Mundo de ficçãoIniciar sessãoHelena entrou em casa como se carregasse o peso do mundo nos ombros. A rotina era um anestésico: banho na mãe, remédios, o ajuste suave do cobertor. Só quando a porta do próprio quarto se fechou é que o silêncio se tornou ensurdecedor.
Sentada na beira da cama, ela abriu a pasta preta. O brasão dourado dos Ferrentini parecia zombar da sua pobreza. Ela leu as cláusulas padrão, mas o coração parou na página 4. “As partes deverão manter convivência conjugal plena, incluindo intimidade física, sempre que solicitada pelo cônjuge varão.” O ar fugiu. Intimidade física? Sempre que solicitada? Helena sentiu um arrepio que não era frio. Lorenzo não queria apenas uma esposa de fachada; ele queria um corpo disponível. Ao virar a página, o "pagamento" pelo seu sacrifício: tratamento hospitalar de ponta, equipe 24 horas, jatos particulares para especialistas e uma pensão mensal de cinquenta mil reais. Era o valor da sua liberdade. Cinquenta mil por mês para ser o brinquedo de luxo de um homem de gelo. Ela fechou os olhos, e a imagem de Matteo — o beijo quente, o toque proibido — colidiu com a imagem de Lorenzo e seu olhar de quem compra o que deseja. No dia seguinte, a cafeteria parecia pequena demais para Helena. Às dezesseis horas, o sedã blindado estava lá, como um tubarão esperando a presa. Ela entrou, segurando o contrato contra o peito como um escudo. — Então? — Lorenzo perguntou sem tirar os olhos do tablet. — Assinou ou vai continuar desperdiçando meu tempo? Helena abriu o documento na página marcada. Seu dedo tremeu levemente ao apontar para a cláusula de intimidade. — Isso aqui... por que isso é necessário? Lorenzo largou o tablet e inclinou-se na direção dela. O perfume dele era caro, opressor. — Helena, não somos adolescentes. — A voz dele era um rosnado civilizado. — Você acha que vou pagar milhões, exigir fidelidade absoluta e passar dois anos dormindo sozinho enquanto minha esposa "por contrato" desfila pela casa? Não precisa de amor para isso. Precisa apenas de um corpo funcional. O rosto dela queimou. A arrogância dele era um insulto. — Você é um monstro — ela sussurrou. — Sou um homem de negócios. E você é o melhor investimento que encontrei para manter meu império. — Ele sorriu sem dentes. — Agora, assine. Ou prefere esperar pelo Matteo? Ele se apaixona por uma garçonete diferente a cada fim de semana. Eu estou oferecendo a vida da sua mãe. — Preciso de mais tempo — ela disse, saindo do carro antes que ele visse as lágrimas de ódio. Assim que dobrou a esquina, Matteo a interceptou. Ele estava encostado na parede, a jaqueta de couro gasta, o olhar ansioso. — Não aceita, Helena. Eu posso te dar o que você precisar. Eu dou um jeito! — Um jeito como, Matteo? — Helena explodiu. — Pedindo dinheiro para o seu irmão? Ou para a sua avó? Você vive da mesma herança que ele controla! Eu não sou uma moeda de troca em um leilão de irmãos! Antes que Matteo pudesse protestar, o celular dela tocou. Era o hospital. O mundo desmoronou em câmera lenta. O trajeto até o hospital no carro de Matteo foi um borrão de luzes e desespero. Helena apertava a pasta contra o colo. O cheiro de antisséptico no corredor a atingiu como um soco. — Ela teve uma crise respiratória grave — explicou o médico, o semblante sombrio. — Estabilizamos, mas... Helena, o quadro avançou. Na próxima crise, os pulmões dela não vão aguentar. Precisamos do tratamento experimental hoje. Sem ele, ela não passa da semana. Matteo estava ao lado dela, a mão no ombro dela em um gesto de apoio, mas Helena sentiu o peso da realidade. Matteo tinha o coração, mas Lorenzo tinha o poder. Sozinha no quarto com a mãe, Helena observou o rosto pálido de Clara, aquela mulher tinha lhe dado tudo. Agora, era a vez de Helena. — Dane-se... — murmurou, a voz quebrada pelo choro. Ela pegou a caneta e assinou. O traço foi firme, definitivo: Helena Bianchi Campbell. Pegou o celular e enviou a mensagem para Lorenzo: “Está assinado.” Trinta segundos depois, o visor brilhou: “A equipe médica já está a caminho do hospital. Amanhã, às oito, o carro te pega para o cartório. Bem-vinda à família, Sra. Ferrentini.” Helena olhou para a mãe e acariciou seu cabelo. — Vai ficar tudo bem agora, mãe... Ela sabia que tinha acabado de vender sua alma. E, ao olhar para a porta, viu a silhueta de Matteo observando-a do corredor. O olhar dele era de perda absoluta. Ela agora pertencia ao irmão dele. No papel, na cama e no sobrenome. Mas a guerra estava apenas começando.






