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CAPÍTULO 9 — Limites Testados

Laura fechou a porta do apartamento com força controlada demais para ser natural. Encostou a testa na madeira por alguns segundos, respirando fundo, como se precisasse lembrar o próprio corpo de quem estava no comando.

— Ele não vai me afetar — murmurou para si mesma, em voz baixa, quase como uma ordem. — Não vai.

Mas o silêncio do apartamento não respondeu. Apenas devolveu o eco do jantar, do olhar de James, da forma como ele parecia ocupar espaços sem pedir permissão.

Vik, sentada no sofá com uma taça de vinho na mão, levantou lentamente uma sobrancelha, observando cada microexpressão da amiga.

— Interessante você dizer isso… — comentou, com um meio sorriso provocador. — Principalmente depois de ficar vermelha três vezes durante o jantar. Quer tentar de novo ou prefere admitir que sentiu alguma coisa?

Laura largou a bolsa sobre a bancada da cozinha, mais forte do que pretendia.

— Não senti nada — respondeu rápido demais.

Vik riu baixo. — Laura, eu te conheço há anos. Quando você não sente nada, você não fecha a porta como se estivesse fugindo de um incêndio emocional.

Laura abriu a geladeira apenas para ocupar as mãos. Pegou uma garrafa de água, bebeu alguns goles longos, tentando esfriar não só a garganta, mas o turbilhão dentro do peito.

— Ele é… insistente — disse, por fim. — Isso não significa que me afeta.

— Claro — Vik respondeu, irônica. — E eu sou a rainha da Inglaterra.

Antes que Laura retrucasse, o celular vibrou sobre a bancada. A tela acendeu com um número desconhecido. O estômago dela se contraiu num reflexo imediato, quase irritante.

— Não atende — Vik disse na hora. — Se for ele, é exatamente isso que ele quer.

Laura hesitou. Sabia disso. Sabia que atender era abrir uma fresta. Mas também sabia que ignorar não significava vencer — significava apenas adiar.

Ela atendeu.

— Laura.

A voz de James atravessou o ambiente como uma presença física. Calma. Profunda. Segura demais.

— Sr. McCall — ela respondeu, imediatamente erguendo uma muralha no tom.

— Pensei em te acompanhar até o elevador ontem — disse ele, como se comentasse o clima. — Mas achei melhor esperar você chegar em casa. Algumas mulheres confundem gentileza com invasão.

O maxilar de Laura se tensionou. — Agradeço a preocupação. Estou bem.

— Claro que está — ele respondeu. — Você sempre está. Pelo menos por fora.

Ela fechou os olhos por um segundo. — Não sei qual é o objetivo dessa ligação.

— Nenhum específico — ele disse, e ela soube que era mentira. — Só achei justo lembrar que… não costumo desistir quando algo chama minha atenção.

— Eu não vou ceder — afirmou, firme.

Houve um breve silêncio do outro lado da linha. Curto demais para ser hesitação. Longo o suficiente para ser intenção.

— Ainda não — ele murmurou. — Boa noite, Laura.

A ligação caiu antes que ela respondesse.

Vik não precisou perguntar. — Ele, né?

Laura assentiu, tensa. — Ele acha que isso é um jogo.

— E você? — Vik perguntou. — Acha que não é?

Laura não respondeu. Porque a verdade era incômoda demais.

---

No dia seguinte, Laura chegou cedo à empresa. Precisava do ritual: café quente, mesa organizada, mente focada. Controle. Era isso que a mantinha inteira.

Estava revisando relatórios quando sentiu a mudança no ar.

James McCall não precisava anunciar chegada.

Ele simplesmente aparecia.

Laura ergueu o olhar e o encontrou caminhando pelo escritório com passos tranquilos, seguros, como se aquele espaço também lhe pertencesse. Ele não olhava em volta. Olhava para ela.

— Bom dia, Laura — disse, parando perto demais.

— Bom dia, Sr. McCall — respondeu, sem se levantar. — Posso ajudar em algo profissional?

— Sempre profissional — ele concordou, inclinando levemente a cabeça. — Mas também observando consistência. E resistência.

Ele se aproximou mais um passo. Não tocou. Não precisou. A presença dele era calculada para ser sentida.

Laura manteve a postura, embora o corpo traísse pequenos sinais: respiração mais curta, ombros rígidos.

— Se for tudo — disse ela — tenho prazos a cumprir.

— Eu imagino — James respondeu, o olhar deslizando por ela sem pressa. — E admiro isso. Pessoas focadas costumam ser… perigosamente interessantes.

Ao passar por ela, o braço dele roçou o dela. Um toque mínimo. Quase inexistente. Mas o suficiente para acender cada nervo.

— Está se saindo muito bem — ele disse, baixo. — Mas não subestime o quanto gosto de desafios que não se rendem rápido.

— Eu não me rendo — respondeu ela, firme.

James sorriu de canto. — Exatamente.

Durante o dia, Laura tentou se concentrar. Mas a sensação de ser observada não a abandonava. Não era paranoia. Era consciência.

No fim do expediente, enquanto organizava os papéis, James voltou a se aproximar.

— Laura — disse, próximo o bastante para que o perfume dele a envolvesse. — Se continuar assim… não sei quanto tempo vai aguentar manter esses limites.

Ela se virou, finalmente encarando-o de frente. — Limites não existem para serem testados. Existem para serem respeitados.

O sorriso dele se suavizou, mas os olhos continuaram intensos. — Veremos.

James se afastou, deixando para trás o silêncio pesado e uma certeza incômoda.

Laura resistia. De verdade.

Mas James McCall não era um homem que aceitava fronteiras intactas.

E ambos sabiam: aquele não era o fim da guerra — era apenas a fase em que os limites começavam a ceder por dentro, mesmo quando permaneciam firmes por fora.

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