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📖 CAPÍTULO 4 — O Homem Que Não Aceita Portas Fechadas

Laura percebeu que algo estava errado antes mesmo de conseguir identificar o motivo.

Não foi um som, nem uma mudança visível no ambiente. O escritório permanecia igual: luz branca refletindo no vidro das divisórias, o ar-condicionado em temperatura constante, o burburinho distante do andar inferior. Ainda assim, seu corpo reagiu primeiro. Um arrepio subiu pela espinha, a respiração ficou curta demais, e os dedos pausaram sobre o teclado.

Alguém estava ali.

Quando ergueu os olhos, o mundo pareceu se ajustar ao redor daquela presença.

James McCall.

Ele ocupava o espaço como se o escritório tivesse sido desenhado para ele. Alto, postura impecável, o terno escuro moldado com perfeição ao corpo, cada detalhe transmitindo controle absoluto. O rosto era impassível, mas os olhos… os olhos estavam atentos demais. Avaliadores. Penetrantes.

O coração de Laura disparou, mas ela se obrigou a não demonstrar.

Não depois de tudo que havia vivido.

Endireitou os ombros, ajeitou a cadeira e levantou-se com calma estudada.

— Sr. McCall — disse, profissional. — Precisa de alguma coisa?

James não respondeu de imediato. Caminhou até a porta e a fechou com um gesto lento, deliberado.

Clique.

O som ecoou pelo escritório como um aviso.

Laura sentiu o estômago se contrair.

— A porta pode ficar aberta — disse ela, mantendo a voz firme.

— Não — respondeu ele, sem elevar o tom. — Não pode.

Ela cruzou os braços, criando uma barreira clara entre eles.

— Isso não é apropriado.

— Apropriado — James murmurou, aproximando-se alguns passos — é um conceito flexível. O que não foi apropriado foi o que aconteceu naquela boate.

Laura sentiu o rosto esquentar.

— Aquilo foi um impulso. Um momento sem importância.

— Foi um beijo — ele corrigiu. — E você não beijou como quem não sente nada.

Ela caminhou até a mesa, recusando-se a ficar parada sob o olhar dele.

— O senhor está ultrapassando limites.

— Eu sei exatamente onde estão os limites — respondeu James, apoiando as mãos no tampo de vidro da mesa. — A diferença é que não costumo aceitar quando alguém os usa como escudo.

Laura riu, curta, sem humor.

— Não sou um problema a ser resolvido.

James inclinou levemente a cabeça, observando-a como se aquela frase fosse exatamente o que ele esperava ouvir.

— Não — disse ele. — Você é uma variável inesperada.

O silêncio se estendeu entre eles. Laura sentia o próprio corpo traí-la em pequenos detalhes: a respiração mais acelerada, a atenção completamente voltada para ele, a consciência aguda da proximidade.

Aquilo a irritava profundamente.

— Se veio até aqui por causa de um beijo — ela disse — perdeu seu tempo.

— Não — James respondeu com tranquilidade inquietante. — Vim porque você saiu sem olhar para trás. Porque não tentou me agradar. Porque não pediu nada.

Ela parou.

— E isso é um problema?

— Para mim? — Ele sorriu de canto. — É um desafio.

Laura sentiu o impacto da palavra.

— Não estou interessada em jogos de poder.

— Já está jogando — James rebateu. — No momento em que decidiu resistir.

Ela respirou fundo, sentindo a antiga vontade de se justificar surgir — a mesma que tivera com André durante anos. Reconheceu o impulso e o conteve.

— Não vou repetir padrões — disse, firme. — Não vou me diminuir para caber no ego de ninguém.

Algo mudou no olhar de James. Não suavizou. Aprofundou.

— Você acha que eu quero que se diminua? — perguntou, a voz baixa. — Eu quero entender por que alguém como você ainda tenta se proteger como se fosse frágil.

— Porque ser cautelosa não é fraqueza.

— Concordo — ele respondeu. — Mas se esconder é.

Laura sentiu o golpe.

— Não estou me escondendo.

— Está — James disse, aproximando-se apenas o suficiente para invadir o espaço pessoal dela. — Atrás do profissionalismo. Do passado. Do medo de perder controle.

Ela deu um passo para trás.

— Não fale do que não conhece.

— Então me deixe conhecer — ele retrucou.

O ar entre eles ficou pesado. Laura sentiu um nó se formar no peito. Não era medo. Era alerta. Era a consciência de que aquele homem via demais.

— O senhor é meu superior — disse ela. — Essa conversa pode ser interpretada de muitas formas.

— Só se você permitir — James respondeu. — Eu não estou exigindo nada. Estou oferecendo uma escolha.

— Que escolha?

— Fingir que nada aconteceu — ele disse — ou admitir que sentiu o mesmo que eu.

Laura sustentou o olhar dele.

— E se eu disser que não senti nada?

Por um breve instante, algo passou pelo rosto de James. Não raiva. Não frustração.

Interesse puro.

— Então — ele disse — você será a primeira mulher que me mentiu olhando nos olhos.

Ela caminhou até a porta e a abriu, escancarando-a.

— Essa conversa acabou.

James observou o gesto por alguns segundos. Depois assentiu lentamente.

— Por enquanto.

Ao passar por ela, parou perto o suficiente para que Laura sentisse o calor do corpo dele.

— Portas fechadas — murmurou — só existem até alguém decidir atravessá-las.

Ele saiu.

Laura fechou a porta com cuidado e apoiou a testa nela por alguns segundos. O coração batia rápido demais. A mente girava.

Ela sabia.

James McCall não era apenas um homem acostumado a vencer.

Era um homem que não aceitava limites.

E ela acabara de se tornar a única coisa que ele não conseguia controlar.

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