Mundo de ficçãoIniciar sessãoNo outro dia a tarde, Rubens passava um tempo com o pai no quintal da casa. O sol começava a descer, dourando o gramado perfeitamente aparado onde os dois jogavam golfe em silêncio, quebrado apenas pelo som seco do taco atingindo a bola.
Rubens respirou fundo antes de falar. — Pai… você acha que teria alguma vaga na empresa para uma amiga minha? O homem apoiou o taco no chão, pensativo. — Bem, quem cuida da gestão é o seu irmão. Vou falar com ele. Ele saberá onde encaixá-la. Rubens agradeceu, mas um incômodo se instalou. Dever um favor a Gabriel nunca lhe pareceu algo simples. A noite, já próximo do jantar, Gabriel chegou. O som da porta se fechando ecoou pela casa silenciosa. Rubens observou o irmão afrouxar a gravata com impaciência, como se a empresa nunca saísse de seus ombros. — Boa noite, irmão. — disse Gabriel, sentando-se na poltrona branca da sala. — Está com cara de quem quer me pedir algo. — Falei com o nosso pai sobre uma vaga na empresa… para uma amiga minha. Gabriel cruzou as pernas, avaliando. — Preciso ver o currículo, entender onde ela se encaixa. Em seguida, como se mudasse de assunto com facilidade: — Que tal uma partida no clube hoje? Combinei com os amigos, mas o Ronaldo furou. Rubens aceitou, surpreso. Gabriel mal havia chegado e já parecia incapaz de ficar parado. No dia seguinte, Rubens ligou para Amanda. Assim que deu a notícia, percebeu na hora a alegria na voz dela — clara, leve, quase emocionada. — Obrigada… isso vai me ajudar muito. — disse ela. Rubens percebeu que o seu coração acelerou só de ouvi-la novamente, e isso o assustou mais do que gostaria de admitir. — Quando chegar, ligue para este número. Eu explico tudo — disse Rubens. — Ela anotou o número no caderninho de notas que tinha. Na manhã seguinte, Amanda já se preparava para a viagem: calça jeans azul, blusa rosa clara, um salto confortável e o cabelo preso num rabo de cavalo simples. Antes de partir, Amanda se despediu mais uma vez de Marina e Ana Bela. Havia um misto de saudade e expectativa no ar. A viagem foi tranquila. Pela janela do ônibus, Amanda observava os prédios se multiplicarem à medida que a capital surgia. Ao descer na rodoviária, pegou um táxi e seguiu para o bairro que havia escolhido — um prédio simples, bem localizado, perfeito para quem começava sozinha. O apartamento era arejado. Ela abriu a janela e deixou o vento entrar, observando a vista da varanda com pequenos varais. A cozinha se separava da sala por uma divisória discreta; no quarto, uma cama de solteiro e um guarda-roupa a esperavam. À tarde, saiu para comprar mantimentos e conhecer os arredores. Tudo tinha cheiro de começo. À noite, depois de preparar uma macarronada simples, ligou para Rubens. Ele atendeu no quarto. Não percebeu quando Cristina, desconfiada, saiu para o corredor e pegou o telefone da casa. Em silêncio, ouviu a conversa. Rubens sugeriu que se encontrassem naquela noite. Amanda recusou — estava exausta. No dia seguinte, porém, seria perfeito. O sangue de Cristina ferveu. Ardilosa, deixou o telefone no lugar e voltou para o quarto. Aproximou-se de Rubens com doçura calculada, decidida a reafirmar seu espaço. Naquela noite, ela não queria amor — queria posse. No final de semana, Amanda saiu cedo para visitar o parque. O sol ainda estava suave, mas o calor já se anunciava no ar. Pessoas corriam pela pista de terra batida, outras caminhavam despreocupadas, algumas conversavam sentadas na grama. O cheiro de folhas molhadas misturava-se ao perfume leve de protetor solar. Depois de caminhar um pouco, ela parou diante do bebedouro. Inclinou-se para beber água quando percebeu a presença de um homem ao lado. Ele tinha cabelos pretos, cortados de forma simples, e olhos castanhos intensos, daqueles que pareciam observar mais do que deviam. — Por favor, pode beber primeiro — disse Amanda, notando que ele estava ofegante. O dia estava quente, mesmo tão cedo. Gabriel a olhou por um instante, surpreso com a gentileza. Sem hesitar, bebeu a água, passando a mão pela nuca ao terminar. — Obrigado — respondeu, com a voz firme, antes de voltar a correr, agora em um ritmo mais lento. Amanda o acompanhou com o olhar por alguns segundos, sem entender exatamente o motivo daquele breve encontro ter lhe causado uma estranha curiosidade. Ela passou o resto da manhã e parte da tarde explorando a cidade, absorvendo tudo como quem tenta criar raízes em um lugar novo. Ao voltar para casa, tomou um banho demorado, deixando a água quente aliviar o cansaço, e depois se jogou na cama para descansar. Mais tarde, ligou para Ana Bela, contando sobre o parque, as ruas movimentadas, a sensação de recomeço. — Eu também quero ir para a capital… ver o Otávio — disse Ana Bela, suspirando. Ao fundo, Amanda ouviu a voz de Marisa aconselhando calma, dizendo que algumas coisas não deveriam ser apressadas. Pouco depois de desligar, o telefone tocou novamente. Era Rubens. Ele explicou, com certa hesitação, que havia combinado uma saída com amigos e que ele não poderia recusar. O encontro daquela noite estava desmarcado. — Me desculpa… surgiu um compromisso — disse, a voz soando frustrada. — Tudo bem, eu entendo — respondeu Amanda, enrolando distraidamente o fio do telefone no dedo. — Mas amanhã, se quiser, podemos tomar um café. Tem uma cafeteria perto daqui. — Vamos sim. Sem falta — respondeu Rubens, aliviado.






