Mundo de ficçãoIniciar sessãoÀ noite, o telefone tocou, quebrando o silêncio da casa como um sobressalto.
Era Ana Bela. — Vem espairecer um pouco comigo — insistiu a amiga. — O Otávio me convidou pra sair… o navio vai zarpar daqui a pouco. Amanda caminhou até a janela enquanto ouvia. A rua estava quase vazia, iluminada por poucos postes. Um arrepio lhe percorreu a espinha — uma sensação estranha, incômoda, como se estivesse sendo observada. Olhou em volta, mas não viu ninguém. — Acho que não estou no clima… — respondeu, enrolando distraidamente o fio do telefone no dedo. — É tanta coisa ruim acontecendo. — Justamente por isso você precisa sair — rebateu Ana Bela, firme. — Ficar sozinha agora não vai te fazer bem. Amanda fechou os olhos por um instante. Respirou fundo. Depois de alguns segundos, cedeu. Escolheu um vestido azul de alças finas, leve, que se movia suavemente com o vento, e prendeu o cabelo em um coque frouxo, deixando alguns fios escaparem de propósito. Ao se olhar no espelho, parecia outra — menos abatida, mais presente. Enquanto se arrumava, pensou que talvez aquela fosse uma oportunidade única: entrar em um navio turístico não como funcionária, mas como passageira. Quando chegou ao cais, o som do mar misturava-se às vozes animadas e à música que vinha do interior do navio. — Que bom que veio — disse Ana Bela, apertando sua mão com entusiasmo. — Esse é Otávio Fernandes. — Prazer — respondeu Amanda, sorrindo com educação. Ao subirem a bordo, o ambiente mudou por completo. Luzes quentes refletiam no piso polido, música suave preenchia o ar, risadas ecoavam entre o tilintar de copos. Pessoas bem-vestidas circulavam pelo salão, exalando perfumes caros e despreocupação. Sentaram-se à mesa, e Otávio pediu os drinks. Foi então que Amanda sentiu o estômago se contrair. Em outra mesa, Larissa estava sentada ao lado de Renato, rindo de algo que ele dizia. — Que coincidência ruim… — murmurou. — Calma — disse Ana Bela, segurando sua mão por baixo da mesa. — Finja que não viu. Eu te trouxe pra relaxar. — Impossível — sussurrou Amanda. — Ela me mandou um bilhete no dia em que fui demitida. Foi por causa dela que perdi o emprego. Ana Bela arregalou os olhos. — Não acredito… dá vontade de aprontar uma com essa mulher. Foi nesse instante que um homem se aproximou. Bronzeado, cabelos loiros levemente ondulados, olhos azuis intensos. Vestia camisa branca e calça bege. Havia nele uma segurança natural, tranquila, como alguém acostumado a comandar sem precisar levantar a voz. — Otávio, acompanhado de duas belas damas e não me apresenta? — brincou. — Essa é Ana Bela — disse Otávio. — Já te falei dela. E essa é a amiga dela, Amanda. — Prazer. Sou Rubens — disse ele, olhando diretamente para Amanda. — Capitão deste navio. O sorriso dele era aberto, fácil, quase contagiante. — Que tal um tour especial? — sugeriu. Eles aceitaram. Rubens os conduziu até uma sala de paredes de vidro. Do outro lado, o oceano se revelava vivo e profundo. Peixes cruzavam lentamente, iluminados por luzes azuladas que ondulavam junto com a água. Amanda ficou em silêncio. O som abafado do navio, a visão hipnotizante do mar, tudo parecia dissolver a tensão que carregava desde a manhã. — Gostou? — perguntou Rubens, aproximando-se um pouco. — Muito — respondeu ela, com sinceridade. — O oceano é… hipnotizante. Por um instante, deixou de observar os peixes e encarou o azul intenso dos olhos dele. Amanda sabia que homens como Rubens costumavam buscar apenas diversão. Ainda assim, manteve-se discreta e educada. Pela conversa, ficou claro que vinham de mundos diferentes: ele, aos vinte e oito anos, era capitão por paixão pelo mar — e também herdeiro de uma fortuna que não precisava ostentar. A refeição foi servida. Sabores marítimos, vinho leve, conversas tranquilas. O cheiro salgado do mar misturava-se ao da comida, e o balanço suave do navio embalava o ambiente. Nada apagou completamente o peso do que Amanda estava vivendo. Mas, pela primeira vez em dias, ela conseguiu respirar sem medo. Na manhã seguinte, o telefone tocou cedo, antes mesmo de Amanda terminar o café. Era Marisa. Queria que ela a ajudasse a vender croquetes na praia. Pouco depois, Amanda vestiu uma canga branca, leve, que ondulava contra as pernas, e colocou um chapéu médio de palha, já gasto pelo sol. O ar da manhã estava fresco, com cheiro de maresia e protetor solar, e o som distante das ondas se misturava às vozes dos primeiros banhistas. — O que você pretende fazer agora, minha Amanda? — perguntou Marisa, enquanto organizava a caixa de isopor. — Ana Bela me contou da demissão… quer que eu te ajude a arrumar um emprego? O olhar dela era genuinamente preocupado. Marisa conhecera a mãe de Amanda quando ela ainda era viva. Havia entre as duas um afeto antigo, quase familiar, que nunca se perdera. — Eu ainda tenho minhas economias — respondeu Amanda, ajustando a caixa com gelo e garrafas de suco de acerola. — Penso em ir para a capital. No hotel eu vivia bem, o salário era bom… mas talvez existam oportunidades melhores. Quem sabe trabalhar num escritório. Enquanto falava, ofereceu um copo gelado de suco a uma turista de sotaque estrangeiro, que sorriu agradecida. Marisa, ao lado, anunciava os croquetes ainda quentes, cujo cheiro de massa frita se espalhava no ar. Elas seguiram caminhando pela faixa de areia. O sol já começava a subir, aquecendo a pele, e o barulho das ondas quebrando se misturava ao riso de crianças e ao som distante de um rádio portátil tocando músicas da época. — E o romance, filha? — perguntou Marisa, depois de um instante. — Na sua idade, sua mãe já tinha você. Amanda demorou a responder. — Sim… — disse, por fim. — Mas desde a morte do Eduardo… eu fiquei mais fechada. Já faz dois anos, eu sei, mas é difícil esquecer. A voz falhou. Eduardo fora seu namorado por quase três anos. Trabalhava na construção civil. O acidente acontecera de forma brusca, injusta. Tudo o que vinha acontecendo nos últimos dias — a morte, a demissão, as acusações — parecia reabrir feridas antigas. Os olhos de Amanda se encheram de lágrimas. — Não, minha filha… — disse Marisa, parando e segurando-lhe o braço com cuidado. — Não chore. Eu não queria te ver assim. Amanda respirou fundo. O cheiro do mar invadiu-lhe os pulmões. Secou as lágrimas com a ponta dos dedos, sem maquiagem para borrar. — Está tudo bem — disse, mais para si mesma do que para Marisa. — Eu preciso me animar. E seguiram. No fim da manhã, o sol já estava forte, a areia quente sob os pés. Haviam vendido tudo. Marisa contou o dinheiro com calma e colocou uma parte na mão de Amanda. — Pelo trabalho — disse, com um sorriso simples. Amanda não recusou. Aquele dinheiro não era apenas pagamento — era cuidado, acolhimento, uma pequena âncora num momento em que tudo parecia instável.






