Capítulo 3

Helena voltou para casa com a mente em um turbilhão. A rotina, porém, não esperava por suas crises existenciais, com a delicadeza de quem carrega um cristal, ela ajudou a mãe no banho, secou seus cabelos ralos e administrou a medicação. Só quando Clara adormeceu é que Helena se permitiu desmoronar no próprio quarto.

​Encarando o reflexo no espelho enquanto se maquiava para a Sottovento, ela via o contraste: a filha dedicada de dia, a "musa" intocável da noite. Seria tão mais fácil aceitar... O pensamento era um veneno doce.

​A Sala Exclusiva

​Naquela noite, a Sottovento pulsava com uma energia agressiva. Magnatas riam alto sobre mesas de pôquer, e o dinheiro fluía como o álcool. Duas horas após o início do turno, Matteo chegou. Ele não sorria. Estava com o semblante fechado, predatório. Foi direto para a sala exclusiva e pediu whisky.

​Helena circulava, profissional e impecável, até que seus olhos bateram na porta da área VIP. O coração dela errou a batida. Matteo não estava mais sozinho.

​Havia outro homem lá. A postura rígida, a presença que parecia sugar o oxigênio do ambiente sem dizer uma palavra... Inconfundível. O rádio interno chiou, trazendo a sentença:

— Outro whisky para a sala exclusiva, Helena.

​Ela respirou fundo, endireitou a coluna e entrou.

​— Quero que conheça minha musa inspiradora… Helena — Matteo disse assim que ela cruzou a soleira, a voz carregada de uma posse que ele ainda não tinha direito de exercer.

​Lorenzo a fitava, o copo de whisky parado a meio caminho da boca. O gelo nos olhos dele encontrou o fogo no olhar de Matteo.

​— Helena, este é meu irmão, Lorenzo — completou Matteo.

O mundo de Helena desmoronou e se reconstruiu em um segundo. Irmãos... ela ainda não tinha ligado um com o outro. Matteo era o impulso, o sorriso fácil e o perigo quente. Lorenzo era o cálculo, o silêncio cortante e o gelo que queimava. Os Ferrentini, os donos da cidade.

​— É um prazer, Sr. Ferrentini — ela disse, a voz saindo mais firme do que esperava. Ela serviu o líquido âmbar, sentindo o peso do olhar de Lorenzo em suas curvas.

Quando ela se virou para sair, a voz de Lorenzo a chicoteou:

— Helena, até amanhã. Às dezesseis horas!

​Matteo travou. O cenho franzido denunciava que ele acabara de descobrir que o irmão estava jogando em seu território. Helena não respondeu, saindo da sala enquanto o clima lá dentro explodia.

​— Explique — Matteo rosnou, levantando-se.

​Lorenzo girou o whisky no copo, uma calma irritante emanando de cada poro.

— Não há nada com o que se preocupar, irmão. Continue com suas orgias e modelos descartáveis. Eu estou cuidando dos negócios.

​— Fale agora! — Matteo esbravejou, batendo na mesa.

Lorenzo ergueu os olhos devagar e deu um sorriso malicioso, o tipo de sorriso que precede um golpe fatal.

— Eu e Helena estamos tratando de negócios, Matteo. Eu a pedi em casamento, estou aguardando a resposta.

O silêncio que se seguiu foi violento. Matteo parecia prestes a saltar sobre a mesa.

— Por quê? Você sabia que eu a queria! Você quer tudo que é meu, Lorenzo! Sempre foi assim!

​— Ah, por favor, não seja ridículo — Lorenzo levantou-se com elegância impecável, ajustando o paletó. — Eu tenho muito mais do que você jamais terá. E Helena... eu só preciso dela por dois anos. Depois disso, faça o que quiser com o que sobrar dela.

​— Você é doente — Matteo sibilou.

​— Negócios, irmão. — Lorenzo caminhou até a porta e, antes de sair, lançou o último dardo: — Aliás, eu nem sabia que você tinha algo por ela. Achei que ela fosse apenas... mais uma.

Matteo a esperava na saída, encostado na parede fria do beco. Assim que ela apareceu, ele a cercou.

​— Você não está pensando em aceitar, não é?

​— Isso só diz respeito a mim, Matteo — ela tentou continuar andando, mas ele a acompanhou, o hálito de whisky e desejo pairando no ar frio.

​— Você não pode. Eu conheço ele. Você não vai ser feliz com um monstro como o Lorenzo.

Helena parou abruptamente, os olhos azuis faiscando sob a luz amarela dos postes.

— E quem disse que eu busco felicidade? Eu não preciso de sentimentos, Matteo. Eu preciso de soluções. O seu irmão oferece um contrato; você oferece o quê? Beijos em becos?

​Matteo enrijeceu. Ele se aproximou, a voz baixando para um tom perigosamente íntimo.

— Eu gosto de você, Helena, desde a primeira noite. Eu não olho para você como ele olha, como se fosse uma cláusula contratual.

​— Sr. Ferrentini, por favor… — ela soltou uma risada amarga. — O senhor tem cinco mulheres por noite. Você não sabe a diferença entre gostar e querer possuir o que não pode ter.

​— Você acha mesmo que eu não sei a diferença entre desejo e... algo mais? — Ele tentou tocar o rosto dela, mas Helena recuou.

​— Já está tarde. Eu preciso ir.

​— Não aceite — ele pediu, a voz carregada de uma urgência que quase a fez fraquejar.

​Ela não olhou para trás. Caminhou pela rua deserta, sentindo o peso do contrato em sua bolsa e o calor do beijo de Matteo ainda queimando em seus lábios. Ela estava prestes a entrar em uma casa onde o marido seria seu dono, e o cunhado, sua maior tentação.

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