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CAPÍTULO 2 — O Beijo Não Fica

Laura acordou com gosto de lembrança.

Não era ressaca. Não era cansaço. Era pior.

Era a sensação incômoda de que algo tinha sido iniciado sem o consentimento da lógica — e que não poderia ser desfeito.

O beijo.

Ela fechou os olhos, tentando empurrar a memória para longe, mas foi inútil. O jeito como a mão dele havia segurado sua cintura não tinha sido casual. Não tinha sido educado. Tinha sido firme, consciente, como se ele soubesse exatamente o que estava fazendo… e com quem.

— Droga… — murmurou, virando o rosto no travesseiro.

A porta do quarto se abriu sem aviso.

— Bom dia, dorminhoca traumatizada — Vik anunciou, jogando-se na cama. — Você beijou um estranho absurdamente gostoso ontem. Vamos conversar sobre isso.

Laura gemeu.

— Não quero.

— Vai sim.

Vik apoiou o queixo na mão.

— Primeira pergunta: você lembra como beijou?

Laura engoliu em seco.

Lembrava.

Lembrava do impacto. Do choque inicial. Da surpresa que virou entrega em segundos. Do corpo reagindo antes da cabeça.

— Lembro o suficiente para querer esquecer.

— Ótimo — Vik sorriu. — Então funcionou.

— Funcionou o quê?

— Tirar você do modo “noiva abandonada”. Você estava viva ali. Presente.

Laura sentou-se, abraçando o travesseiro.

— Eu não faço esse tipo de coisa.

— Não fazia — Vik corrigiu. — Agora você faz o tipo “mulher que ainda pode escolher”.

Laura suspirou.

O problema não era o beijo.

Era o homem.

Ela não sabia o nome dele. Não sabia o que fazia. Mas sabia que não era alguém comum. Havia algo na postura, no olhar calculado, no controle absoluto do espaço ao redor dele.

— Ele me olhou como se… — Laura parou.

— Como se o quê?

— Como se eu tivesse provocado algo.

Vik ergueu a sobrancelha.

— Laura, você beijou um estranho numa boate. Tecnicamente, você provocou.

— Não desse jeito.

O dia seguiu estranho.

Laura tentou se concentrar no trabalho, mas se pegava distraída. Releu o mesmo relatório três vezes. Cada vez que o elevador do prédio parava no andar, seu corpo reagia de forma absurda — como se esperasse alguém que não tinha motivo algum para aparecer.

Ridículo.

Ela não era esse tipo de mulher.

Na hora do almoço, decidiu sair sozinha. Precisava de ar. Precisava lembrar quem era antes de tudo desmoronar.

Foi quando viu.

Do outro lado da rua.

O mesmo homem.

Não podia ser coincidência.

O coração dela acelerou antes que a razão pudesse interferir.

Ele estava parado, falando ao telefone, completamente à vontade no caos urbano. Terno escuro impecável. Relógio caro. Aquele mesmo ar de quem não pede espaço — toma.

Quando desligou, os olhos dele encontraram os dela.

Não houve surpresa.

Houve reconhecimento.

E isso foi o que mais a perturbou.

Ele se aproximou devagar, como se não tivesse pressa nenhuma.

— Laura — disse.

Ela congelou.

— Como você…

— Você deixou cair sua bolsa ontem — respondeu, erguendo o objeto como se fosse um troféu discreto. — Com seu crachá dentro.

Ela sentiu o rosto esquentar.

— Eu… obrigada.

Pegou a bolsa rápido demais.

— Não achei que fosse me encontrar tão cedo — ele continuou.

— Eu também não — ela respondeu, firme, mesmo com o coração batendo errado. — Aquilo foi um impulso.

— Impulsos dizem muito — ele rebateu.

Silêncio.

— Não deveria ter feito — Laura disse.

— Discordo.

Ela ergueu o olhar.

— Você não me conhece.

— Ainda não.

O jeito como ele falou aquilo não soou como flerte.

Soou como certeza.

— Eu não estou disponível — ela avisou.

— Eu sei — ele respondeu, sem hesitar. — Você acabou de ser deixada.

Aquilo foi como um tapa invisível.

— Você anda investigando mulheres aleatórias na rua?

Ele sorriu de canto.

— Só as interessantes.

Laura deu um passo para trás.

— Esse beijo não significa nada.

— Para você — ele corrigiu. — Talvez.

— E para você?

Ele se inclinou um pouco, o suficiente para invadir o espaço dela sem tocá-la.

— Para mim, nada acontece por acaso.

Ela sustentou o olhar.

— Então é melhor esquecer.

Ele se afastou, finalmente.

— James McCall.

O nome caiu pesado.

— Caso você mude de ideia — disse, entregando um cartão. — Eu não repito convites.

E foi embora.

Laura ficou parada, sentindo o impacto.

James McCall.

O CEO.

O Coração de Gelo.

Ela conhecia o nome. Todo mundo conhecia.

— Vik vai me matar… — murmurou.

Mas, pela primeira vez desde o término, Laura não se sentiu pequena.

Sentiu-se vista.

E isso era muito mais perigoso do que qualquer beijo.

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