Mundo ficciónIniciar sesiónHelena nunca acreditou que um sobrenome pudesse pesar tanto. Mas Ferrentini pesava, pesava em cada olhar atravessado na balada onde trabalhava à noite. Pesava na forma como os homens ricos achavam que dinheiro comprava tudo. Naquela madrugada, quando saiu do trabalho caminhando sozinha pelas ruas quase vazias, Helena ainda sentia o olhar de Matteo Ferrentini queimando sobre ela. Ele sempre a observava. Sempre. Mesmo quando estava cercado por mulheres. Matteo era fogo, impulsivo, perigoso. E naquela noite, quando a viu sendo assediada por um estranho na rua, o fogo virou violência. Ele não hesitou. Helena soube, naquele instante, que estava entrando em território proibido, mas ela ainda não conhecia o verdadeiro perigo. O verdadeiro perigo não tinha olhos cor de mel, tinha olhos verdes escuros. E não beijava por impulso, oferecia contratos. Na manhã seguinte, Lorenzo Ferrentini entrou na cafeteria onde Helena trabalhava como se o mundo fosse propriedade sua. E talvez fosse. Ele não a olhou como mulher, a olhou como solução. Dias depois, faria uma proposta que mudaria o rumo da vida dela: Um casamento temporário. Dinheiro suficiente para salvar a mãe, e nenhum espaço para sentimentos. Helena acreditou que conseguiria separar coração de necessidade. Não conseguiu. Porque amar o homem errado era fácil, difícil era dividir o sobrenome com ele. E mais difícil ainda… Era começar a sentir algo pelo irmão que nunca prometeu amor.
Leer másA boate Sottovento não tinha janelas; lá dentro, o tempo era uma ilusão cara. Luzes douradas cortavam a fumaça de narguilé e charutos como lâminas, deslizando sobre vestidos de grife, ternos sob medida e taças de cristal que valiam o aluguel de Helena. O ar era pesado, uma mistura inebriante de perfume importado, álcool de elite e a mais pura ambição.
Helena ajustou a alça fina do uniforme preto — um pedaço de tecido justo que parecia curto demais para o seu conforto, mas perfeito para as gorjetas — e atravessou o salão. A bandeja era uma extensão de sua mão, equilibrada com a graça de quem já estava exausta. — Mesa VIP quer outra garrafa de Cristal, Helena — July, outra garçonete, avisou com um sorriso cínico. — E cuidado... o herdeiro ali não tira os olhos da sua bunda desde que você entrou no turno. Helena não precisou perguntar de quem se tratava. O magnetismo dele era uma força da natureza. Matteo Ferrentini estava relaxado no sofá de couro caramelo da área mais exclusiva. Uma ruiva de pernas longas estava montada em seu colo, enquanto uma morena sussurrava algo em seu ouvido, a mão possessiva em seu ombro. Ele ria de uma piada de um amigo, mas seus olhos verdes — escuros como uma floresta à noite — estavam fixos em um único ponto. Nela. A ruiva, percebendo a distração, passou a mão pelo peito de Matteo, tentando recuperar o território. — Matteo, você nem está prestando atenção no que eu digo... — Estou sim — ele murmurou, a voz como um veludo perigoso. — Continue. Mas era mentira. Ele assistia a cada passo de Helena, o modo como o quadril dela balançava ritmicamente, a curva delicada de seu pescoço. Quando ela se aproximou da mesa, o ar pareceu sumir dos pulmões de Helena. — O champanhe, senhores — disse ela, mantendo a voz profissional, embora sentisse o olhar de Matteo queimando sua pele como um ferro quente. — Finalmente a estrela da noite apareceu — exclamou Ricardo, o amigo de Matteo, erguendo a taça. Matteo inclinou a cabeça, observando-a sem qualquer pudor. Os olhos dele desceram pelo decote do uniforme, traçaram a linha de sua cintura fina e demoraram-se nas coxas expostas. — Você devia cobrar um adicional por desfilar assim, boneca. — Meu trabalho é servir, senhor Ferrentini. Apenas isso. Matteo soltou uma risada baixa, vibrante. A ruiva em seu colo empertigou-se, irritada. — Você conhece essa garçonete, Matteo? — Ainda não — ele respondeu, sem desviar o olhar de Helena. — Mas pretendo conhecer cada detalhe. Helena deu as costas, o coração disparado. Ela conhecia as regras: homens como os Ferrentini eram o topo da cadeia alimentar. Eles não pediam; eles tomavam. O Turno da Madrugada Duas horas depois, a Sottovento era um borrão de hedonismo. A música pulsava nas paredes e o álcool já havia derretido qualquer resquício de modos nos clientes. Matteo havia afastado as mulheres de perto de si e agora apenas observava, como um predador à espera do erro da presa. Helena entregava a conta para um grupo de empresários quando sentiu uma mão viscosa apertar a curva de sua nádega com força. Ela se virou bruscamente. Era um homem de meia-idade, a gravata torta e os olhos turvos de uísque. — Quanto você cobra para terminar a noite comigo, gracinha? — ele babou as palavras. — O senhor está confundindo as coisas. Me solte agora! — Ah, qual é? Todo mundo tem um preço — ele riu, puxando-a pelo braço. — Eu pago o dobro do que esse lixo de boate te dá. Helena se virou e saiu sem dizer mais nada. Quando o turno terminou, às três da manhã, Helena trocou os saltos por sapatilhas. Ela era apenas uma sombra atravessando a porta dos fundos para o beco frio. O silêncio da madrugada era um alívio, até que passos pesados ecoaram atrás dela. — Ei... princesa! Não terminamos nossa conversa! — Era o homem da gravata, ainda mais bêbado. Ele a prensou contra a parede de tijolos, o cheiro de álcool barato sufocando-a. — Eu disse que pago bem! Não faz a difícil! Helena tentou empurrá-lo, o medo subindo pela garganta, quando um vulto passou por ela. O som do primeiro soco foi seco, osso contra osso. O agressor cambaleou, o nariz jorrando sangue. Matteo estava ali. Ele não parecia um príncipe; parecia um carrasco. — Encosta nela de novo — rosnou ele — e eu garanto que você nunca mais vai sentir nada abaixo do pescoço. O homem fugiu, tropeçando nos próprios pés. Helena tremia, as mãos geladas. — Eu... eu ia resolver — ela sussurrou, tentando recuperar a dignidade. — Sozinha? — Matteo deu uma risada amarga, a adrenalina ainda fazendo seu peito subir e descer. Ele a acompanhou em silêncio até o prédio antigo onde ela morava. Helena pensava na mãe, Clara, e na doença degenerativa que devorava as economias que elas não tinham. Helena vivia em dois mundos: de dia, o avental bege da cafeteria, o cheiro de pó de café e a luta para pagar o tratamento experimental; à noite, o vestido preto e o olhar dos lobos. Na frente do prédio decadente, ela parou. — Obrigada. Você não precisava ter vindo até aqui. — Precisava sim — Matteo deu um passo à frente, invadindo o espaço pessoal dela. Ele segurou o rosto dela com mais força, obrigando-a a encarar a tempestade verde em seus olhos. — Você acha que eu gosto daquele lugar, Helena? — ele soltou uma risada curta, sem humor. — Eu odeio ver você naquele lugar, odeio como aqueles porcos olham para você como se pudessem te tocar. Helena franziu o cenho, confusa, mas ele não a deixou desviar o olhar. — Faz dois meses que eu bato ponto naquela mesa VIP. Dois meses que eu pago fortunas em garrafas, só para garantir que ninguém mais seja o seu cliente fixo. Eu não estou lá pelo champanhe, boneca... Eu estou lá para ver o modo como você morde o lábio quando está nervosa e como tenta esconder que esse uniforme é pequeno demais para o seu corpo. Ele inclinou o rosto, a respiração batendo contra a boca dela. — Eu não fui até aquele beco por coincidência. Eu nunca tiro os olhos de você. — Sr. Ferrentini... isso é... — Errado? — ele completou, a voz rouca. — Eu nunca fui bom em fazer o certo. Ele a beijou. Não foi um pedido; foi uma reivindicação. Tinha gosto de perigo e desejo reprimido. E Helena, traída pela própria carência e pelo calor que ele emanava, correspondeu, os dedos cravando-se na camisa cara dele. Quando se afastaram, ambos estavam sem fôlego. — Boa noite — ela disse, fugindo para a segurança do prédio antes que perdesse o juízo. Ela subiu as escadas, verificou a mãe que dormia calmamente e tomou um banho tentando lavar o toque dele de sua pele. Mas o destino já estava selado, Helena não sabia que, em poucas horas, naquela mesma manhã, um homem de olhos azuis cintilantes atravessaria a porta da cafeteria. E mudaria o valor de todas as decisões que ela acreditava controlar. Ele não viria para tomar café. Viria para comprar a única coisa que Helena jurou nunca vender: ela mesma.O suor da corrida esfriava em sua pele, mas o sangue ainda fervia com a adrenalina do encontro com Matteo. Assim que Helena colocou os pés dentro da mansão, ela mal conseguia respirar direito quando o celular em sua mão bipou, quebrando a quietude.A mensagem que ela esperara por quatro longos dias finalmente piscou na tela:Lorenzo“Não se esqueça que estou longe, mas você não está só.”Helena estancou no meio da sala. O texto era seco, quase um aviso cifrado. Um frio cortante subiu por sua espinha. Aquela onisciência fria de Lorenzo, que aparecia apenas para demarcar território, despertou uma audácia nova em seu peito.Ignorando o bom senso, ela digitou com um sarcasmo surreal:“Ah, é mesmo? Achei que tinha me esquecido aqui.”O visor voltou a escurecer. Silêncio. Não houve mais respostas, nem mesmo um aviso de leitura. Lorenzo jogava assim.Irritada com a própria dependência daquela atenção cega, Helena subiu, tomou um banho demorado e decidiu jantar no quarto, tentou focar nos liv
O isolamento acústico da mansão Ferrentini parecia amplificar o eco do pátio. Após o banho, a pele de Helena ainda ardia, mas não pela água quente. Com o celular na mão, ela encarou o nome de Lorenzo, buscando a segurança de um contrato frio para abafar a eletricidade que Matteo injetara em suas veias. Não ligou. Desistiu antes do primeiro toque.Sentou-se à mesa com o notebook prateado, forçando os olhos a focar nos conceitos de soberania estatal. Foi quando a tela do celular acendeu, quebrando o silêncio com duas notificações consecutivas."Ainda estou com sua pele em minha boca.""Só de pensar em você já fico louco."O ar fugiu de seus pulmões. O texto cru de Matteo era o oposto do protocolo dos Ferrentini; era íntimo, invasivo, quase tátil. Helena sentiu um calor violento subir pelo pescoço, o corpo respondendo à audácia do cunhado com uma urgência que a assustou. Sem responder, virou o aparelho com a tela para baixo e deitou-se, mas a escuridão do quarto parecia sussurrar as pala
As horas passaram rápido.Quando a última aula terminou, o céu já começava a escurecer em tons azulados.Camila fechou a mochila dramaticamente.— Sobrevivemos ao primeiro dia.— Por pouco — Caetano reclamou. — Meu cérebro pediu demissão na aula de economia.— Seu cérebro nunca trabalhou.— Injusta.Helena ria enquanto caminhavam para a saída, procurando o carro blindado de sêo Valdir. No entanto, estacionado exatamente na vaga da diretoria, havia um esportivo conversível vermelho, cortando a monotonia dos carros cinzas do campus.Encostado na porta do carro, de óculos escuros e uma jaqueta de couro que exalava rebeldia, estava ele.Matteo Ferrentini.coração dela tropeçou no peito.Camila percebeu imediatamente.— Opa… quem é o monumento italiano ali?Caetano arregalou os olhos.— ah para, eu sou bem mais bonito!Matteo sorriu lentamente ao vê-la.Aquele sorriso.— Helena.O coração de Helena deu um solavanco, uma mistura instantânea de pânico e um arrepio incômodo que subiu por sua
O restaurante ocupava a cobertura do 21º andar. Ao entrarem na sala reservada, Helena perdeu o fôlego. As paredes de vidro revelavam a cidade como um tapete de luzes pulsantes que terminava no abraço escuro e infinito do oceano.O garçom trouxe os cardápios e retirou-se silenciosamente. Foi nesse breve instante, em uma fresta da porta entreaberta, que Isadora, que jantava no salão principal com amigas, viu o perfil de Helena. O semblante de Isadora se fechou instantaneamente, as unhas cravando na palma da mão. A vontade era de invadir aquela sala e arrancar Helena do lugar que ela acreditava ser seu por direito.— Tudo bem, Isadora? Vamos? — Patrícia, uma mulher alta e elegante que a acompanhava, chamou sua atenção.— Ah, sim... achei que tinha visto alguém conhecido. Vamos — mentiu Isadora, seguindo para sua própria mesa, mas com o veneno já circulando nas veias.Dentro da sala privada, a atmosfera era outra. Lorenzo parecia mais intenso do que nunca.— A vista é hipnotizante — comen










Último capítulo