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Beijo do Acaso, Coração de Gelo
Beijo do Acaso, Coração de Gelo
Por: Kelly Andretto
CAPÍTULO 1 — Quando Tudo Quebra

Laura Martins sempre acreditou que a felicidade era construída em silêncio.

Não em grandes explosões de alegria ou reviravoltas cinematográficas, mas em pequenas escolhas corretas feitas todos os dias: acordar cedo, trabalhar duro, amar com lealdade, ceder quando necessário. Ela acreditava que, se fizesse tudo certo, o mundo devolveria na mesma medida.

Naquela terça-feira, por alguns minutos, pareceu que o mundo finalmente havia devolvido.

O e-mail chegou às 9h17.

Curto. Formal. Direto.

Temos o prazer de informar que, a partir desta data, você assume oficialmente o cargo de Gerente de Projetos…

Laura leu três vezes, com medo de estar interpretando errado. Quando a ficha caiu, levou a mão à boca, os olhos marejaram e um sorriso escapou antes que ela pudesse se conter.

Ela conseguiu.

Depois de anos ouvindo que ainda não estava pronta, que precisava “amadurecer”, que talvez fosse cedo demais, alguém finalmente tinha visto o que ela sempre soube: ela era capaz.

Respirou fundo, ajeitou a postura na cadeira e olhou ao redor do escritório. Ninguém parecia notar. O mundo seguia normal, enquanto algo enorme acabava de acontecer.

Pegou o celular quase por reflexo.

André.

O nome piscava na tela como uma promessa segura. O noivo. O homem com quem dividiria a vida em poucos meses. A pessoa que deveria sorrir primeiro com ela.

Amor, tenho uma novidade incrível. Hoje à noite a gente comemora.

Ela sorriu ao enviar a mensagem.

O dia passou em ritmo acelerado. Parabéns discretos, reuniões, responsabilidades novas surgindo antes mesmo da posse oficial. Laura sentia o peso — e gostava disso. Era o tipo de cansaço que vinha com propósito.

Quando saiu do prédio, o céu já começava a escurecer. O coração estava leve. Ela imaginava o jantar, talvez uma taça de vinho, o sorriso orgulhoso de André.

O apartamento estava silencioso demais quando ela chegou.

A luz da cozinha estava acesa. André estava sentado à mesa, o celular apoiado ao lado do prato intacto. Não se levantou. Não sorriu.

— Chegou tarde — disse.

— O dia foi… intenso — respondeu ela, ainda animada. — Eu te mandei mensagem.

Ele assentiu devagar.

— Eu vi.

Laura largou a bolsa e se aproximou.

— Então… — começou, sorrindo — eu fui promovida.

O silêncio que se seguiu não foi de surpresa. Foi de cálculo.

André se recostou na cadeira, cruzando os braços.

— Gerente — repetiu, como se testasse o gosto da palavra. — Acima de mim.

O sorriso de Laura vacilou.

— Não é uma competição.

Ele soltou uma risada curta. Sem humor.

— Tudo é uma competição.

— André…

— Você sabe o quanto isso me expõe? — interrompeu. — As pessoas vão comentar. Fazer comparações.

Laura piscou, confusa.

— Comparações de quê?

— De sucesso. De quem manda mais. De quem ganha mais.

Ela sentiu um frio no estômago.

— Eu achei que você ficaria feliz por mim.

— Eu ficaria — ele respondeu, rápido demais — se isso não significasse que você me ultrapassou.

As palavras caíram como cacos de vidro.

— Eu não ultrapassei você — disse, tentando manter a calma. — Eu cresci. Isso não diminui ninguém.

— Diminui sim — ele rebateu, finalmente levantando-se. — Diminui quando uma mulher ocupa um espaço que não deveria.

Laura sentiu o ar faltar.

— O que você está dizendo?

André passou a mão pelo cabelo, impaciente.

— Que eu não posso me casar com alguém que vai me fazer parecer menos.

O mundo parou.

— Você está terminando comigo… por causa de uma promoção?

— Estou sendo racional — respondeu. — Casamento é parceria. E isso… — apontou para o celular dela — muda o equilíbrio.

Laura riu. Um riso nervoso, incrédulo.

— Você está com medo.

— Estou sendo honesto.

— Não — ela corrigiu, sentindo algo quebrar dentro do peito. — Você está ferido no ego.

O rosto dele se fechou.

— Eu não vou competir com você, Laura.

— Eu nunca te pedi isso.

Ele suspirou, como se estivesse cansado dela.

— Talvez esse seja o problema.

Não houve grito. Não houve choro imediato. Apenas a sensação absurda de estar assistindo à própria vida de fora.

Horas depois, André saiu com uma mala.

A aliança ficou sobre a mesa.

Laura permaneceu sentada no chão da sala, abraçando os próprios joelhos, até o celular vibrar.

Vik.

— Você não atende. Onde você está?

— Em casa.

— Estou indo.

Vinte minutos depois, Vik entrou como um furacão, com uma garrafa de vinho em uma mão e indignação na outra.

— Ele fez o quê?!

Laura contou tudo em silêncio. Quando terminou, Vik estava em pé, andando de um lado para o outro.

— Então deixa eu ver se entendi — disse. — Você trabalha feito uma condenada, cresce, vence… e ele termina porque você ficou grande demais?

Laura assentiu.

— Lixo — Vik decretou. — Lixo emocional reciclável.

Laura tentou rir, mas os olhos arderam.

— Eu fiz tudo certo.

Vik se ajoelhou à frente dela.

— Não, Laura. Você fez tudo do jeito que te ensinaram. Agora é a sua vez de aprender do seu jeito.

— Eu não quero sair — murmurou. — Não hoje.

— Justamente hoje — Vik rebateu. — Você não vai se esconder.

Horas depois, Laura estava em uma boate que pulsava luzes e música. Não era seu ambiente. Nunca foi. Mas havia algo libertador em estar invisível no meio da multidão.

— Uma noite — Vik disse, erguendo o copo. — Só uma noite sem ser a mulher certa.

Laura respirou fundo.

Foi então que Vik sorriu daquele jeito perigoso.

— Desafio.

— Não.

— Você nem sabe qual é.

— Não.

— Beija o primeiro homem que passar.

Laura arregalou os olhos.

— Vik!

— Um beijo. Só isso. Para provar que você ainda existe fora da sombra de um homem medíocre.

Laura olhou ao redor. Pessoas rindo. Dançando. Vivendo.

Pensou na aliança sobre a mesa.

Pensou no e-mail da manhã.

Pensou em quem ela tinha sido o dia inteiro — e em quem estava cansada de ser.

Quando o homem passou, ela não pensou.

Apenas se virou… e beijou.

O choque foi imediato.

A mão dele segurou sua cintura com firmeza. O beijo não foi desajeitado nem tímido. Foi intenso. Seguro. Quase perigoso.

Quando se afastaram, ele a encarava como se ela tivesse acabado de bagunçar algo importante.

Laura deu um passo para trás, o coração disparado.

— Desculpa — disse. — Foi um desafio idiota.

Ele sorriu de lado.

— Os melhores costumam ser.

Ela não perguntou o nome dele.

Ele não pediu o dela.

Mas enquanto se afastava, Laura teve a estranha sensação de que aquele beijo não tinha sido o fim de algo.

Tinha sido o começo.

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