Capítulo 5

O sol mal havia cruzado o horizonte quando a porta do quarto no hospital antigo se abriu. O médico entrou com uma postura que Helena nunca tinha visto antes: respeito misturado com temor.

​— Srta. Campbell... Seu esposo acabou de coordenar a transferência da sua mãe para o Hospital Maggiore. A equipe de resgate avançado já está no pátio.

​— Esposo? — O termo travou na garganta de Helena.

​— O Sr. Lorenzo Ferrentini enviou a documentação oficial há trinta minutos. — O médico consultou o tablet. — O Maggiore é a elite da medicina mundial. Eles têm uma ala de isolamento biológico e tecnologia que nós nem sonhamos em ter aqui. Sinceramente... é o milagre que você buscava.

Enquanto enfermeiros organizavam a transferência com uma precisão cirúrgica, Helena assistia a tudo em transe. Eu posso te oferecer o que você precisa. As palavras de Lorenzo agora tinham rosto, forma e som. Ele não tinha apenas comprado o silêncio dela; ele tinha comprado a vida da mãe dela.

Quando a ambulância parou diante do Hospital Maggiore, Helena sentiu que entrava em outro planeta. Fachada de vidro, mármore impecável e a Dra. Roberta Benevilk, uma das maiores especialistas do país, já a aguardava na porta.

Clara foi instalada em uma suíte que parecia um hotel cinco estrelas. Equipamentos silenciosos, luz natural e a promessa de que nada faltaria. No meio daquela opulência, um homem de terno cinza surgiu.

​— Srta. Campbell? Sou o advogado do Sr. Ferrentini. Vim buscar o contrato assinado.

Helena entregou a pasta preta. O gesto foi seco. O papel sumiu na pasta do advogado, e com ele, qualquer vestígio da antiga Helena.

Enquanto isso, no hospital antigo, Matteo atravessava o corredor com um buquê de flores do campo e o peito apertado. Quando chegou ao balcão, a notícia o atingiu como um tiro.

​— Ela foi transferida para o Maggiore agora há pouco, senhor.

Matteo soltou as flores no chão, ele sabia o que aquilo significava. Lorenzo tinha vencido. Ele acelerou o carro, o motor roncando em fúria até chegar à entrada dos fundos do Maggiore. Ele conhecia os seguranças; o sobrenome Ferrentini abria portas, mesmo as que o irmão tentava trancar.

Ele encontrou Helena no jardim de inverno do hospital, tentando processar tudo.

​— Você assinou — Matteo disse, a voz rouca de dor.

Helena virou-se, os olhos marejados. — Eu não tive escolha, Matteo! Ela ia morrer!

​— Você sempre tem escolha! — Ele a prensou contra uma coluna de mármore, as mãos segurando seus braços com urgência. — Você se vendeu para um homem que não sabe o que é sentir nada!

​— E o que você faria? — ela gritou, batendo no peito dele. — Flores, Matteo? Você me daria flores enquanto ela parava de respirar?

O silêncio que se seguiu foi carregado de eletricidade. Matteo a olhou com uma fome desesperada, ele não aguentou. Avançou, selando os lábios nos dela em um beijo que não tinha nada de delicado. Tinha gosto de despedida, de posse e de uma promessa quebrada. Helena tentou resistir por um segundo, mas suas mãos se cravaram na jaqueta de couro dele, correspondendo com a mesma intensidade trágica.

Ela o empurrou, ofegante. — Vá embora. Eu sou a mulher do seu irmão agora.

​— No papel, Helena — ele sibilou, limpando a boca com o dorso da mão. — Mas esse beijo... esse beijo ele nunca vai conseguir comprar de você.

Ao entardecer, o carro de Lorenzo a buscou. A mansão Ferrentini era um monumento à arrogância, colunas altas, jardins simétricos e uma fileira de empregados que a saudaram como se ela fosse uma rainha — ou um troféu caro.

Lorenzo a esperava no hall, impecável em um terno escuro.

— Bem-vinda à sua nova vida, Helena.

Ele a guiou pela casa, apresentando cada ala como se mostrasse um museu, no quarto principal, Helena ficou sem fôlego. O closet estava lotado de roupas de grife, todas com seu novo nome nas etiquetas.

Ela tomou um banho demorado, tentando lavar o toque de Matteo de sua pele antes de enfrentar o marido. Escolheu um vestido de seda champagne, curto o suficiente para ser provocante, mas elegante o bastante para a mesa dos Ferrentini.

O jantar foi silencioso, apenas o som dos talheres contra a porcelana cara.

— O hospital está do seu agrado? — Lorenzo perguntou, sem erguer os olhos.

​— É perfeito. Obrigada.

​— Não me agradeça, é um negócio. — Ele limpou os lábios com o guardanapo de linho e levantou-se. — Tenha uma boa noite, Helena. Prepare-se. Amanhã teremos nosso primeiro evento oficial. O mundo precisa ver a nova Sra. Ferrentini.

Ele saiu em direção ao escritório. Helena subiu para o quarto e foi até a varanda. O jardim estava iluminado, mas ela se sentia na mais profunda escuridão. Ela olhou para a cama vasta atrás de si e depois para a escuridão do jardim, imaginando se Matteo estaria em algum lugar lá fora, observando-a.

Aquela era apenas a primeira noite. E ela já sentia que as paredes estavam começando a se fechar

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