Amanda contrada Cap 8

Amanda já havia cumprimentado alguns vizinhos mais próximos quando conheceu Selma. Ela era uma mulher introvertida, de cabelos pretos lisos que caíam alinhados sobre os ombros, olhos castanhos atentos e um sorriso inesperadamente contagiante. Apesar da timidez inicial, Selma logo puxou conversa, demonstrando um desejo genuíno de amizade. Contou sobre seus romances mal-sucedidos, sempre interrompidos por desencontros e promessas vazias, e falou também de sua profissão como atriz. Tinha apenas vinte e cinco anos, mas carregava no olhar uma mistura de esperança e cansaço.

Sentadas na varanda do pequeno apartamento, as duas observavam as luzes da cidade piscando ao longe, enquanto uma brisa suave amenizava o calor da noite. Amanda comia uma fatia de bolo simples, servida em um prato vermelho, sentindo o cheiro de café recém-passado ainda no ar.

— Acho a profissão de atriz muito legal — comentou Amanda, animada. — Deve ser incrível viver tantas vidas diferentes. Se eu fosse atriz, gostaria de interpretar uma vilã… parece libertador.

Selma riu de leve, mas logo deixou transparecer um certo desapontamento.

— Também acho. Mas, para ser sincera, eu queria mesmo interpretar a mocinha da história. Só me chamam para papéis pequenos, coadjuvantes… — suspirou.

— Não desanima — disse Amanda, com um sorriso sincero. — Todo mundo começa de algum lugar.

— Você tem razão. Amanhã vou fazer uma audição. Preciso acreditar mais em mim. — O sorriso voltou, ainda que tímido.

Amanda contou que também tinha um compromisso importante no dia seguinte: uma entrevista de trabalho. As duas se desejaram boa sorte, como se aquele pequeno gesto fosse um pacto silencioso de novos começos.

Na manhã seguinte, Amanda se arrumou com cuidado. Vestia uma blusa branca de botões, bem passada, e uma calça de pano preta que lhe dava um ar elegante. Usava brincos de argola média, o cabelo preso em um coque simples e uma maquiagem leve, destacando apenas os olhos. Ao se olhar no espelho, respirou fundo. Pela primeira vez em muito tempo, gostou do que viu.

— Estou profissional — murmurou para si mesma, abrindo um sorriso confiante.

Pegou a bolsa preta e saiu de casa cedo, com o coração acelerado.

A empresa de atendimento e investimentos internacionais impressionava logo de longe: um prédio alto, moderno, revestido por enormes vidros azulados que refletiam o céu da manhã. O movimento de pessoas entrando e saindo transmitia uma sensação de importância e dinamismo.

Assim que se aproximou da entrada, Amanda reconheceu o homem que havia encontrado no parque dias antes. Ele estava parado próximo à porta, vestindo um terno azul-petróleo perfeitamente alinhado. Ao vê-la, ergueu o olhar e falou com voz firme:

— Bom dia. Poderia me dizer o motivo de estar aqui?

O tom grave e a postura segura fizeram Amanda perceber imediatamente que ele ocupava um cargo alto. Havia algo nele que impunha respeito — e, ao mesmo tempo, despertava uma curiosidade involuntária.

— Eu vim para uma entrevista — respondeu, tentando soar natural.

Gabriel a observou por um instante a mais do que o necessário. Pensou, quase com surpresa, que Rubens estava envolvido com uma mulher muito atraente.

— Meu irmão comentou que você viria — disse por fim. — Deve falar com Susana, do RH, para entregar seu currículo. Muito prazer, Gabriel Guimarães. Sou o presidente da empresa.

Ele estendeu a mão. Amanda ficou visivelmente surpresa com a revelação, mas retribuiu o gesto. O aperto de mão foi firme; ela sentiu o contraste entre a força dele e a maciez da própria pele, o que a deixou estranhamente consciente daquele breve contato.

Entraram juntos no prédio. O saguão amplo tinha piso de mármore claro, iluminação suave e o som discreto de teclados e telefones ao fundo. Gabriel cumprimentou Brenda, a recepcionista, com naturalidade, e Amanda fez o mesmo, sentindo-se pequena naquele ambiente sofisticado.

— Venha comigo — convidou ele, entrando no elevador.

O espaço fechado intensificou o nervosismo de Amanda. O perfume discreto de Gabriel, a proximidade e o silêncio pontuado apenas pelo som do elevador subindo deixaram o ar carregado de uma tensão silenciosa.

— Como conheceu meu irmão? — perguntou ele, casualmente.

Amanda contou brevemente sua história. Gabriel percebeu que ela não sabia nada sobre Cristina, e essa constatação ficou registrada em sua mente.

Quando chegaram ao andar principal, Amanda se impressionou com o ambiente: dezenas de funcionários concentrados em suas mesas, telas acesas, vozes baixas atendendo clientes. Todos demonstravam respeito ao notar a presença do presidente.

— Carlos — chamou Gabriel.

Um homem moreno, vestindo terno bege e camisa branca, aproximou-se prontamente.

— Leve a Amanda até a Susana, por favor.

Antes de seguir para sua sala, Gabriel olhou novamente para Amanda.

— Espero que sejamos colegas.

Ela engoliu em seco.

— Espero que exista alguma vaga para mim — respondeu, nervosa.

— Vai existir — garantiu Carlos, com um sorriso tranquilizador.

Susana a recebeu com cordialidade. Já havia sido orientada por Gabriel a contratá-la inicialmente para serviços gerais, como uma forma de avaliar seu desempenho. Amanda respondeu ao formulário, passou pela entrevista e, ao final, ouviu as palavras que tanto esperava:

— Você está contratada.

Ela teria que levar cópias dos documentos, mas já poderia começar nos próximos dias para se familiarizar com o trabalho.

Amanda não conseguiu conter a alegria. Um sorriso largo tomou conta de seu rosto, misturando alívio, esperança e a sensação de que aquele era apenas o primeiro passo de algo muito maior — inclusive em relação a Gabriel, cuja presença continuava ecoando em seus pensamentos.

Amanda se situava aos poucos no ambiente de trabalho. Andrea não lhe dava trégua: pediu que imprimisse documentos, pagasse boletos, verificasse e-mails e organizasse os pedidos de consumo da empresa — tudo devidamente acompanhado de nota fiscal.

A impressora trabalhava sem descanso, soltando folhas ainda mornas, enquanto o cheiro de papel e tinta misturava-se ao ar-condicionado do escritório.

— Sempre tem uma coisinha para fazer, sabe? — comentou Andrea quando as duas se encontraram perto da cafeteira. O café recém-passado exalava um aroma forte, e ao lado havia um pote de biscoitos amanteigados. — Na gestão do presidente Gabriel, a empresa está crescendo num ritmo impressionante.

Amanda segurou a xícara com as duas mãos, sentindo o calor reconfortante.

— Isso é ótimo… estou pronta para aprender tudo — disse, com o olhar brilhando de entusiasmo.

Andrea a observou por um instante antes de sorrir.

— Você já sabe bastante coisa. Não teve dificuldade nenhuma com o computador. Com esforço, pode chegar longe aqui.

Aquelas palavras ficaram ecoando na mente de Amanda durante todo o dia.

À tarde, ao chegar em casa, tomou um banho demorado, deixando a água quente aliviar o cansaço nos ombros. Vestiu uma roupa confortável e ligou para Ana Bela.

— Parabéns! — disse a amiga, a voz carregada de alegria. — Fico muito feliz por você.

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