Encontro com Rubens Cap 3

Quando Amanda chegou ao cais, o som do mar misturava-se às vozes animadas, ao rangido das cordas e à música que escapava do interior do navio. O cheiro salgado do oceano se misturava ao perfume das pessoas que aguardavam para embarcar. Tudo parecia em movimento — água, luzes, expectativas.

— Que bom que você veio — disse Ana Bela, apertando a mão de Amanda com entusiasmo genuíno. — Esse é Otávio Fernandes.

— Prazer — respondeu Amanda, sorrindo com educação, ainda absorvendo o ambiente ao redor.

Ao subirem a bordo, a mudança foi imediata. Luzes quentes refletiam no piso polido, criando desenhos dourados. A música suave preenchia o ar, entrelaçando-se ao tilintar de copos e às risadas leves. Pessoas bem-vestidas circulavam pelo salão com a naturalidade de quem estava ali apenas para se divertir. Perfumes caros, tecidos finos, conversas despreocupadas — um mundo distante da realidade que Amanda conhecia.

Sentaram-se à mesa, e Otávio pediu os drinks.

Foi então que o estômago de Amanda se contraiu.

Em outra mesa, Larissa ria ao lado de Renato, amigo de Ernani. O riso era exagerado demais, íntimo demais. Amanda sentiu o corpo enrijecer. Sempre desconfiara de algo entre os dois — e agora, ali, a suspeita ganhava forma.

— Que coincidência ruim… — murmurou, quase para si mesma.

— Calma — disse Ana Bela, apertando-lhe a mão por baixo da mesa. — Finja que não viu. Eu te trouxe pra relaxar, lembra?

— Impossível — sussurrou Amanda, a voz carregada de amargura. — Ela me mandou um bilhete no dia em que fui demitida. Foi por causa dela que perdi o emprego.

Ana Bela arregalou os olhos, indignada.

— Não acredito… dá vontade de aprontar uma com essa mulher.

Antes que Amanda respondesse, uma presença se impôs ao lado da mesa.

Bronzeado, cabelos loiros levemente ondulados, olhos azuis de um tom intenso e calmo. Vestia camisa branca de mangas dobradas e calça bege. Havia nele uma segurança tranquila, quase silenciosa — o tipo de homem que não precisava se exibir para ser notado.

— Otávio, acompanhado de duas belas damas e não me apresenta? — brincou, com um sorriso fácil.

— Essa é Ana Bela — disse Otávio. — Já te falei dela. E essa é a amiga dela, Amanda.

— Prazer. Sou Rubens — disse ele, olhando diretamente para Amanda. — Capitão deste navio.

O sorriso dele era aberto, quase contagiante, mas havia algo atento em seu olhar, como se observasse além da superfície.

— Que tal um tour especial? — sugeriu, num tom casual, como se aquilo fosse algo simples.

Eles aceitaram.

Rubens os conduziu até uma sala de paredes inteiramente de vidro. Do outro lado, o oceano se revelava vivo e profundo. Peixes cruzavam lentamente o espaço, refletindo as luzes azuladas que ondulavam com o movimento da água. O mundo exterior parecia distante, silencioso, quase suspenso no tempo.

Amanda ficou em silêncio.

O som abafado do navio, o balanço suave sob os pés, a visão hipnotizante do mar — tudo parecia dissolver, pouco a pouco, a tensão que carregava desde a manhã.

— Gostou? — perguntou Rubens, aproximando-se apenas o suficiente para ser notado.

— Muito — respondeu ela, com sinceridade. — O oceano é… hipnotizante.

Por um instante, desviou o olhar dos peixes e encontrou o azul intenso dos olhos dele.

Amanda sabia reconhecer homens como Rubens: seguros, charmosos, acostumados a atrair atenção — homens que geralmente buscavam apenas diversão. Ainda assim, manteve-se discreta e educada.

Pela conversa, ficou claro que vinham de mundos diferentes. Aos vinte e oito anos, Rubens era capitão por paixão pelo mar — e também herdeiro de uma fortuna que não precisava ostentar.

E talvez fosse exatamente isso que o tornava perigoso.

A refeição foi servida.

Sabores marítimos, peixe fresco temperado com ervas, vinho leve que descia macio pela garganta. O cheiro salgado do mar misturava-se ao aroma da comida, enquanto o balanço suave do navio embalava o ambiente como uma canção lenta. As conversas seguiam tranquilas, entre risos baixos e comentários casuais.

Nada apagava completamente o peso do que acontecera naquele dia, mas havia ali um alívio — breve, necessário.

Na manhã seguinte, o telefone tocou cedo, interrompendo o silêncio da casa antes mesmo de Amanda terminar o café.

Era Marisa.

Queria que ela a ajudasse a vender croquetes na praia.

Pouco depois, Amanda vestiu uma canga branca, leve, que ondulava contra as pernas, e colocou um chapéu médio de palha, já gasto pelo sol e pelo tempo. O ar da manhã ainda estava fresco, trazendo consigo o cheiro de maresia misturado a protetor solar. O som distante das ondas se misturava às vozes dos primeiros banhistas, criando um cenário simples e familiar.

— O que você pretende fazer agora, minha Amanda? — perguntou Marisa, enquanto organizava a caixa de isopor. — Ana Bela me contou da demissão… quer que eu te ajude a arrumar um emprego?

O olhar dela era genuinamente preocupado.

Marisa conhecera a mãe de Amanda quando ela ainda era viva. Entre as duas havia se formado um afeto antigo, quase maternal, que o tempo nunca conseguiu desfazer.

— Eu ainda tenho minhas economias — respondeu Amanda, ajustando a caixa com gelo e garrafas de suco de acerola. — Penso em ir para a capital. No hotel eu vivia bem, o salário era bom… mas talvez existam oportunidades melhores. Quem sabe trabalhar num escritório.

Enquanto falava, estendeu um copo gelado de suco a uma turista de sotaque estrangeiro, que sorriu agradecida. Marisa, ao lado, anunciava os croquetes ainda quentes; o cheiro da massa frita se espalhava pelo ar, atraindo olhares e passos curiosos.

Elas seguiram caminhando pela faixa de areia.

O sol começava a subir, aquecendo a pele, e o barulho das ondas quebrando se misturava ao riso de crianças, ao chamado dos vendedores e ao som distante de um rádio portátil tocando músicas antigas.

— E o romance, filha? — perguntou Marisa, depois de um instante de silêncio. — Na sua idade, sua mãe já tinha você.

Amanda demorou a responder.

— Sim… — disse, por fim. — Mas desde a morte do Eduardo… eu fiquei mais fechada. Já faz dois anos, eu sei, mas é difícil esquecer.

A voz falhou.

Eduardo fora seu namorado por quase três anos. Trabalhava na construção civil. O acidente acontecera de forma brusca, injusta — e tudo o que vinha acontecendo nos últimos dias, a demissão, as acusações, as perdas, parecia reabrir feridas que nunca cicatrizaram por completo.

Os olhos de Amanda se encheram de lágrimas.

— Não, minha filha… — disse Marisa, parando e segurando-lhe o braço com cuidado. — Não chore. Eu não queria te ver assim.

Amanda respirou fundo. O cheiro do mar invadiu-lhe os pulmões, salgado, forte, real. Secou as lágrimas com a ponta dos dedos, sem maquiagem para borrar.

— Está tudo bem — disse, mais para si mesma do que para Marisa. — Eu preciso me animar.

E seguiram.

No fim da manhã, o sol já estava alto, a areia quente sob os pés. Haviam vendido tudo. Marisa contou o dinheiro com calma e colocou uma parte na mão de Amanda.

— Pelo trabalho — disse, com um sorriso simples, carregado de carinho.

Amanda não recusou.

Aquele dinheiro não era apenas pagamento — era cuidado, acolhimento, uma pequena âncora num momento em que tudo em sua vida parecia instável.

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