Mundo de ficçãoIniciar sessão
A boate Sottovento não tinha janelas; lá dentro, o tempo era uma ilusão cara. Luzes douradas cortavam a fumaça de narguilé e charutos como lâminas, deslizando sobre vestidos de grife, ternos sob medida e taças de cristal que valiam o aluguel de Helena. O ar era pesado, uma mistura inebriante de perfume importado, álcool de elite e a mais pura ambição.
Helena ajustou a alça fina do uniforme preto — um pedaço de tecido justo que parecia curto demais para o seu conforto, mas perfeito para as gorjetas — e atravessou o salão. A bandeja era uma extensão de sua mão, equilibrada com a graça de quem já estava exausta. — Mesa VIP quer outra garrafa de Cristal, Helena — July, outra garçonete, avisou com um sorriso cínico. — E cuidado... o herdeiro ali não tira os olhos da sua bunda desde que você entrou no turno. Helena não precisou perguntar de quem se tratava. O magnetismo dele era uma força da natureza. Matteo Ferrentini estava relaxado no sofá de couro caramelo da área mais exclusiva. Uma ruiva de pernas longas estava montada em seu colo, enquanto uma morena sussurrava algo em seu ouvido, a mão possessiva em seu ombro. Ele ria de uma piada de um amigo, mas seus olhos verdes — escuros como uma floresta à noite — estavam fixos em um único ponto. Nela. A ruiva, percebendo a distração, passou a mão pelo peito de Matteo, tentando recuperar o território. — Matteo, você nem está prestando atenção no que eu digo... — Estou sim — ele murmurou, a voz como um veludo perigoso. — Continue. Mas era mentira. Ele assistia a cada passo de Helena, o modo como o quadril dela balançava ritmicamente, a curva delicada de seu pescoço. Quando ela se aproximou da mesa, o ar pareceu sumir dos pulmões de Helena. — O champanhe, senhores — disse ela, mantendo a voz profissional, embora sentisse o olhar de Matteo queimando sua pele como um ferro quente. — Finalmente a estrela da noite apareceu — exclamou Ricardo, o amigo de Matteo, erguendo a taça. Matteo inclinou a cabeça, observando-a sem qualquer pudor. Os olhos dele desceram pelo decote do uniforme, traçaram a linha de sua cintura fina e demoraram-se nas coxas expostas. — Você devia cobrar um adicional por desfilar assim, boneca. — Meu trabalho é servir, senhor Ferrentini. Apenas isso. Matteo soltou uma risada baixa, vibrante. A ruiva em seu colo empertigou-se, irritada. — Você conhece essa garçonete, Matteo? — Ainda não — ele respondeu, sem desviar o olhar de Helena. — Mas pretendo conhecer cada detalhe. Helena deu as costas, o coração disparado. Ela conhecia as regras: homens como os Ferrentini eram o topo da cadeia alimentar. Eles não pediam; eles tomavam. O Turno da Madrugada Duas horas depois, a Sottovento era um borrão de hedonismo. A música pulsava nas paredes e o álcool já havia derretido qualquer resquício de modos nos clientes. Matteo havia afastado as mulheres de perto de si e agora apenas observava, como um predador à espera do erro da presa. Helena entregava a conta para um grupo de empresários quando sentiu uma mão viscosa apertar a curva de sua nádega com força. Ela se virou bruscamente. Era um homem de meia-idade, a gravata torta e os olhos turvos de uísque. — Quanto você cobra para terminar a noite comigo, gracinha? — ele babou as palavras. — O senhor está confundindo as coisas. Me solte agora! — Ah, qual é? Todo mundo tem um preço — ele riu, puxando-a pelo braço. — Eu pago o dobro do que esse lixo de boate te dá. Helena se virou e saiu sem dizer mais nada. Quando o turno terminou, às três da manhã, Helena trocou os saltos por sapatilhas. Ela era apenas uma sombra atravessando a porta dos fundos para o beco frio. O silêncio da madrugada era um alívio, até que passos pesados ecoaram atrás dela. — Ei... princesa! Não terminamos nossa conversa! — Era o homem da gravata, ainda mais bêbado. Ele a prensou contra a parede de tijolos, o cheiro de álcool barato sufocando-a. — Eu disse que pago bem! Não faz a difícil! Helena tentou empurrá-lo, o medo subindo pela garganta, quando um vulto passou por ela. O som do primeiro soco foi seco, osso contra osso. O agressor cambaleou, o nariz jorrando sangue. Matteo estava ali. Ele não parecia um príncipe; parecia um carrasco. — Encosta nela de novo — rosnou ele — e eu garanto que você nunca mais vai sentir nada abaixo do pescoço. O homem fugiu, tropeçando nos próprios pés. Helena tremia, as mãos geladas. — Eu... eu ia resolver — ela sussurrou, tentando recuperar a dignidade. — Sozinha? — Matteo deu uma risada amarga, a adrenalina ainda fazendo seu peito subir e descer. Ele a acompanhou em silêncio até o prédio antigo onde ela morava. Helena pensava na mãe, Clara, e na doença degenerativa que devorava as economias que elas não tinham. Helena vivia em dois mundos: de dia, o avental bege da cafeteria, o cheiro de pó de café e a luta para pagar o tratamento experimental; à noite, o vestido preto e o olhar dos lobos. Na frente do prédio decadente, ela parou. — Obrigada. Você não precisava ter vindo até aqui. — Precisava sim — Matteo deu um passo à frente, invadindo o espaço pessoal dela. Ele segurou o rosto dela com mais força, obrigando-a a encarar a tempestade verde em seus olhos. — Você acha que eu gosto daquele lugar, Helena? — ele soltou uma risada curta, sem humor. — Eu odeio ver você naquele lugar, odeio como aqueles porcos olham para você como se pudessem te tocar. Helena franziu o cenho, confusa, mas ele não a deixou desviar o olhar. — Faz dois meses que eu bato ponto naquela mesa VIP. Dois meses que eu pago fortunas em garrafas, só para garantir que ninguém mais seja o seu cliente fixo. Eu não estou lá pelo champanhe, boneca... Eu estou lá para ver o modo como você morde o lábio quando está nervosa e como tenta esconder que esse uniforme é pequeno demais para o seu corpo. Ele inclinou o rosto, a respiração batendo contra a boca dela. — Eu não fui até aquele beco por coincidência. Eu nunca tiro os olhos de você. — Sr. Ferrentini... isso é... — Errado? — ele completou, a voz rouca. — Eu nunca fui bom em fazer o certo. Ele a beijou. Não foi um pedido; foi uma reivindicação. Tinha gosto de perigo e desejo reprimido. E Helena, traída pela própria carência e pelo calor que ele emanava, correspondeu, os dedos cravando-se na camisa cara dele. Quando se afastaram, ambos estavam sem fôlego. — Boa noite — ela disse, fugindo para a segurança do prédio antes que perdesse o juízo. Ela subiu as escadas, verificou a mãe que dormia calmamente e tomou um banho tentando lavar o toque dele de sua pele. Mas o destino já estava selado, Helena não sabia que, em poucas horas, naquela mesma manhã, um homem de olhos azuis cintilantes atravessaria a porta da cafeteria. E mudaria o valor de todas as decisões que ela acreditava controlar. Ele não viria para tomar café. Viria para comprar a única coisa que Helena jurou nunca vender: ela mesma.






