Mundo ficciónIniciar sesiónLaura percebeu que algo estava errado antes mesmo de conseguir identificar o motivo.
Não foi um som, nem uma mudança visível no ambiente. O escritório permanecia igual: luz branca refletindo no vidro das divisórias, o ar-condicionado em temperatura constante, o burburinho distante do andar inferior. Ainda assim, seu corpo reagiu primeiro. Um arrepio subiu pela espinha, a respiração ficou curta demais, e os dedos pausaram sobre o teclado. Alguém estava ali. Quando ergueu os olhos, o mundo pareceu se ajustar ao redor daquela presença. James McCall. Ele ocupava o espaço como se o escritório tivesse sido desenhado para ele. Alto, postura impecável, o terno escuro moldado com perfeição ao corpo, cada detalhe transmitindo controle absoluto. O rosto era impassível, mas os olhos… os olhos estavam atentos demais. Avaliadores. Penetrantes. O coração de Laura disparou, mas ela se obrigou a não demonstrar. Não depois de tudo que havia vivido. Endireitou os ombros, ajeitou a cadeira e levantou-se com calma estudada. — Sr. McCall — disse, profissional. — Precisa de alguma coisa? James não respondeu de imediato. Caminhou até a porta e a fechou com um gesto lento, deliberado. Clique. O som ecoou pelo escritório como um aviso. Laura sentiu o estômago se contrair. — A porta pode ficar aberta — disse ela, mantendo a voz firme. — Não — respondeu ele, sem elevar o tom. — Não pode. Ela cruzou os braços, criando uma barreira clara entre eles. — Isso não é apropriado. — Apropriado — James murmurou, aproximando-se alguns passos — é um conceito flexível. O que não foi apropriado foi o que aconteceu naquela boate. Laura sentiu o rosto esquentar. — Aquilo foi um impulso. Um momento sem importância. — Foi um beijo — ele corrigiu. — E você não beijou como quem não sente nada. Ela caminhou até a mesa, recusando-se a ficar parada sob o olhar dele. — O senhor está ultrapassando limites. — Eu sei exatamente onde estão os limites — respondeu James, apoiando as mãos no tampo de vidro da mesa. — A diferença é que não costumo aceitar quando alguém os usa como escudo. Laura riu, curta, sem humor. — Não sou um problema a ser resolvido. James inclinou levemente a cabeça, observando-a como se aquela frase fosse exatamente o que ele esperava ouvir. — Não — disse ele. — Você é uma variável inesperada. O silêncio se estendeu entre eles. Laura sentia o próprio corpo traí-la em pequenos detalhes: a respiração mais acelerada, a atenção completamente voltada para ele, a consciência aguda da proximidade. Aquilo a irritava profundamente. — Se veio até aqui por causa de um beijo — ela disse — perdeu seu tempo. — Não — James respondeu com tranquilidade inquietante. — Vim porque você saiu sem olhar para trás. Porque não tentou me agradar. Porque não pediu nada. Ela parou. — E isso é um problema? — Para mim? — Ele sorriu de canto. — É um desafio. Laura sentiu o impacto da palavra. — Não estou interessada em jogos de poder. — Já está jogando — James rebateu. — No momento em que decidiu resistir. Ela respirou fundo, sentindo a antiga vontade de se justificar surgir — a mesma que tivera com André durante anos. Reconheceu o impulso e o conteve. — Não vou repetir padrões — disse, firme. — Não vou me diminuir para caber no ego de ninguém. Algo mudou no olhar de James. Não suavizou. Aprofundou. — Você acha que eu quero que se diminua? — perguntou, a voz baixa. — Eu quero entender por que alguém como você ainda tenta se proteger como se fosse frágil. — Porque ser cautelosa não é fraqueza. — Concordo — ele respondeu. — Mas se esconder é. Laura sentiu o golpe. — Não estou me escondendo. — Está — James disse, aproximando-se apenas o suficiente para invadir o espaço pessoal dela. — Atrás do profissionalismo. Do passado. Do medo de perder controle. Ela deu um passo para trás. — Não fale do que não conhece. — Então me deixe conhecer — ele retrucou. O ar entre eles ficou pesado. Laura sentiu um nó se formar no peito. Não era medo. Era alerta. Era a consciência de que aquele homem via demais. — O senhor é meu superior — disse ela. — Essa conversa pode ser interpretada de muitas formas. — Só se você permitir — James respondeu. — Eu não estou exigindo nada. Estou oferecendo uma escolha. — Que escolha? — Fingir que nada aconteceu — ele disse — ou admitir que sentiu o mesmo que eu. Laura sustentou o olhar dele. — E se eu disser que não senti nada? Por um breve instante, algo passou pelo rosto de James. Não raiva. Não frustração. Interesse puro. — Então — ele disse — você será a primeira mulher que me mentiu olhando nos olhos. Ela caminhou até a porta e a abriu, escancarando-a. — Essa conversa acabou. James observou o gesto por alguns segundos. Depois assentiu lentamente. — Por enquanto. Ao passar por ela, parou perto o suficiente para que Laura sentisse o calor do corpo dele. — Portas fechadas — murmurou — só existem até alguém decidir atravessá-las. Ele saiu. Laura fechou a porta com cuidado e apoiou a testa nela por alguns segundos. O coração batia rápido demais. A mente girava. Ela sabia. James McCall não era apenas um homem acostumado a vencer. Era um homem que não aceitava limites. E ela acabara de se tornar a única coisa que ele não conseguia controlar.






