Mundo ficciónIniciar sesiónAmanda acreditava que recomeçar significava apenas mudar de cidade. Mas a capital lhe oferece muito mais do que esperava: encontros que despertam sentimentos adormecidos e decisões que testam sua força emocional. Rubens a envolve com carinho e intensidade, mas carrega conflitos que se recusa a enfrentar. Gabriel a provoca a enxergar seu próprio valor, mesmo quando isso dói. Entre promessas quebradas e silêncios cheios de significado, Amanda descobre que amar também exige coragem — para escolher, para se posicionar e, quando necessário, para partir. Um romance sobre amadurecimento, amor-próprio e escolhas que transformam.
Leer másAmanda foi à festa na praia naquela noite com a amiga Anabela. A areia ainda guardava o calor do dia, e a música ecoava baixa entre risadas e o som constante das ondas quebrando perto do cais. O vento salgado bagunçava seus cabelos enquanto luzes coloridas refletiam no mar escuro.
Ao longe, um navio imponente se aproximava da costa. As luzes da embarcação cortavam a escuridão, e logo o casco tocou o cais com um som grave. Alguns passageiros começaram a descer, conversando animados. Foi então que ela o viu. O capitão surgiu no topo da escada, postura firme, uniforme impecável. Mesmo à distância, havia algo nele que prendia o olhar. O coração de Amanda acelerou sem aviso, e ela precisou engolir em seco. — Amiga… acho melhor eu ir — disse, ainda observando o navio. — Amanhã eu pego cedo no trabalho. Anabela riu, segurando o copo. — Vai mesmo perder a melhor parte da noite? Eu vou ficar mais um pouco. Amanda sorriu de leve, mas antes de virar as costas, lançou um último olhar para o capitão, sem saber que aquele encontro distante mudaria muito mais do que apenas aquela noite. O QUARTO 41 Amanda, 27 anos, trabalhava como camareira no hotel turístico três estrelas Porto Celeste. Naquela manhã, o corredor do terceiro andar estava silencioso demais. Ao chegar ao quarto 41, notou a porta entreaberta. Bateu de leve. — Com licença… Não houve resposta. Empurrou a porta devagar e reconheceu o hóspede antes mesmo de entrar por completo. Ernani — o cantor de voz melodiosa, presença frequente no hotel. Estava sentado na cadeira próxima à janela, o corpo torto, a cabeça pendida para o lado. Uma garrafa vazia descansava no chão. Um copo quebrado refletia a luz pálida da manhã. Será que bebeu demais? Ela deu alguns passos, sentindo o cheiro forte de álcool misturado ao perfume caro que já conhecia. O coração apertou sem aviso. Havia algo errado — um silêncio pesado, um frio que não vinha do ar-condicionado. Tocou-lhe o braço. A pele estava gelada. O grito escapou antes que pudesse contê-lo. Amanda levou as mãos à boca, recuando em pânico. Foi então que a porta se abriu atrás dela. A mulher que sempre o acompanhava entrou no quarto. — O que você fez com ele?! — A voz era aguda, cortante. Sem esperar resposta, empurrou Amanda para o lado e se ajoelhou ao lado do corpo, tocando o marido com desespero teatral. Amanda balançou a cabeça em negação. O coração batia forte demais. Reconhecia aquele tipo de mulher — agressiva, acusadora — e sabia que precisava ter cuidado. — Eu vou chamar ajuda — disse, tentando se afastar. Antes que desse um passo, sentiu o braço ser agarrado com força. — Vai fugir agora? — acusou a mulher. — Você enlouqueceu? — Amanda se soltou num movimento brusco. O toque ainda queimava na pele quando saiu apressada do quarto. No corredor, um colega da recepção veio ao seu encontro, alarmado pelo grito. — Chame a polícia — disse ela, a voz trêmula. — Encontraram o cantor Ernani morto. O nome pareceu ecoar pelo andar. Pouco depois, Ana Bela surgiu de outro quarto. Colocou a mão em seu ombro em silêncio. — Sinto muito — murmurou. Amanda assentiu, tentando se manter firme, mas a imagem da esposa — e o modo como falara com ela — não lhe saía da cabeça. A polícia chegou em menos de uma hora. O quarto foi isolado. O cheiro de produtos químicos da perícia se misturava ao álcool antigo do ambiente. — Por que a senhora não estava com o seu marido? — perguntou o investigador à esposa. Ele era alto, cabelos negros, barba bem cuidada e um olhar sério, atento a cada gesto. Larissa segurava um lenço nas mãos, limpando lágrimas que Amanda não acreditava serem reais. — Nosso casamento estava mal… — disse ela, apontando de repente. — E a culpa é dela. — Não! — protestou Amanda, sentindo o sangue subir ao rosto. — O que tem a dizer sobre isso? — perguntou o investigador, num tom calmo. — Mesmo que não tenha relação direta com a morte. — Eu não tenho nada a ver com os problemas deles — respondeu Amanda. — Só sei que o senhor Ernani não merecia estar com alguém que o tratava daquele jeito. O silêncio que se seguiu foi pesado. — Está vendo? — insistiu Larissa. — Ela sempre foi contra nós. O investigador respirou fundo. — Precisamos apurar tudo com cuidado. O laudo preliminar indica envenenamento. Vamos investigar motivações. Amanda sentiu o chão faltar por um instante. — As duas deverão depor a tarde na delegacia local. — concluiu ele, enquanto a perícia continuava a vasculhar o quarto. O dono do hotel tentou manter o ocorrido em sigilo, mas não demorou para que os repórteres cercassem a entrada. Câmeras, perguntas apressadas, flashes. O Porto Celeste deixou de ser apenas um hotel turístico. Ana Bela insistiu para que Amanda fosse para sua casa. Não queria que ela ficasse sozinha depois de tudo. A amiga morava com a mãe, Marisa. A casa era simples e fresca, com a luz da tarde entrando pela janela da sala. Depois de ouvir toda a história, Marisa ficou em silêncio por alguns segundos, o olhar pesado de compaixão. — Que horror… — disse por fim. — Ele era um ótimo cantor. Tenho até um disco dele. Apontou para uma estante antiga, onde o vinil descansava entre outros objetos. — É realmente muito triste — respondeu Amanda, segurando um copo de suco de acerola. O gosto ácido lhe arranhava a garganta. — O depoimento vai ser hoje à tarde — comentou Ana Bela, inquieta. — E a mulher dele está te acusando. Como pode uma coisa dessas? Antes que Amanda respondesse, um rapaz de boa aparência surgiu do lado de fora da janela, hesitante. — Parece que aquele rapaz de quem você me falou ontem veio te ver — disse Amanda, num tom baixo. Ana Bela ficou dividida por um instante. — Pode ir falar com ele — tranquilizou Amanda. — Eu fico bem. À tarde, na delegacia, o ambiente era frio e impessoal. O ventilador girava no teto, espalhando um ar cansado. Amanda sentou-se diante do investigador. Ele cruzou as mãos sobre a mesa, observando-a com atenção. — Qual era o seu envolvimento com a vítima? — perguntou. Fez uma breve pausa, calculada. — Havia algo… amoroso entre vocês? A memória de Amanda a levou dois meses atrás. Ernani havia se hospedado no Porto Celeste para descansar. Como outros famosos que passavam por ali, buscava discrição. Ainda assim, alguns hóspedes o reconheciam. Ele era sempre gentil — com funcionários, fãs discretos, qualquer um que se aproximasse. A primeira conversa aconteceu numa tarde abafada, enquanto Amanda arrumava a sala onde ocorrera uma pequena festa na noite anterior. O chão ainda grudava sob a vassoura, cheirando a bebida derramada e perfume caro. Ernani saiu do quarto em silêncio. A esposa não percebeu. Estava ao telefone, encostada perto da janela, a voz baixa, mas nítida demais para quem limpava o ambiente. — Eu sei… Ernani é desprovido de beleza, amiga — dizia Larissa, sem pudor. — Mas não é culpa dele, coitado. Amanda sentiu o estômago revirar. Parou a vassoura por um instante. — Que coisa chata de se ouvir — comentou, quase sem pensar, olhando para ele. Os dois trocaram um olhar rápido. Ernani pareceu constrangido. Coçou a nuca, tentando sorrir. — É apenas a verdade — disse, num tom resignado. — Não se desvalorize — respondeu Amanda, retomando o movimento da vassoura. — O senhor deveria se respeitar mais. Ele sorriu de leve. Um sorriso simples, tímido. Naquele momento, Amanda pensou que havia algo bonito ali — não no rosto, mas na forma como ele tentava não demonstrar dor. — Então essa foi a primeira interação entre vocês — disse o investigador, depois de ouvir o relato. Ele fez uma anotação rápida. — A senhora percebeu que a esposa não demonstrava atração por ele. Talvez houvesse outro tipo de interesse… pela fama, pela posição social. Amanda assentiu em silêncio. O investigador pediu que Amanda aguardasse do lado de fora. Precisava ouvir Larissa a sós. Ao cruzarem na porta, Amanda sentiu o impacto do olhar da mulher — frio, calculado, quase indiferente. Não havia ali dor verdadeira, apenas impaciência.Na Costa Serena, Amanda foi chamada mais uma vez para depor naquela manhã. O ambiente da delegacia era frio, cheirava a café requentado e papel velho. Depois do depoimento, o investigador pediu que aguardasse do lado de fora. Enquanto esperava, viu um funcionário do bar entrar, seguido mais tarde por uma amiga de Larissa. O vai-e-vem só reforçava a sensação de que tudo, enfim, estava se encaixando. Amanda mantinha-se confiante. No fundo, sentia que a verdade estava perto. Não se enganava. Pouco tempo depois, o investigador saiu da sala com a expressão serena de sempre. — Eles foram presos — disse, simplesmente. Amanda piscou, surpresa. — Presos… já? Ele assentiu e ofereceu-lhe carona. O carro cor de creme estava limpo, bem cuidado, com um leve cheiro de couro aquecido pelo sol. Ele usava óculos escuros, apesar da luz fraca do fim de tarde, e falava num tom calmo enquanto ligava o rádio, de onde saía uma música lenta, antiga. — Já temos indícios sólidos sobre o resp
Naquela semana, Amanda seguiu estudando e já repetia para si mesma que aquele seria seu último mês na Praia das Conchas. Entre apostilas, anotações e o som distante do mar entrando pela janela, sentia-se estranhamente em suspensão — como se estivesse entre o que fora e o que ainda não tinha coragem de ser. Estava se permitindo envolver com Rubens. Não por carência, dizia a si mesma. Nos últimos dias, haviam passeado de prancha, caminhado pelo centro antigo, rido de coisas simples. Ela lhe mostrara a cidade com olhos de despedida, sabendo que ele partiria na manhã seguinte. No fim de semana, enquanto a tarde se acomodava lentamente e o céu começava a ganhar tons dourados, o telefone tocou. Era Rubens. Haveria uma festa na praia naquela noite. Ele a convidava. — Sim… eu posso — respondeu ele, do outro lado da linha. — Meu co-capitão vai me cobrir. Eu… queria ficar com você mais um pouco. Amanda desligou sentindo o peito aquecer. Escolheu um vestido rosa, estampado com fl
À noite, o telefone tocou, quebrando o silêncio da casa como um sobressalto. Era Ana Bela. — Vem espairecer um pouco comigo — insistiu a amiga. — O Otávio me convidou pra sair… o navio vai zarpar daqui a pouco. Amanda caminhou até a janela enquanto ouvia. A rua estava quase vazia, iluminada por poucos postes. Um arrepio lhe percorreu a espinha — uma sensação estranha, incômoda, como se estivesse sendo observada. Olhou em volta, mas não viu ninguém. — Acho que não estou no clima… — respondeu, enrolando distraidamente o fio do telefone no dedo. — É tanta coisa ruim acontecendo. — Justamente por isso você precisa sair — rebateu Ana Bela, firme. — Ficar sozinha agora não vai te fazer bem. Amanda fechou os olhos por um instante. Respirou fundo. Depois de alguns segundos, cedeu. Escolheu um vestido azul de alças finas, leve, que se movia suavemente com o vento, e prendeu o cabelo em um coque frouxo, deixando alguns fios escaparem de propósito. Ao se olhar no espelho, parecia
Alguns minutos depois, Larissa saiu sem dizer palavra. O salto ecoou pelo corredor da delegacia antes de desaparecer. — Pode entrar novamente — chamou o investigador. Amanda voltou a se sentar. A cadeira era dura, o ambiente abafado. O ventilador no canto apenas empurrava o ar quente de um lado para o outro. — Senhorita Amanda — começou ele, num tom controlado — a esposa da vítima afirmou que viu a senhora levando a garrafa que o senhor Ernani bebeu naquela noite. Disse também que ele buscava pretextos frequentes para conversar com você. Isso lhe causava incômodo… ou a senhora estava envolvida com alguém que desejava o mal dele? O coração de Amanda acelerou. — Sim, eu levei a garrafa — respondeu com a voz baixa, mas firme. — Fazia parte do meu trabalho. Mas eu não o envenenei. Há muito mais por trás disso. Todos no hotel precisam ser investigados. Sentiu o peso da própria condição. A corda sempre arrebenta do lado mais fraco. Lembrou-se de Ernani pedindo que subisse com
Amanda foi à festa na praia naquela noite com a amiga Anabela. A areia ainda guardava o calor do dia, e a música ecoava baixa entre risadas e o som constante das ondas quebrando perto do cais. O vento salgado bagunçava seus cabelos enquanto luzes coloridas refletiam no mar escuro. Ao longe, um navio imponente se aproximava da costa. As luzes da embarcação cortavam a escuridão, e logo o casco tocou o cais com um som grave. Alguns passageiros começaram a descer, conversando animados. Foi então que ela o viu. O capitão surgiu no topo da escada, postura firme, uniforme impecável. Mesmo à distância, havia algo nele que prendia o olhar. O coração de Amanda acelerou sem aviso, e ela precisou engolir em seco. — Amiga… acho melhor eu ir — disse, ainda observando o navio. — Amanhã eu pego cedo no trabalho. Anabela riu, segurando o copo. — Vai mesmo perder a melhor parte da noite? Eu vou ficar mais um pouco. Amanda sorriu de leve, mas antes de virar as costas, lançou um último olha





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