Mundo de ficçãoIniciar sessão
Amanda foi à festa na praia naquela noite com a amiga Anabela. A areia ainda guardava o calor do dia, e a música ecoava baixa entre risadas e o som constante das ondas quebrando perto do cais. O vento salgado bagunçava seus cabelos enquanto luzes coloridas refletiam no mar escuro.
Ao longe, um navio imponente se aproximava da costa. As luzes da embarcação cortavam a escuridão, e logo o casco tocou o cais com um som grave. Alguns passageiros começaram a descer, conversando animados. Foi então que ela o viu. O capitão surgiu no topo da escada, postura firme, uniforme impecável. Mesmo à distância, havia algo nele que prendia o olhar. O coração de Amanda acelerou sem aviso, e ela precisou engolir em seco. — Amiga… acho melhor eu ir — disse, ainda observando o navio. — Amanhã eu pego cedo no trabalho. Anabela riu, segurando o copo. — Vai mesmo perder a melhor parte da noite? Eu vou ficar mais um pouco. Amanda sorriu de leve, mas antes de virar as costas, lançou um último olhar para o capitão, sem saber que aquele encontro distante mudaria muito mais do que apenas aquela noite. Cristina estava estendida no sofá da sala, o corpo encolhido de lado, uma bolsa de água quente apoiada sobre o ventre. A cortina branca ondulava suavemente com a brisa que entrava da janela, trazendo o ruído distante dos carros da capital e o cheiro morno do fim de tarde. Josefa sentava-se na poltrona ao lado, a xícara de chá fumegante entre as mãos, observando a sobrinha com atenção silenciosa. — Eu estou com medo, tia… — disse Cristina, a voz baixa, quase frágil. — Sinto que alguma coisa pode acontecer nessa viagem do Rubens. A mão dela apertou levemente a bolsa quente, como se tentasse conter não apenas a dor física, mas a inquietação que insistia em crescer no peito. Josefa levou a xícara aos lábios antes de responder, escolhendo as palavras. — Rubens sempre foi um tanto… mulherengo — disse, com cautela. — Se não fosse filho da minha amiga Vitória, herdeiro de uma grande fortuna… — fez um gesto vago no ar. — Bem, quem realmente segura os negócios é o irmão mais novo, o Gabriel. Cristina fechou os olhos por um instante. — Minha querida — continuou Josefa, com um suspiro —, você sempre vai viver com esse receio se decidir seguir a vida ao lado do Rubens. — Mas eu aguentei desde a adolescência — rebateu Cristina, abrindo os olhos, agora firmes. — Não é agora que vou desistir. Ele me deu a entender que vai oficializar nosso noivado quando voltar. Josefa apenas sorriu de lado, um sorriso curto, carregado de descrença e experiência. O silêncio que se instalou na sala disse mais do que qualquer resposta. No dia seguinte, o hotel ainda despertava lentamente. O cheiro de produto de limpeza misturava-se ao café vindo da cozinha, enquanto carrinhos de serviço deslizavam pelos corredores longos e silenciosos. Amanda e Ana Bela limpavam juntas, empurrando os baldes e conversando em voz baixa, como quem divide segredos para espantar a rotina. — Foi tão bom, Amanda… — começou Ana Bela, com os olhos brilhando. — Deu uma química inexplicável. Ele é lindo, gentil… e vamos nos encontrar de novo hoje. Quero que você venha comigo. Vai ser no navio, você precisa ir. Amanda sorriu de canto, continuando a passar o pano. — Quem sabe… — respondeu, antes de suspirar. — Eu também estou tendo problemas. Uma hóspede anda morrendo de ciúmes de mim com o marido dela. O cantor Ernani. Ana Bela parou o carrinho na hora. — O quê? Agora você vai ter que me contar tudo, em detalhes. Amanda respirou fundo, como quem volta no tempo. Ernani havia se hospedado no Porto Celeste para descansar. Como outros famosos que passavam por ali, buscava discrição, embora alguns hóspedes o reconhecessem. Ainda assim, era sempre gentil — com funcionários, fãs contidos, qualquer pessoa que cruzasse seu caminho. A primeira conversa aconteceu numa tarde abafada. O ar parecia pesado, impregnado de perfume caro e bebida derramada da pequena festa da noite anterior. Amanda varria a sala, e o chão ainda grudava sob a vassoura. Ernani saiu do quarto em silêncio. A esposa não percebeu. Estava ao telefone, perto da janela, a voz baixa, mas clara demais para quem estava por perto. — Eu sei… Ernani é desprovido de beleza, amiga — dizia Larissa, sem nenhum pudor. — Mas não é culpa dele, coitado. Amanda sentiu o estômago se revirar. Parou a vassoura por um segundo. — Que coisa chata de se ouvir… — comentou, quase sem pensar, olhando para ele. Os dois trocaram um olhar rápido. Ernani pareceu constrangido. Coçou a nuca, tentando sorrir. — É apenas a verdade — respondeu, num tom resignado. — Não se desvalorize — disse Amanda, retomando o movimento da vassoura. — O senhor deveria se respeitar mais. Ele sorriu de leve. Um sorriso simples, quase tímido. Naquele instante, Amanda percebeu que havia algo bonito ali — não no rosto, mas na forma como ele tentava esconder a dor. — Então foi assim… — concluiu Amanda, voltando ao presente. Ana Bela cruzou os braços, pensativa. — Não me surpreende ele ter se afeiçoado a você — disse. — Vejo que sempre pede para você levar as coisas pra ele. Homem sensível percebe quando alguém o enxerga de verdade. Amanda apenas deu de ombros, mas o rubor em seu rosto a denunciava.






