Amanda: Quando o amor precisa coragem
Amanda: Quando o amor precisa coragem
Por: Vanessa Kely
Quarto 41 Cap 1

Amanda foi à festa na praia naquela noite com a amiga Anabela. A areia ainda guardava o calor do dia, e a música ecoava baixa entre risadas e o som constante das ondas quebrando perto do cais. O vento salgado bagunçava seus cabelos enquanto luzes coloridas refletiam no mar escuro.

Ao longe, um navio imponente se aproximava da costa. As luzes da embarcação cortavam a escuridão, e logo o casco tocou o cais com um som grave. Alguns passageiros começaram a descer, conversando animados.

Foi então que ela o viu.

O capitão surgiu no topo da escada, postura firme, uniforme impecável. Mesmo à distância, havia algo nele que prendia o olhar. O coração de Amanda acelerou sem aviso, e ela precisou engolir em seco.

— Amiga… acho melhor eu ir — disse, ainda observando o navio. — Amanhã eu pego cedo no trabalho.

Anabela riu, segurando o copo.

— Vai mesmo perder a melhor parte da noite? Eu vou ficar mais um pouco.

Amanda sorriu de leve, mas antes de virar as costas, lançou um último olhar para o capitão, sem saber que aquele encontro distante mudaria muito mais do que apenas aquela noite.

O QUARTO 41

Amanda, 27 anos, trabalhava como camareira no hotel turístico três estrelas Porto Celeste.

Naquela manhã, o corredor do terceiro andar estava silencioso demais. Ao chegar ao quarto 41, notou a porta entreaberta. Bateu de leve.

— Com licença…

Não houve resposta.

Empurrou a porta devagar e reconheceu o hóspede antes mesmo de entrar por completo. Ernani — o cantor de voz melodiosa, presença frequente no hotel. Estava sentado na cadeira próxima à janela, o corpo torto, a cabeça pendida para o lado.

Uma garrafa vazia descansava no chão. Um copo quebrado refletia a luz pálida da manhã.

Será que bebeu demais?

Ela deu alguns passos, sentindo o cheiro forte de álcool misturado ao perfume caro que já conhecia. O coração apertou sem aviso. Havia algo errado — um silêncio pesado, um frio que não vinha do ar-condicionado.

Tocou-lhe o braço.

A pele estava gelada.

O grito escapou antes que pudesse contê-lo. Amanda levou as mãos à boca, recuando em pânico.

Foi então que a porta se abriu atrás dela.

A mulher que sempre o acompanhava entrou no quarto.

— O que você fez com ele?! — A voz era aguda, cortante. Sem esperar resposta, empurrou Amanda para o lado e se ajoelhou ao lado do corpo, tocando o marido com desespero teatral.

Amanda balançou a cabeça em negação. O coração batia forte demais. Reconhecia aquele tipo de mulher — agressiva, acusadora — e sabia que precisava ter cuidado.

— Eu vou chamar ajuda — disse, tentando se afastar.

Antes que desse um passo, sentiu o braço ser agarrado com força.

— Vai fugir agora? — acusou a mulher.

— Você enlouqueceu? — Amanda se soltou num movimento brusco. O toque ainda queimava na pele quando saiu apressada do quarto.

No corredor, um colega da recepção veio ao seu encontro, alarmado pelo grito.

— Chame a polícia — disse ela, a voz trêmula. — Encontraram o cantor Ernani morto.

O nome pareceu ecoar pelo andar.

Pouco depois, Ana Bela surgiu de outro quarto. Colocou a mão em seu ombro em silêncio.

— Sinto muito — murmurou.

Amanda assentiu, tentando se manter firme, mas a imagem da esposa — e o modo como falara com ela — não lhe saía da cabeça.

A polícia chegou em menos de uma hora. O quarto foi isolado. O cheiro de produtos químicos da perícia se misturava ao álcool antigo do ambiente.

— Por que a senhora não estava com o seu marido? — perguntou o investigador à esposa.

Ele era alto, cabelos negros, barba bem cuidada e um olhar sério, atento a cada gesto.

Larissa segurava um lenço nas mãos, limpando lágrimas que Amanda não acreditava serem reais.

— Nosso casamento estava mal… — disse ela, apontando de repente. — E a culpa é dela.

— Não! — protestou Amanda, sentindo o sangue subir ao rosto.

— O que tem a dizer sobre isso? — perguntou o investigador, num tom calmo. — Mesmo que não tenha relação direta com a morte.

— Eu não tenho nada a ver com os problemas deles — respondeu Amanda. — Só sei que o senhor Ernani não merecia estar com alguém que o tratava daquele jeito.

O silêncio que se seguiu foi pesado.

— Está vendo? — insistiu Larissa. — Ela sempre foi contra nós.

O investigador respirou fundo.

— Precisamos apurar tudo com cuidado. O laudo preliminar indica envenenamento. Vamos investigar motivações.

Amanda sentiu o chão faltar por um instante.

— As duas deverão depor a tarde na delegacia local. — concluiu ele, enquanto a perícia continuava a vasculhar o quarto.

O dono do hotel tentou manter o ocorrido em sigilo, mas não demorou para que os repórteres cercassem a entrada. Câmeras, perguntas apressadas, flashes. O Porto Celeste deixou de ser apenas um hotel turístico.

Ana Bela insistiu para que Amanda fosse para sua casa. Não queria que ela ficasse sozinha depois de tudo.

A amiga morava com a mãe, Marisa. A casa era simples e fresca, com a luz da tarde entrando pela janela da sala. Depois de ouvir toda a história, Marisa ficou em silêncio por alguns segundos, o olhar pesado de compaixão.

— Que horror… — disse por fim. — Ele era um ótimo cantor. Tenho até um disco dele.

Apontou para uma estante antiga, onde o vinil descansava entre outros objetos.

— É realmente muito triste — respondeu Amanda, segurando um copo de suco de acerola. O gosto ácido lhe arranhava a garganta.

— O depoimento vai ser hoje à tarde — comentou Ana Bela, inquieta. — E a mulher dele está te acusando. Como pode uma coisa dessas?

Antes que Amanda respondesse, um rapaz de boa aparência surgiu do lado de fora da janela, hesitante.

— Parece que aquele rapaz de quem você me falou ontem veio te ver — disse Amanda, num tom baixo.

Ana Bela ficou dividida por um instante.

— Pode ir falar com ele — tranquilizou Amanda. — Eu fico bem.

À tarde, na delegacia, o ambiente era frio e impessoal. O ventilador girava no teto, espalhando um ar cansado.

Amanda sentou-se diante do investigador. Ele cruzou as mãos sobre a mesa, observando-a com atenção.

— Qual era o seu envolvimento com a vítima? — perguntou.

Fez uma breve pausa, calculada.

— Havia algo… amoroso entre vocês?

A memória de Amanda a levou dois meses atrás.

Ernani havia se hospedado no Porto Celeste para descansar. Como outros famosos que passavam por ali, buscava discrição. Ainda assim, alguns hóspedes o reconheciam. Ele era sempre gentil — com funcionários, fãs discretos, qualquer um que se aproximasse.

A primeira conversa aconteceu numa tarde abafada, enquanto Amanda arrumava a sala onde ocorrera uma pequena festa na noite anterior. O chão ainda grudava sob a vassoura, cheirando a bebida derramada e perfume caro.

Ernani saiu do quarto em silêncio. A esposa não percebeu. Estava ao telefone, encostada perto da janela, a voz baixa, mas nítida demais para quem limpava o ambiente.

— Eu sei… Ernani é desprovido de beleza, amiga — dizia Larissa, sem pudor. — Mas não é culpa dele, coitado.

Amanda sentiu o estômago revirar. Parou a vassoura por um instante.

— Que coisa chata de se ouvir — comentou, quase sem pensar, olhando para ele.

Os dois trocaram um olhar rápido. Ernani pareceu constrangido. Coçou a nuca, tentando sorrir.

— É apenas a verdade — disse, num tom resignado.

— Não se desvalorize — respondeu Amanda, retomando o movimento da vassoura. — O senhor deveria se respeitar mais.

Ele sorriu de leve. Um sorriso simples, tímido. Naquele momento, Amanda pensou que havia algo bonito ali — não no rosto, mas na forma como ele tentava não demonstrar dor.

— Então essa foi a primeira interação entre vocês — disse o investigador, depois de ouvir o relato.

Ele fez uma anotação rápida.

— A senhora percebeu que a esposa não demonstrava atração por ele. Talvez houvesse outro tipo de interesse… pela fama, pela posição social.

Amanda assentiu em silêncio.

O investigador pediu que Amanda aguardasse do lado de fora. Precisava ouvir Larissa a sós.

Ao cruzarem na porta, Amanda sentiu o impacto do olhar da mulher — frio, calculado, quase indiferente. Não havia ali dor verdadeira, apenas impaciência.

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