Capítulo 4

Helena entrou em casa como se carregasse o peso do mundo nos ombros. A rotina era um anestésico: banho na mãe, remédios, o ajuste suave do cobertor. Só quando a porta do próprio quarto se fechou é que o silêncio se tornou ensurdecedor.

Sentada na beira da cama, ela abriu a pasta preta. O brasão dourado dos Ferrentini parecia zombar da sua pobreza.

Ela leu as cláusulas padrão, mas o coração parou na página 4.

​“As partes deverão manter convivência conjugal plena, incluindo intimidade física, sempre que solicitada pelo cônjuge varão.”

O ar fugiu. Intimidade física? Sempre que solicitada? Helena sentiu um arrepio que não era frio. Lorenzo não queria apenas uma esposa de fachada; ele queria um corpo disponível.

Ao virar a página, o "pagamento" pelo seu sacrifício: tratamento hospitalar de ponta, equipe 24 horas, jatos particulares para especialistas e uma pensão mensal de cinquenta mil reais.

​Era o valor da sua liberdade. Cinquenta mil por mês para ser o brinquedo de luxo de um homem de gelo. Ela fechou os olhos, e a imagem de Matteo — o beijo quente, o toque proibido — colidiu com a imagem de Lorenzo e seu olhar de quem compra o que deseja.

No dia seguinte, a cafeteria parecia pequena demais para Helena. Às dezesseis horas, o sedã blindado estava lá, como um tubarão esperando a presa. Ela entrou, segurando o contrato contra o peito como um escudo.

​— Então? — Lorenzo perguntou sem tirar os olhos do tablet. — Assinou ou vai continuar desperdiçando meu tempo?

​Helena abriu o documento na página marcada. Seu dedo tremeu levemente ao apontar para a cláusula de intimidade.

— Isso aqui... por que isso é necessário?

Lorenzo largou o tablet e inclinou-se na direção dela. O perfume dele era caro, opressor.

— Helena, não somos adolescentes. — A voz dele era um rosnado civilizado. — Você acha que vou pagar milhões, exigir fidelidade absoluta e passar dois anos dormindo sozinho enquanto minha esposa "por contrato" desfila pela casa? Não precisa de amor para isso. Precisa apenas de um corpo funcional.

O rosto dela queimou. A arrogância dele era um insulto.

— Você é um monstro — ela sussurrou.

​— Sou um homem de negócios. E você é o melhor investimento que encontrei para manter meu império. — Ele sorriu sem dentes. — Agora, assine. Ou prefere esperar pelo Matteo? Ele se apaixona por uma garçonete diferente a cada fim de semana. Eu estou oferecendo a vida da sua mãe.

​— Preciso de mais tempo — ela disse, saindo do carro antes que ele visse as lágrimas de ódio.

Assim que dobrou a esquina, Matteo a interceptou. Ele estava encostado na parede, a jaqueta de couro gasta, o olhar ansioso.

​— Não aceita, Helena. Eu posso te dar o que você precisar. Eu dou um jeito!

​— Um jeito como, Matteo? — Helena explodiu. — Pedindo dinheiro para o seu irmão? Ou para a sua avó? Você vive da mesma herança que ele controla! Eu não sou uma moeda de troca em um leilão de irmãos!

​Antes que Matteo pudesse protestar, o celular dela tocou. Era o hospital.

O mundo desmoronou em câmera lenta.

O trajeto até o hospital no carro de Matteo foi um borrão de luzes e desespero. Helena apertava a pasta contra o colo. O cheiro de antisséptico no corredor a atingiu como um soco.

​— Ela teve uma crise respiratória grave — explicou o médico, o semblante sombrio. — Estabilizamos, mas... Helena, o quadro avançou. Na próxima crise, os pulmões dela não vão aguentar. Precisamos do tratamento experimental hoje. Sem ele, ela não passa da semana.

Matteo estava ao lado dela, a mão no ombro dela em um gesto de apoio, mas Helena sentiu o peso da realidade. Matteo tinha o coração, mas Lorenzo tinha o poder.

​Sozinha no quarto com a mãe, Helena observou o rosto pálido de Clara, aquela mulher tinha lhe dado tudo. Agora, era a vez de Helena.

​— Dane-se... — murmurou, a voz quebrada pelo choro.

Ela pegou a caneta e assinou. O traço foi firme, definitivo: Helena Bianchi Campbell.

Pegou o celular e enviou a mensagem para Lorenzo: “Está assinado.”

Trinta segundos depois, o visor brilhou: “A equipe médica já está a caminho do hospital. Amanhã, às oito, o carro te pega para o cartório. Bem-vinda à família, Sra. Ferrentini.”

Helena olhou para a mãe e acariciou seu cabelo.

— Vai ficar tudo bem agora, mãe...

Ela sabia que tinha acabado de vender sua alma. E, ao olhar para a porta, viu a silhueta de Matteo observando-a do corredor. O olhar dele era de perda absoluta. Ela agora pertencia ao irmão dele. No papel, na cama e no sobrenome.

​Mas a guerra estava apenas começando.

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