa riu. Beto também. Até Alessandro esboçou meio sorriso.

Meio sorriso.

Era a primeira vez que eu via.

---

Às nove, o carro chegou.

Alessandro e eu entramos no banco de trás. O advogado dele, um homem chamado Doutor Moretti, já estava no tribunal nos aguardando.

O trajeto foi silencioso.

Milão passava pela janela, linda e indiferente. Pessoas tomando café em mesas de calçada. Crianças indo para a escola. Vida normal.

A minha vida normal tinha mudado completamente em uma semana.

— Nervosa? — Alessandro perguntou, baixo.

— Muito.

— Eu também.

Olhei para ele. Ele nunca admitia essas coisas.

— Vai dar certo.

Ele não respondeu. Apenas olhou pela janela.

Mas, por um momento, a mão dele encostou na minha no banco.

Só um toque. Quase acidental.

Mas nenhum de nós afastou.

---

O tribunal era um prédio antigo no centro de Milão.

Fachada de pedra, escadaria larga, portas altas de madeira escura. Subimos os degraus em silêncio.

Na porta, repórteres.

Não muitos, mas alguns. Câmeras. Microfones. Gritaram o nome de Alessandro quando nos viram.

Ele não parou. Não respondeu. Apenas segurou minha mão — agora de propósito — e me puxou para dentro.

As perguntas ecoaram atrás de nós, abafadas pela porta pesada.

Lá dentro, o silêncio era diferente.

Mais denso. Mais pesado.

Doutor Moretti nos esperava no corredor, ao lado de uma porta dupla.

— Buongiorno — ele disse, sério. — Tutto pronto? — tudo pronto?

— Pronto — Alessandro respondeu.

O advogado olhou para mim.

— Signora Ariella, a senhora vai depor. Perguntas simples. Apenas conte a verdade sobre a convivência com a criança. Sobre a rotina. Sobre o cuidado.

— Certo.

Ele hesitou.

— Os advogados dos avós vão tentar desqualificá-la. Vão perguntar sobre o casamento, sobre o contrato. Vão insinuar que é fachada.

Meu estômago gelou.

— E não é? — a pergunta escapou.

Moretti me olhou com atenção.

— É um casamento legal. Vocês dividem o mesmo teto. Dividem a mesma mesa. A senhora cuida da criança como se fosse sua. Isso é o que importa.

Alessandro apertou minha mão.

— Vai ficar tudo bem — disse.

Olhei para ele.

Olhei para a mão dele na minha.

E, pela primeira vez, não pensei em contrato.

---

A porta se abriu.

— Possono entrare — podem entrar.

Respirei fundo.

E entrei.

Continue lendo este livro gratuitamente
Digitalize o código para baixar o App
Explore e leia boas novelas gratuitamente
Acesso gratuito a um vasto número de boas novelas no aplicativo BueNovela. Baixe os livros que você gosta e leia em qualquer lugar e a qualquer hora.
Leia livros gratuitamente no aplicativo
Digitalize o código para ler no App