O restaurante era elegante, envolto por uma luz baixa que parecia cuidadosamente calculada para criar intimidade sem excessos. Tons âmbar refletiam nas taças de cristal, e a música suave preenchia os espaços vazios entre conversas discretas. Laura entrou ao lado de Vik, ajustando a postura antes mesmo de dar o segundo passo. Inspirou fundo. Nada a tiraria do controle. Nada.
Ou pelo menos era o que ela repetia mentalmente, como um mantra.
O ar ali dentro parecia diferente. Mais denso. Como se carregasse uma expectativa silenciosa. E ela sabia exatamente o motivo.
James McCall estava lá.
Ele não fez esforço algum para chamar atenção. Estava sentado à mesa, costas eretas, expressão calma, observando a entrada como quem espera algo inevitável. Não havia pressa em seus gestos, nem ansiedade em seu olhar. Apenas presença. Uma presença que ocupava o ambiente sem precisar se impor.
— Boa noite — disse ele, sem se levantar, a voz firme e baixa.
— Boa noite — respondeu Laura, caminhando até a mesa com passos controlados. O coração batia mais rápido do que deveria, mas ela se recusava a permitir que isso transparecesse.
Vik puxou a cadeira para ela, lançando um olhar curioso na direção de James antes de se sentar. Laura percebeu. Sempre percebia.
— Olha só para ele… — Vik murmurou, inclinando-se levemente em sua direção. — Você sente isso, não sente?
— Estou focada no jantar — respondeu Laura, num tom neutro, respirando fundo. Não queria dar margem. Nem para Vik, nem para si mesma.
James permaneceu em silêncio por alguns segundos, observando cada gesto dela com atenção meticulosa. Quando Laura se sentou, ele se inclinou apenas o suficiente para ajustar a cadeira dela. O toque foi breve, quase casual. Mas o contato da mão dele em seu braço provocou uma descarga imediata, como se a pele dela tivesse sido despertada de repente.
Ela conteve o impulso de reagir.
— Controle impressionante — comentou James, em voz baixa, como se fosse um pensamento escapando. — Estou surpreso.
— Estou acostumada — respondeu ela, pegando a taça de vinho. — E prefiro que as pessoas me respeitem.
O sorriso dele surgiu lento, de canto. Não era provocativo no sentido óbvio. Era pior. Dizia, sem palavras: eu escuto, mas não recuo.
O jantar começou com conversas sobre trabalho. Projetos, estratégias, decisões recentes. Vik participava com entusiasmo, fazendo perguntas, rindo nos momentos certos. Laura se mantinha profissional, precisa. James, por sua vez, falava pouco. Observava muito.
Sempre observando.
— Você sempre resiste assim? — perguntou ele, em determinado momento, os olhos fixos nela.
— Sempre — respondeu Laura, sem hesitar. — Ou quase sempre. Você quer ser uma exceção?
Houve uma pausa mínima. O suficiente para o ar parecer mais pesado.
James não respondeu com palavras. Apenas aproximou a cadeira alguns centímetros. Não invadiu o espaço dela. Mas reduziu a distância a um ponto em que ela podia sentir o calor do corpo dele, o perfume discreto, a tensão contida em cada músculo.
Laura manteve a postura, mas o corpo reagiu antes da mente. Um arrepio percorreu-lhe a nuca.
Ela odiava admitir, mesmo internamente, mas aquilo a afetava.
— Você j**a com muita disciplina — disse ele, por fim. — Gosto disso.
— Não estou jogando — respondeu ela. — Estou vivendo.
— Às vezes é a mesma coisa — ele retrucou, sem perder o tom tranquilo.
O prato principal chegou, interrompendo o momento. Laura agradeceu silenciosamente. Precisava daquele intervalo para reorganizar os pensamentos. Para se lembrar de quem era. Do quanto havia lutado para estar ali. Do quanto não podia se permitir perder o controle por causa de um homem — ainda que fosse James McCall.
Enquanto comiam, ela sentia o olhar dele sobre si em intervalos calculados. Nunca invasivo demais. Nunca ausente. Como se ele estivesse sempre medindo o impacto de cada segundo de atenção.
— É fascinante — disse James, quebrando o silêncio — como você consegue ser firme e… provocativa ao mesmo tempo.
Laura ergueu uma sobrancelha, divertida apesar de tudo.
— Provocativa? Não é meu objetivo.
— O efeito é o mesmo — respondeu ele. — E você sabe disso.
Ela engoliu em seco, mas manteve a expressão controlada. Havia algo na forma como ele falava que não exigia resposta. Ele apenas colocava as verdades na mesa e observava como ela lidava com elas.
Vik percebeu a mudança sutil no clima. Tossiu levemente, tentando aliviar a tensão, e comentou algo sobre o vinho. Laura agradeceu mentalmente pela tentativa, mas sabia que era inútil. Aquilo não era algo que se dissipava com conversa trivial.
James inclinou-se levemente para frente.
— Você tem ideia do efeito que causa quando finge que não percebe o que está acontecendo? — perguntou ele, num tom quase curioso.
— Não finjo — respondeu Laura. — Eu escolho.
O sorriso dele voltou. Mais discreto. Mais perigoso.
— Escolher também é uma forma de provocar.
Ela desviou o olhar por um segundo. Apenas um. Mas foi o suficiente para ele perceber que havia tocado em algo real.
O jantar se estendeu, e a conversa alternou entre silêncio carregado e diálogos sutis. Cada gesto parecia calculado. Cada palavra, pesada. Laura sentia a paciência dele sendo testada — e, ao mesmo tempo, percebia que ele gostava disso. Gostava da resistência. Do desafio.
Quando se levantaram para ir embora, James fez questão de acompanhá-la até o carro. O estacionamento estava mais silencioso, iluminado apenas por luzes espaçadas. O braço dele passou próximo ao dela, e o toque quase imperceptível na cintura provocou uma reação imediata. Calor. Atenção. Alerta.
— Até logo, Laura — disse ele, a voz baixa, carregada de intenção. — Continue assim. Firme. Mas não se surpreenda se começar a sentir meu efeito com mais frequência.
Ela virou-se para encará-lo, sustentando o olhar.
— Não vai me afetar — respondeu, apesar do leve tremor na voz.
James inclinou a cabeça, como quem aceita o desafio.
— Veremos.
Enquanto o carro se afastava, Laura apoiou a testa no volante por um breve instante. Respirou fundo. Sabia que havia vencido aquela noite. Sabia que não cedera.
Mas também sabia, com uma clareza inquietante, que aquela guerra estava apenas começando.
E que James McCall não aceitava portas fechadas.