Mundo de ficçãoIniciar sessãoAmanda acreditava que recomeçar significava apenas mudar de cidade. Mas a capital lhe oferece muito mais do que esperava: encontros que despertam sentimentos adormecidos e decisões que testam sua força emocional. Rubens a envolve com carinho e intensidade, mas carrega conflitos que se recusa a enfrentar. Gabriel a provoca a enxergar seu próprio valor, mesmo quando isso dói. Entre promessas quebradas e silêncios cheios de significado, Amanda descobre que amar também exige coragem — para escolher, para se posicionar e, quando necessário, para partir. Um romance sobre amadurecimento, amor-próprio e escolhas que transformam.
Ler maisAmanda foi à festa na praia naquela noite com a amiga Anabela. A areia ainda guardava o calor do dia, e a música ecoava baixa entre risadas e o som constante das ondas quebrando perto do cais. O vento salgado bagunçava seus cabelos enquanto luzes coloridas refletiam no mar escuro.
Ao longe, um navio imponente se aproximava da costa. As luzes da embarcação cortavam a escuridão, e logo o casco tocou o cais com um som grave. Alguns passageiros começaram a descer, conversando animados. Foi então que ela o viu. O capitão surgiu no topo da escada, postura firme, uniforme impecável. Mesmo à distância, havia algo nele que prendia o olhar. O coração de Amanda acelerou sem aviso, e ela precisou engolir em seco. — Amiga… acho melhor eu ir — disse, ainda observando o navio. — Amanhã eu pego cedo no trabalho. Anabela riu, segurando o copo. — Vai mesmo perder a melhor parte da noite? Eu vou ficar mais um pouco. Amanda sorriu de leve, mas antes de virar as costas, lançou um último olhar para o capitão, sem saber que aquele encontro distante mudaria muito mais do que apenas aquela noite. Cristina estava estendida no sofá da sala, o corpo encolhido de lado, uma bolsa de água quente apoiada sobre o ventre. A cortina branca ondulava suavemente com a brisa que entrava da janela, trazendo o ruído distante dos carros da capital e o cheiro morno do fim de tarde. Josefa sentava-se na poltrona ao lado, a xícara de chá fumegante entre as mãos, observando a sobrinha com atenção silenciosa. — Eu estou com medo, tia… — disse Cristina, a voz baixa, quase frágil. — Sinto que alguma coisa pode acontecer nessa viagem do Rubens. A mão dela apertou levemente a bolsa quente, como se tentasse conter não apenas a dor física, mas a inquietação que insistia em crescer no peito. Josefa levou a xícara aos lábios antes de responder, escolhendo as palavras. — Rubens sempre foi um tanto… mulherengo — disse, com cautela. — Se não fosse filho da minha amiga Vitória, herdeiro de uma grande fortuna… — fez um gesto vago no ar. — Bem, quem realmente segura os negócios é o irmão mais novo, o Gabriel. Cristina fechou os olhos por um instante. — Minha querida — continuou Josefa, com um suspiro —, você sempre vai viver com esse receio se decidir seguir a vida ao lado do Rubens. — Mas eu aguentei desde a adolescência — rebateu Cristina, abrindo os olhos, agora firmes. — Não é agora que vou desistir. Ele me deu a entender que vai oficializar nosso noivado quando voltar. Josefa apenas sorriu de lado, um sorriso curto, carregado de descrença e experiência. O silêncio que se instalou na sala disse mais do que qualquer resposta. No dia seguinte, o hotel ainda despertava lentamente. O cheiro de produto de limpeza misturava-se ao café vindo da cozinha, enquanto carrinhos de serviço deslizavam pelos corredores longos e silenciosos. Amanda e Ana Bela limpavam juntas, empurrando os baldes e conversando em voz baixa, como quem divide segredos para espantar a rotina. — Foi tão bom, Amanda… — começou Ana Bela, com os olhos brilhando. — Deu uma química inexplicável. Ele é lindo, gentil… e vamos nos encontrar de novo hoje. Quero que você venha comigo. Vai ser no navio, você precisa ir. Amanda sorriu de canto, continuando a passar o pano. — Quem sabe… — respondeu, antes de suspirar. — Eu também estou tendo problemas. Uma hóspede anda morrendo de ciúmes de mim com o marido dela. O cantor Ernani. Ana Bela parou o carrinho na hora. — O quê? Agora você vai ter que me contar tudo, em detalhes. Amanda respirou fundo, como quem volta no tempo. Ernani havia se hospedado no Porto Celeste para descansar. Como outros famosos que passavam por ali, buscava discrição, embora alguns hóspedes o reconhecessem. Ainda assim, era sempre gentil — com funcionários, fãs contidos, qualquer pessoa que cruzasse seu caminho. A primeira conversa aconteceu numa tarde abafada. O ar parecia pesado, impregnado de perfume caro e bebida derramada da pequena festa da noite anterior. Amanda varria a sala, e o chão ainda grudava sob a vassoura. Ernani saiu do quarto em silêncio. A esposa não percebeu. Estava ao telefone, perto da janela, a voz baixa, mas clara demais para quem estava por perto. — Eu sei… Ernani é desprovido de beleza, amiga — dizia Larissa, sem nenhum pudor. — Mas não é culpa dele, coitado. Amanda sentiu o estômago se revirar. Parou a vassoura por um segundo. — Que coisa chata de se ouvir… — comentou, quase sem pensar, olhando para ele. Os dois trocaram um olhar rápido. Ernani pareceu constrangido. Coçou a nuca, tentando sorrir. — É apenas a verdade — respondeu, num tom resignado. — Não se desvalorize — disse Amanda, retomando o movimento da vassoura. — O senhor deveria se respeitar mais. Ele sorriu de leve. Um sorriso simples, quase tímido. Naquele instante, Amanda percebeu que havia algo bonito ali — não no rosto, mas na forma como ele tentava esconder a dor. — Então foi assim… — concluiu Amanda, voltando ao presente. Ana Bela cruzou os braços, pensativa. — Não me surpreende ele ter se afeiçoado a você — disse. — Vejo que sempre pede para você levar as coisas pra ele. Homem sensível percebe quando alguém o enxerga de verdade. Amanda apenas deu de ombros, mas o rubor em seu rosto a denunciava.O salão estava cheio naquela manhã. O cheiro de spray fixador e esmalte fresco pairava no ar. Secadores zuniam como um fundo constante, misturados ao tilintar de frascos e às conversas animadas das clientes. Os espelhos amplos refletiam luz branca sobre cabelos presos em bobs coloridos. Amanda e Ana Bela estavam lado a lado nas cadeiras giratórias, capas protetoras sobre os ombros, bobs alinhados como preparação para um grande evento. Vitória fazia as unhas de Amanda com precisão, soprando a camada final de esmalte vermelho. Theo modelava o cabelo de Ana Bela com movimentos seguros, levantando mechas e avaliando o caimento pelo espelho. Ana Bela virou o rosto com cuidado para não deslocar os bobs. — Ele não beijou você?! — perguntou, indignada. Amanda soltou um suspiro contido, olhando o próprio reflexo. — Não… Vitória ergueu os olhos, incrédula. — O que um homem espera para dar um beijo em um mulherão como você? Amanda sentiu o rosto aquecer, lembrando da dança, d
— Recomenda algo do cardápio? — perguntou Gabriel, apoiando os antebraços na mesa, inclinando-se levemente na direção dela. A luz do lustre refletia nos olhos dele, suavizando o traço sério que ele costumava carregar. Amanda deslizou os dedos pelo cardápio, mas não estava exatamente lendo. — Eu recomendo o combo marítimo… — respondeu, erguendo os olhos para ele. — Só a apresentação já dá água na boca. Um pequeno sorriso surgiu no canto dos lábios. Ela se lembrava do tempo em que trabalhava no hotel. Quantas vezes havia levado aquele prato para hóspedes importantes… sempre notando como a travessa chegava envolta em vapor perfumado, o brilho dos camarões dourados, o aroma amanteigado misturado ao frescor do limão. Na memória dela, vinha o cheiro do mar se misturando ao da cozinha. Gabriel percebeu que, ao falar, os olhos dela ganhavam vida. — Então confio na sua escolha. — disse, sem desviar o olhar. Ele ergueu a mão discretamente, chamando o garçom com um gesto seguro. O teci
A noite caiu devagar sobre a orla, e o corredor do hotel estava iluminado por luzes amareladas embutidas no teto. O carpete abafava os passos. Gabriel parou diante da porta do quarto de Amanda. Por um segundo, hesitou. Então bateu. Lá dentro, ela ajeitava o cabelo ainda úmido quando ouviu o som. O coração acelerou sem motivo aparente. Caminhou até a porta e abriu. Gabriel teve a exata sensação de ter sido surpreendido. Ela usava um vestido leve azul-claro que acompanhava suavemente os movimentos do corpo. Os cabelos ainda molhados escorriam em mechas soltas pelos ombros. Um aroma fresco de shampoo — algo floral e limpo — se espalhou no ar entre os dois. Ele sustentou o olhar por um segundo a mais do que o habitual. O corredor parecia mais silencioso. — Eu queria saber se gostaria de jantar comigo. — perguntou, com a voz baixa e firme. Não era um convite casual. Era direto. Amanda sentiu o calor subir pelo peito. Não era comum Gabriel agir sem cálculo excessivo
Depois do almoço animado — risadas, pratos sendo servidos outra vez, Marina insistindo para que repetissem — a casa ficou mais silenciosa. Na sala, o ventilador de teto girava devagar, espalhando o cheiro residual de frango assado e café recém-passado. Gabriel e Otávio ficaram no sofá. A televisão desligada refletia a imagem dos dois sentados lado a lado, mas com certa distância. Do quarto, vinha o som animado das vozes femininas e o farfalhar do tecido do vestido sendo aberto. Otávio apoiou os cotovelos nos joelhos e falou sem olhar diretamente para Gabriel: — Você não vai contar à minha família… acredito. Não era exatamente uma pergunta. Gabriel cruzou as pernas com calma, observando a parede à frente. — Claro que não. — fez uma pausa breve. — Perderia a graça. Otávio virou o rosto, avaliando o tom. Gabriel continuou, quase casual: — Sua mãe ligou para a minha outro dia. Queria saber se Rubens tinha ideia do que você anda fazendo por aqui. Um leve silêncio se
Mais tarde, Amanda acompanhou Gabriel até a empresa com quem ele teria a reunião. O prédio era moderno para os padrões da cidade — fachada de vidro fumê, ventiladores de teto girando preguiçosamente na recepção e o cheiro leve de papel, café e ar-condicionado antigo. Ela permaneceu ao lado dele durante a conversa, organizando documentos, esclarecendo pontos e completando informações quando necessário. Sua voz soava segura, mais firme do que ela mesma imaginava. Gabriel percebeu. Ao final da reunião, enquanto apertavam mãos e trocavam cordialidades, Amanda sentiu uma satisfação silenciosa crescer dentro dela. "Estou cada vez mais preparada… logo consigo minha promoção. Um salário maior… talvez dar entrada no meu próprio imóvel." A ideia a fez respirar mais fundo. Era mais do que dinheiro. Era independência. Já do lado de fora, sob o sol quente da tarde, Gabriel quebrou o silêncio. — Quer almoçar em um restaurante? Ela piscou, voltando dos próprios pensamentos. — Eu combinei de
Otávio e Ana Bela estavam deitados na rede armada entre a mangueira antiga do quintal. A madeira do suporte rangia de leve a cada balanço, acompanhando o movimento preguiçoso do vento daquela manhã clara. O cheiro de terra úmida misturado ao perfume doce das flores próximas deixava o ar suave. O vestido vermelho de mangas longas que Ana Bela usava se movia delicadamente com a brisa, roçando na perna de Otávio. Ele mantinha a mão repousada na cintura dela, os dedos fazendo pequenos movimentos distraídos, como se quisesse garantir que ela estava ali. — Conversei com o Rubens ontem… — disse Otávio, olhando para o céu entre as folhas. — Ele está sentido por não poder vir ao casamento. A rede desacelerou. Ana Bela suspirou devagar. — Talvez seja melhor assim… — respondeu com cuidado. — A Amanda ficaria desconfortável. E… seria uma situação difícil. Ela hesitou por um segundo antes de continuar: — Mas ele é seu amigo. Eu sei que isso deve ser estranho para você. — Otávio v





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