Encontro romântico Cap 4

Naquela semana, Amanda seguiu estudando, repetindo para si mesma que aquele seria seu último mês na Praia das Conchas.

Entre apostilas abertas, anotações rabiscadas à margem e o som constante do mar entrando pela janela, sentia-se em suspensão — como se estivesse entre o que fora e o que ainda não tinha coragem de se tornar. Havia dias em que a ideia da partida a animava; em outros, pesava como uma despedida antecipada.

Estava se permitindo envolver com Rubens, dizia a si mesma. Nos últimos dias, haviam dividido momentos simples: passeios de prancha, caminhadas pelo centro antigo, risadas espontâneas diante de coisas pequenas. Ela lhe mostrara a cidade com olhos de despedida, consciente de que ele partiria na manhã seguinte.

No fim de semana, enquanto a tarde se acomodava lentamente e o céu começava a se tingir de dourado e laranja, o telefone tocou.

Era Rubens.

Haveria uma festa na praia naquela noite. Ele a convidava.

— Sim… eu posso — respondeu ele do outro lado da linha, a voz baixa, quase íntima. — Meu co-capitão vai me cobrir. Eu… queria ficar com você mais um pouco.

Amanda desligou sentindo o peito aquecer, um calor silencioso, inesperado.

Escolheu um vestido rosa, estampado com flores vermelhas, leve o suficiente para dançar com o vento. Prendeu o cabelo de lado com uma presilha dourada e calçou um tamanco alto. Ao se olhar no espelho, não sorriu — mas também não se diminuiu. Estava ali. Inteira.

A festa pulsava quando chegou.

Música alta, risadas soltas, o cheiro de bebida misturado à maresia e ao sal da pele aquecida pelo dia. Luzes improvisadas refletiam na areia, e o mar, logo ali, parecia observar tudo em silêncio.

Rubens a recebeu com um sorriso aberto, ofereceu-lhe um drink e depositou um beijo breve em sua bochecha.

— Está linda — disse, com uma sinceridade que não parecia ensaiada.

— Você também — respondeu Amanda, notando como ele parecia à vontade, vestindo uma camisa verde clara e calça branca, iluminado pela lua refletida no mar.

Sentaram-se em um quiosque de madeira. Rubens pediu peixe e cerveja para os dois. O cheiro do prato quente misturava-se ao vento salgado, criando uma sensação estranhamente acolhedora.

— Vejo que consegui te fazer um pouco mais feliz nesses dias — comentou ele, servindo a bebida.

— Sim… — Amanda segurou o copo com cuidado. — Vou sentir saudades.

Rubens bebeu um gole antes de responder.

— É uma pena você ir embora. Com você aqui, eu teria um motivo a mais para voltar sempre. — Fez uma pausa curta. — Mas isso soa egoísta, não é?

Amanda inclinou a cabeça, lançando-lhe um olhar que dizia que entendia mais do que ele imaginava.

— Sei… — murmurou.

— Ei, não me condene — disse ele, rindo baixo, quase cúmplice.

Ela provou o peixe, sentindo o sabor simples e reconfortante.

— Se precisar de ajuda — continuou Rubens — posso falar com algumas pessoas, tentar te arrumar um emprego. Só se quiser.

— Eu aceito — respondeu sem hesitar. — Nunca recusaria ajuda.

Sorriu.

Algo mudou no olhar dele.

Rubens tocou a mão de Amanda com cuidado, como quem pede permissão antes de atravessar uma linha invisível.

— Você fica ainda mais bonita quando sorri — disse.

— Você tem me ajudado a lembrar como é se sentir assim — respondeu ela, sustentando o olhar.

Depois da refeição, ele a convidou para dançar. A música tinha uma batida latina envolvente. Amanda deixou o corpo acompanhar o ritmo, os movimentos soltos, naturais. Rubens a observava, encantado, sentindo a distância entre eles diminuir a cada passo.

A tensão cresceu devagar, densa, silenciosa.

— Amanda… — ele se aproximou.

Ela sentiu o hálito dele próximo ao pescoço, o arrepio percorrendo-lhe a pele.

— Quer ir comigo para um lugar mais reservado? — perguntou, em tom baixo.

Amanda não se sentia assim havia muito tempo. Olhou-o por um instante, como quem mede o próprio desejo — e assentiu, em silêncio.

Rubens a conduziu até o navio. A suíte era ampla, silenciosa, embalada apenas pelo balanço suave do mar.

A porta se fechou atrás deles.

O mundo lá fora deixou de importar.

E naquela noite, Amanda permitiu-se esquecer o peso dos últimos dias — entregando-se ao que o momento lhe oferecia, sem promessas, sem culpa, apenas presença.

Rubens chegou em casa já noite fechada.

As luzes quentes da sala estavam acesas, projetando sombras suaves pelas paredes, e o cheiro do jantar espalhava-se pelo corredor — alho refogado, ervas, algo reconfortante demais para quem não se sentia em paz. Aquele aroma trazia uma sensação contraditória: acolhimento… e cobrança.

Vitória foi a primeira a recebê-lo. Aproximou-se com passos decididos e o envolveu num abraço demorado, apertado demais para ser apenas carinho.

— Seja bem-vindo, meu amor.

Ela estava impecável como sempre. Os cabelos loiros alinhados sem um fio fora do lugar, os olhos verdes atentos, avaliando-o enquanto fingia naturalidade. Vestia uma blusa branca de tecido leve e uma saia nude que reforçava sua postura elegante, quase austera.

Armando surgiu logo atrás e lhe deu um abraço firme, silencioso. Um gesto contido, típico de quem expressava afeto sem excessos.

— E o Gabriel? — perguntou Rubens, afrouxando o nó da camisa, como se o tecido o sufocasse.

— Ainda está na empresa — respondeu Armando. — Deve chegar a qualquer momento.

Vitória suspirou e sentou-se no sofá ao lado do filho, cruzando as pernas com cuidado.

— Cristina ligou hoje — comentou, num tom casual demais para ser inocente. — Está ansiosa pela sua volta.

Rubens sentiu um incômodo crescer no peito, um aperto que não vinha do cansaço.

— Mãe… não é bem assim. Eu não estou noivo da Cristina.

Vitória arqueou uma sobrancelha, surpresa e claramente contrariada.

— Como não está? — retrucou. — Antes de viajar você disse que ia levar o compromisso mais a sério. Falou até em dar o próximo passo.

Rubens abriu a boca para responder, mas foi interrompido pelo som da porta se abrindo.

Gabriel entrou ainda de terno preto, a pasta de trabalho pendurada no braço. Tinha os cabelos negros e os olhos castanhos herdados do pai, além daquele sorriso enviesado que misturava ironia e provocação.

— Aposto que vai enrolar a Cristina por mais um bom tempo — disse, largando a pasta sobre a mesa. — Se não voltou dessa viagem com alguma história mal resolvida.

Rubens fechou a expressão.

— Já chegou procurando briga, como sempre.

— Só estou sendo sincero — respondeu Gabriel, com leve diversão.

— Chega — interveio Armando, a voz firme, cortando o clima. — Gabriel, vá se arrumar. O jantar está quase pronto. Hoje vamos comer em família.

Gabriel obedeceu, ainda com um sorriso provocador nos lábios, desaparecendo pelo corredor.

Vitória voltou-se novamente para Rubens, agora observando-o com atenção silenciosa, como quem tenta decifrar algo que não foi dito.

— E então? — perguntou. — Como foi a viagem?

Rubens hesitou.

Pensou no mar à noite, no cheiro da maresia, na música distante da festa, no riso contido de Amanda, no jeito como ela o olhava sem exigir promessas. Pensou na leveza que sentira — e no silêncio confortável que compartilhavam.

Percebeu, naquele instante, que nada daquilo caberia naquela sala impecável, entre jantares bem servidos e expectativas antigas.

— Foi… boa — respondeu por fim, com um meio sorriso contido.

Vitória assentiu, embora não parecesse convencida.

Rubens desviou o olhar.

E, pela primeira vez desde que chegara, sentiu falta da simplicidade de um lugar onde não precisava explicar quem era — apenas sentir.

Continue lendo este livro gratuitamente
Digitalize o código para baixar o App
Explore e leia boas novelas gratuitamente
Acesso gratuito a um vasto número de boas novelas no aplicativo BueNovela. Baixe os livros que você gosta e leia em qualquer lugar e a qualquer hora.
Leia livros gratuitamente no aplicativo
Digitalize o código para ler no App