Mundo ficciónIniciar sesiónAlguns minutos depois, Larissa saiu sem dizer palavra. O salto ecoou pelo corredor da delegacia antes de desaparecer.
— Pode entrar novamente — chamou o investigador. Amanda voltou a se sentar. A cadeira era dura, o ambiente abafado. O ventilador no canto apenas empurrava o ar quente de um lado para o outro. — Senhorita Amanda — começou ele, num tom controlado — a esposa da vítima afirmou que viu a senhora levando a garrafa que o senhor Ernani bebeu naquela noite. Disse também que ele buscava pretextos frequentes para conversar com você. Isso lhe causava incômodo… ou a senhora estava envolvida com alguém que desejava o mal dele? O coração de Amanda acelerou. — Sim, eu levei a garrafa — respondeu com a voz baixa, mas firme. — Fazia parte do meu trabalho. Mas eu não o envenenei. Há muito mais por trás disso. Todos no hotel precisam ser investigados. Sentiu o peso da própria condição. A corda sempre arrebenta do lado mais fraco. Lembrou-se de Ernani pedindo que subisse com água, café, qualquer coisa. Comentava como era fácil conversar com ela, nada além disso. — Não se preocupe — disse o investigador, anotando algo. — Vamos ouvir todos. Agora, me fale sobre o amigo que esteve na festa. — Renato — respondeu Amanda. — Também cantor. Tinha uma postura… arrogante. Hesitou antes de continuar. — Vi algo que não me agradou. Certos olhares entre ele e a senhora Larissa. O investigador anotou no caderninho sem demonstrar reação. — Entendo. Vou chamá-lo para depor, assim como os demais funcionários do hotel. Por enquanto, a senhora está liberada. Pode ir para casa. Amanda se levantou com as pernas trêmulas, sem saber se aquilo era alívio… ou apenas o começo. À noite, Amanda estava sentada na varanda da pequena casa que havia alugado. O ar trazia o cheiro salgado do mar, e o som das ondas chegava suave, ritmado, como se tentasse acalmá-la. À distância, as luzes de um navio turístico recortavam o escuro, refletindo-se na água como estrelas desalinhadas, gostava da vista. Na manhã seguinte, Amanda preparou um omelete simples. O cheiro do ovo quente misturado ao café recém-passado enchia a pequena cozinha, mas não despertava fome alguma. Comeu devagar, quase por obrigação. O rádio, esquecido sobre a pia, interrompeu o silêncio com uma notícia curta e seca: o corpo do cantor Ernani havia sido levado para sua cidade natal, onde aconteceria o enterro. Amanda parou com o garfo suspenso no ar. Um nó se formou em sua garganta. As lágrimas vieram sem aviso, escorrendo quentes pelo rosto. Não poderia se despedir dele. Aquela ausência — mais uma — pesava como uma injustiça silenciosa. Horas depois, no hotel, o cheiro conhecido de produtos de limpeza e o som abafado dos carrinhos de serviço não trouxeram o conforto habitual. Quando seu chefe pediu que fosse até a sala, o coração de Amanda já pressentia algo errado. O senhor Gusman estava sentado atrás da mesa. A foto da família — a esposa sorridente e os filhos alinhados — contrastava com o ambiente pesado. Ele ajeitou os papéis, evitando encará-la. — Amanda… eu sinto muito. Recebi ordens para encerrar o seu contrato. As palavras caíram como um golpe. O peito dela se apertou. — Por quê? — a voz saiu trêmula. — Foi por causa do incidente? Aquilo poderia ter acontecido com qualquer camareira… — Eu disse o mesmo — respondeu ele, em tom baixo. — Mas a decisão veio de cima. Amanda respirou fundo. Os olhos marejados ardiam. Assinou os papéis com a mão levemente trêmula, sentindo o peso da injustiça. Saiu da sala em silêncio e se refugiou no banheiro dos funcionários. Ali, o eco do ambiente vazio ampliava seus pensamentos. Tudo parecia acontecer ao mesmo tempo: a morte, a perda do trabalho, a sensação de estar sendo esmagada por algo que não controlava. Lavou o rosto e encarou o próprio reflexo no espelho grande, tentando recompor-se. Foi então que Solange entrou apressada. — Amanda… que situação horrível. — ela hesitou. — Encontrei isso na recepção hoje cedo… é pra você. O envelope já estava aberto. Amanda percebeu, mas não comentou. Pegou o bilhete e leu. As palavras eram venenosas. A acusação injusta queimava mais do que a demissão. — Ordinária… — murmurou, amassando o papel com raiva contida. Solange se assustou com a mudança repentina no tom. Pouco depois, Amanda foi até o armário, guardou seus pertences e se preparou para ir embora. No corredor, encontrou Ana Bela correndo em sua direção. — Não acredito… ficar sem você aqui — disse, abraçando-a com força. — Obrigada — respondeu Amanda, com a voz embargada. Outros funcionários se aproximaram, alguns em silêncio, outros com palavras de apoio. Nem todos estavam presentes; alguns haviam sido chamados para depor. Ainda assim, Amanda sentiu que deixava para trás mais do que um emprego. Dois dias se passaram depois daquilo. Amanda quase não saiu de casa. As horas pareciam longas demais, silenciosas demais. Decidiu se inscrever em um curso por correspondência — precisava ocupar a mente, sentir que ainda avançava em alguma direção. Não tinha pressa em arrumar outro emprego; suas economias lhe garantiam algum tempo. Ainda assim, a tristeza era insistente, pesada, e o desejo de ficar sozinha parecia a única coisa que fazia sentido. À noite, o telefone tocou, quebrando o silêncio da casa como um sobressalto. Era Ana Bela. — Vem espairecer um pouco comigo — insistiu a amiga. — O Otávio me convidou pra sair… o navio vai zarpar daqui a pouco. Amanda caminhou até a janela enquanto ouvia. A rua estava quase vazia, iluminada por poucos postes. Um arrepio lhe percorreu a espinha — uma sensação estranha, incômoda, como se estivesse sendo observada. Olhou em volta, mas não viu ninguém. — Acho que não estou no clima… — respondeu, enrolando distraidamente o fio do telefone no dedo. — É tanta coisa ruim acontecendo. — Justamente por isso você precisa sair — rebateu Ana Bela, firme. — Ficar sozinha agora não vai te fazer bem. Amanda fechou os olhos por um instante. Respirou fundo. Depois de alguns segundos, cedeu. Escolheu um vestido azul de alças finas, leve, que se movia suavemente com o vento, e prendeu o cabelo em um coque frouxo, deixando alguns fios escaparem de propósito. Ao se olhar no espelho, parecia outra — menos abatida, mais presente. Enquanto se arrumava, pensou que talvez aquela fosse uma oportunidade única: entrar em um navio turístico não como funcionária, mas como passageira.






