Mundo de ficçãoIniciar sessãoNa Costa Serena, Amanda foi chamada mais uma vez para depor naquela manhã. O ambiente da delegacia era frio, cheirava a café requentado e papel velho. Depois do depoimento, o investigador pediu que aguardasse do lado de fora.
Enquanto esperava, viu um funcionário do bar entrar, seguido mais tarde por uma amiga de Larissa. O vai-e-vem só reforçava a sensação de que tudo, enfim, estava se encaixando. Amanda mantinha-se confiante. No fundo, sentia que a verdade estava perto. Não se enganava. Pouco tempo depois, o investigador saiu da sala com a expressão serena de sempre. — Eles foram presos — disse, simplesmente. Amanda piscou, surpresa. — Presos… já? Ele assentiu e ofereceu-lhe carona. O carro cor de creme estava limpo, bem cuidado, com um leve cheiro de couro aquecido pelo sol. Ele usava óculos escuros, apesar da luz fraca do fim de tarde, e falava num tom calmo enquanto ligava o rádio, de onde saía uma música lenta, antiga. — Já temos indícios sólidos sobre o responsável — explicou. — E posso te contar quem é. — Pelo menos uma notícia boa hoje — disse Amanda, esboçando um sorriso cansado. — Quem foi? — Não foi a Larissa — respondeu. — E sim o amante dela e amigo de Ernani. Um homem tomado pelo ressentimento. Perdeu contratos quando Ernani assumiu o lugar que ele acreditava ser seu. Somou-se a isso a falência financeira… e ele decidiu culpar o outro por tudo, Renato. Amanda sentiu um aperto no peito. — Ernani morreu por inveja? — murmurou. — Por egoísmo? — Infelizmente, sim — confirmou o investigador. — Já vi de tudo nesses anos de carreira. Durante o trajeto, ele perguntou o que Amanda pretendia fazer dali para frente. Ela contou sobre a viagem, sobre deixar a cidade. Ele pareceu discretamente desapontado, mas não comentou. Ao chegarem perto da casa dela, Amanda agradeceu e abriu a porta, mas foi interrompida. — Antes de ir… — disse ele. — Pode me chamar pelo nome. É Jonas. Amanda riu, surpresa. — Obrigada pela carona, Jonas. Ele sorriu de leve, observando enquanto ela descia do carro. Na manhã seguinte, Rubens ainda dormia quando ouviu a porta do quarto se abrir. O cheiro suave de perfume cítrico chegou antes do toque. Cristina aproximou-se da cama e o acordou com beijos leves na bochecha. — O que é isso, Cristina? — murmurou ele, abrindo os olhos com esforço. — Precisava me acordar tão cedo? Ela riu, sentando-se na beira da cama. — São oito e meia — respondeu, sorridente. — Eu não aguentava mais de saudade de você. Cristina tinha os cabelos longos, caindo em cachos pequenos e definidos, olhos verdes expressivos e sobrancelhas grossas que marcavam o rosto bonito. Vestia um macacão azul-marinho que realçava sua elegância natural. Rubens retribuiu o gesto com um beijo rápido na bochecha. Cristina era linda, e ele não negava a si mesmo a atração que sentia por ela — talvez fosse por isso que mantinha aquele relacionamento, mesmo sabendo que não era simples. Cristina, por sua vez, conhecia bem o espírito aventureiro de Rubens. Sabia das outras mulheres, dos desvios, das ausências. Ainda assim, sustentava a convicção de que era ela quem ocupava o lugar oficial. E pretendia seguir firme até o casamento. — Vou descer para você se arrumar — disse ela, inclinando-se perto do ouvido dele, a voz doce. — A gente se encontra lá embaixo. Na sala de jantar, a luz da manhã entrava ampla pelas janelas. A tia Josefa, de cabelos curtos tingidos de vermelho, vestia um vestido branco rendado e sapatos bege. Ao seu lado, Vitória — elegante como sempre — já tomava suco de laranja. As duas conversavam animadas. — Então… como foi o reencontro? — perguntou Vitória, com um sorriso cheio de expectativa. — Maravilhoso, tia — respondeu Cristina, sentando-se à mesa posta com porcelanas claras e copos de vidro reluzentes. — Rubens só reclamou do horário… estava um pouco rabugento. Pouco depois, Rubens se juntou a elas. O cheiro de café fresco, pães quentes e frutas cortadas preenchia o ambiente. Josefa sugeriu um passeio. — Que tal o parque botânico? O dia está lindo. Vitória se animou na hora. As duas senhoras trocavam olhares discretos, torcendo para que aquele momento aproximasse ainda mais os dois. No caminho, porém, Rubens e Cristina se afastaram do grupo, prometendo reencontrá-las mais tarde. Cristina segurava a mão dele enquanto caminhavam. O parque era amplo, verde, com árvores altas e sombras frescas. O canto distante dos pássaros e o som suave da água criavam um clima quase romântico. Ainda assim, ela percebeu que Rubens, em alguns momentos, parecia distante — o olhar perdido, a atenção dispersa. Parou de repente, puxando-o suavemente para debaixo de uma árvore frondosa, e o beijou demoradamente. — Às vezes parece que sua cabeça está em outro lugar — disse, sorrindo depois do beijo. — Quero que ela fique aqui… comigo. À noite, Amanda estava na casa de Ana Bela. Ficaria ali aquela noite. As duas estavam sentadas na sala, com as pernas esticadas, fazendo as unhas uma da outra. O cheiro forte do esmalte se misturava ao som baixo da televisão ligada ao fundo. Ana Bela parecia mais quieta do que o habitual. — Otávio voltou para a capital — comentou, enquanto Amanda passava o esmalte vermelho com cuidado. — Ele disse que em breve vai me buscar para apresentar à família… mas estou com medo, sabe? Havia entusiasmo em sua voz, misturado a uma insegurança difícil de esconder. — Ele já ligou hoje? — perguntou Amanda, sem levantar os olhos. — Sim. Conversamos por um bom tempo — respondeu Ana Bela, sorrindo de lado, com um brilho tímido no olhar. Depois de um instante, Ana Bela perguntou: — E o Rubens? Ele ligou? Amanda balançou a cabeça. — Não… mas espero que ele se lembre da ajuda que me prometeu, sobre o emprego. Ana Bela arqueou a sobrancelha, desconfiada. — É só isso mesmo que você espera? Amanda suspirou, concentrando-se na última camada de esmalte. — É sim. Não invente coisas. O que tive com ele foi bom, mas Rubens não me prometeu compromisso algum. Então… não temos nada. Ainda assim, a lembrança da última noite juntos insistia em permanecer, silenciosa, no fundo de seus pensamentos.






