Mundo de ficçãoIniciar sessãoA manhã chegou com o peso de uma ressaca, embora Helena não tivesse bebido uma gota. Ela acordou exausta, o corpo ainda vibrando com a lembrança do beijo de Matteo.
— Droga! — bufou, afastando os fios de cabelo loiros que insistiam em colar no rosto suado. Vestiu-se às pressas. Antes de sair, o ritual de sempre: o quarto da mãe. O cheiro de antissépticos e o perfume suave de lavanda eram o lembrete diário de sua luta. Ela administrou a medicação com mãos firmes, apesar do cansaço, e beijou a testa de Clara. — Volto logo, mãe. Prometo. Na cafeteria Florença, o aroma de grãos torrados era a única coisa acolhedora. Dona Lucinda, a dona do estabelecimento, lançou-lhe um olhar que atravessava o balcão como uma adaga, mas o fluxo de clientes salvou Helena de um sermão sobre o atraso. Ela amarrou o avental bege, forçou um sorriso e começou a coreografia de servir, anotar e limpar. Até que o sino da porta tilintou, e o ar na cafeteria pareceu congelar. Lorenzo Ferrentini não entrava em um lugar; ele o dominava. Impecável em um terno grafite que gritava alfaiataria italiana, ele era o oposto do irmão. Enquanto Matteo era o caos sedutor, Lorenzo era a ordem implacável. Ele se sentou na mesa mais reservada, perto da janela, e abriu uma pasta de couro preta com o brasão da família em relevo dourado. Ele não olhou para Helena. Para ele, ela era apenas parte do cenário, até que não fosse mais. Lorenzo encarava a Cláusula 7 do contrato à sua frente: Casamento. A avó, a matriarca dos Ferrentini, tinha dado o xeque-mate. Se ele não se casasse em trinta dias, o controle acionário do império iria para Matteo. O pensamento de ver o irmão — o homem que passava as noites em boates — destruindo o legado da família fazia o sangue de Lorenzo ferver. O celular dele vibrou. Ele atendeu, a voz baixa e cortante: — Eu já li, porra. "União formal por dois anos". Ela quer estabilidade, eu vou dar um contrato. Helena se aproximou com a xícara de café preto, ouvindo apenas fragmentos. "...transferir para Matteo... não vou me casar por amor..." Ao tentar posicionar a xícara, Lorenzo se levantou abruptamente, irritado com a conversa ao telefone. O impacto foi inevitável. O café escaldante se espalhou pelo paletó de luxo e pela camisa branca dele. O silêncio na cafeteria foi ensurdecedor. Dona Lucinda levou a mão ao peito. Helena sentiu o olhar de Lorenzo — um azul gélido, desprovido de qualquer empatia — cravar-se nela. — Você costuma atacar seus clientes ou eu fui o premiado do dia? — ele perguntou, a voz perigosamente baixa. Helena não baixou a cabeça. O orgulho era a única coisa que lhe restava. — O senhor se levantou de repente, eu estava apenas fazendo meu trabalho. Lorenzo parou, ele esperava lágrimas, desculpas gaguejadas. Em vez disso, encontrou uma mulher de olhos azuis desafiadores e uma beleza que, mesmo sob um avental barato, era ofensiva de tão perfeita. Foi ali, naquele milésimo de segundo, que o cálculo frio aconteceu na mente dele. Ela precisa de dinheiro, e eu preciso de uma esposa que possa ser comprada e controlada. — Qual o seu horário de saída? — ele disparou, ignorando a mancha no peito. — Às quatro da tarde — ela respondeu, confusa. — Te encontro lá fora. Tenho uma proposta que vai mudar sua vida, Helena. Às dezesseis horas, um sedã preto com vidros blindados já a esperava. O motorista abriu a porta como se ela fosse realeza, mas Helena sentia que estava entrando em uma gaiola. Lá dentro, o perfume de Lorenzo era amadeirado, caro e opressor. — Entre — ordenou ele, sem desviar os olhos dos papéis. O carro começou a se mover. Lorenzo não perdeu tempo com cortesias. — Qual é o seu preço? — Perdão? — Helena virou o rosto, ofendida. — Tenho uma proposta — ele fechou a pasta com um estalo seco. — Quero que você se apresente ao mundo como minha esposa pelos próximos dois anos. Em troca, eu farei um depósito que garantirá que você nunca mais precise servir um café ou pisar naquela boate imunda na sua vida. Helena sentiu o estômago revirar. — O senhor está ficando louco, eu não sou uma mercadoria. Lorenzo se inclinou para frente, invadindo o espaço dela, o rosto a centímetros do dela. — Loucura é morar naquela pocilga que você chama de casa, loucura é deixar sua mãe morrer em um hospital público por falta de recursos enquanto você tenta ser "honesta" ganhando gorjetas de bêbados. Helena enrijeceu. O fato de ele saber sobre sua mãe a fez se sentir despida, vulnerável. — Eu sei tudo sobre você, Helena. Sei sobre o tratamento experimental no exterior, sei sobre as dívidas acumuladas. — O sorriso dele era puramente sarcástico. — Isso ainda soa como loucura ou soa como a sua única saída? As imagens de Matteo se chocaram na mente dela. O beijo de um, o contrato do outro, a luxúria contra a sobrevivência. — Posso ler o contrato? — ela estendeu a mão, a voz firme apesar do tremor interno. — Você tem até amanhã — ele entregou os papéis. — E Helena... lembre-se: sem sentimentos. Isso é apenas uma transação comercial. O carro parou. Helena desceu sentindo o peso do papel em suas mãos. Ela não sabia que estava prestes a assinar sua alma para um demônio em um terno de três peças.






